Tá chato mesmo? Esses dias, lendo um texto da jornalista Nina Lemos, na TPM, sobre o título acima, onde ela questionava se o mundo está realmente chato ou se as pessoas acham mesmo divertido fazer piada de homossexual, me dei conta de algo extremamente importante. Fazemos o quê: ignoramos a informação que hoje temos e continuamos a viver de piadas ou tomamos as rédeas do conhecimento? Porque como faz pra não provocar a mudança quando se tem consciência do conhecimento? Sim, porque daí veja a Mattel. Demorou. Perderam o timing, mas provocaram a virada na boneca mais plastificada (literalmente) do mundo. Veja bem, o que tem a ver o texto da Nina Lemos com a Mattel? Tudo. O mundo não está chato. Temos mais informação, mais conhecimento, e isso provoca a consciência. Não dá pra gente continuar na superfície da água quando outros resolveram mergulhar. Pensa bem.

 

E daí temos a Mattel, líder em fabricação de brinquedos infantis, fazendo o que era esperado havia anos. A Barbie perdeu a liderança de boneca mais vendida para a Monster High, que também é da marca. Aquelas, aparentemente, horrorosas e esquisitas que as meninas adoram. Por que será? Fácil. Porque elas se distanciam da imagem irreal e inalcançável que é a loira, magra, de cabelos lisos, americana de família margarina. Imagem tão construída que escorrega da mão – feito margarina.

 

Barbie perdeu liderança. Mattel não conseguia mais colocar a boneca na top list, nem fazendo eventos especiais com estilistas e o povo de moda. Teve que rever seus ideais americanos e seus conceitos – ou preconceitos. Agora você pode ter uma Barbie baixinha, gordinha (é gordinha mesmo que eu tô falando), a de quadril largo, a negra… One size does not fit all (apenas um tamanho não serve pra todos) é o novo lema. A Playmobil também lançou um boneco cadeirante. Os grandes players estão se dando conta. E as crianças agradecem. O futuro também. Brincar com similares ajuda a desmistificar as diferenças. Porque o que incomoda está tão próximo que se torna normal. A criança tem a possibilidade de lidar com diferentes situações ali na brincadeira. E com as diferenças. Tudo numa boa. Porque, quanto mais diferenças o mundo tiver, mais semelhantes teremos. Lembra dos campos magnéticos da física? Aproximando dois polos opostos gera uma força atrativa. O contrário, quando se aproximam polos semelhantes, é força repulsiva. A mesma física vale na vida humana. Semelhantes competem entre si e se repelem, tamanha é a competição. Quando existe a diferença é possível olhar, e se relacionar com o outro, de forma curiosa, cuidadosa e carinhosa.

 

A Nina Lemos está certa. O mundo não está chato, não. Claro que precisa de um pouco mais de equilíbrio e bom senso, mas é nessa luta entre polos que vamos chegar lá. Não precisa criticar tudo e fazer marcação cerrada em tudo e todas. Mas também não precisamos, e não devemos, continuar fazendo piadinhas idiotas de gay, negro, mulher gostosa, gordinhos, magrelos ou gente “estranha”. “Festa estranha com gente esquisita” é a música do Legião Urbana. Se temos consciência não podemos ignorá-la. E assim se ensinam os pequenos que diferenças precisam ser respeitadas e acolhidas. Acolher – do latim acolligere –, levar em consideração, receber. Sejam todos bem-vindos!