Esse é quase o título de um capítulo do texto “Agora eu era herói”, da arte educadora Ana Albano, que eu li semana passada. O título completo é “O desenho livre e o desenho abandonado”. Confesso: desenho abandonado me bateu no peito.

Numa cena de estágio, vivida numa escola particular em 2018, me dei conta de algo que nunca tinha percebido no exercício de desenhar de uma criança. Este menino, de então 4 anos, me convidou a sentar ao seu lado e desenhar junto com ele. Pega uma folha amarela, pede que eu escolha entre duas canetas que estão na sua mão e diz, apontando o canto direito da folha, que eu desenho ali e ele aqui (apontando o lado esquerdo da folha). Eu espero ele começar porque quero entender o que ele quer colocar ali no papel. Ele começa a desenhar uma espaçonave e entendo que algo da viagem à Disney que ele tinha acabado de fazer ia aparecer ali – e vem.

Mas, naquele momento, ele se relembra de um primeiro desenho que fiz com ele. Era um avião com várias janelas que tinha me pedido pra desenhar várias pessoas. Quando ele se dá conta que, de novo, estávamos desenhando uma nave e janelas, me pede, novamente, que eu desenhe pessoas nas janelas. Desenhei a 1ª, mas logo o desenho tomou outro rumo. E foi incrível observar como aquele monte de “rabiscos”, riscos e contornos foram construindo uma história. A folha estava cheia e não tinha um risco se quer que não tivesse um porquê de estar ali. Ficamos mais de 20 minutos debruçados no desenho e na história que aquele desenho nos contava. Como quem brinca e imagina para poder continuar brincando.

Me dei conta, estarrecidamente, que por trás daquele desenho tinha uma história complexa que foi construída e elaborada na cabeça daquele menino. Fiquei pensando, quantas vezes a gente – como pais ou professores – não pegamos esses desenhos e ficamos só olhando o “monte de rabiscos” sem nem imaginar o quanto que tem ali por trás? O tamanho do universo que fez aquela criança traçar aquelas formas ou riscos. Uma vez feito e guardado na pasta, nunca mais o adulto vai ser capaz de viver a história daquele desenho como na possibilidade de estar ao lado dela. É quando o desenho transborda o papel.

Tem um filósofo francês, chamado Georges-Henri Luquet que estudou anos e anos o desenho da criança. Tem uma síntese sobre essa ideia em que ele diz que é “no desenhar que a criança brinca”. “Ela não sabe ao certo o resultado da ação e isso não importa, pois é o convite para o brincar o que realmente lhe interessa”.

Ali brincamos, eu e este menino de 4 anos, livremente. Fui conduzida por sua brincadeira, por sua história e o desenho foi o meio daquilo tudo. “Desenho livre é o desenho do desejo da criança, acolhido e acompanhado pelo professor, que vai ajudá-la, se necessário, a dar o próximo passo, conquistando domínio e fluência, seja com o lápis, seja com o pincel”, discorre Ana Albano em seu texto. “O professor precisa estar atento e presente à diferença que se instala a partir do gesto da criança no papel ou em outro material que esteja sendo utilizado”.

O que se opõe ao que ela chama de desenho abandonado que é aquele desenho proposto para preencher tempo ocioso na sala ou aquele que até tem intencionalidade, mas fica esquecido porque ninguém olhou pra ele no momento em que estava sendo feito pela criança.

Assim como na fala e na escrita a gente é capaz de reconhecer uma pessoa, o desenho traz a mesma força de identidade de sujeito. É a arte como educação e como reconhecimento de individualidade e diversidade. Sem existir o desenho mais bonito ou o mais feio. Sem julgamentos meramente subjetivos. Só como quem sabe brincar. Como quem sabe deixar transbordar.