“Minha filha chegou com o uniforme todo manchado de molho de macarrão. Aposto que vocês fazem isso só para vender mais uniforme, não é?”. O questionamento veio de uma mãe a coordenação de uma escola particular em São Paulo. Outra escola, outro relato, de outro lado. “Elas se juntam no whats e vem falar com a gente sempre usando o nós. Algo como ‘estou representando as mães do grupo’”. Um verdadeiro cabo de força numa cultura onde impera o ganhar. “O que meu filho ganha ao entrar nessa escola?”. Como assim cara pálida? O que seu filho ganha ou o que ele aprende, que ser humano a escola contribuiu para formar ou quais são os valores dessa escola? Perguntas como essas é que deveriam permear a decisão e a relação de uma criança na escola. Mas estamos numa época tão forte de consumo que até as relações ela norteia. Inclusive no campo famílias e escola. Um lugar que deveria estar totalmente preservado está permeado por distorções e inversões. Boas relações garantem um ambiente de aprendizagem saudável e rico e é aí que deveríamos investir energia.

É preciso recuperar as famílias nas escolas e não clientes. Em algum momento, as escolas perderam a mão e abriram mais portas do que deveriam aos pais. O espaço escolar é o primeiro lugar em que a criança tem a sensação de pertencimento além da casa dela. E é um pertencimento diferente porque é um espaço individual dela e não dela e dos pais. A ida a escola propicia, pela primeira vez, que ela se sinta capaz de fazer coisas por si só e, justamente por conta disso, vai descobrir capacidades e habilidades individuais. A escola tem – e faz- o papel simbólico e concreto da separação. Quase como um voto de confiança e coragem, pais e mães precisam deixar os filhos passar por esse portal com um orgulho danado e não querendo disputar com a escola e os professores quem é mais ou menos para aquela criança. Professores são profissionais e enxergar isso é algo bem importante para entender a relação criança – escola. É preciso entender que as escolas não querem substituir os pais por ninguém. Ampliar o circulo de vida de uma criança é o que está em pauta.

Mas é primordial entender, também, que é essa mãe ou pai, que leva a criança a escola, quem vai contar mais sobre ela. São esses pais quem sabem como ela se comporta em determinada situação, o que significa aquele choro e os pequenos gestos. Agora o que mãe e o pai fazem em casa com a criança não deve ser uma obrigação da escola fazer igual. A escola não é uma extensão da casa da criança e sim um novo ambiente em que ela vai aprender e ampliar seu repertório de aprendizado, formas e relações. Quando se estica o braço na porta da escola e a criança troca uma mão pela outra é preciso confiar. É preciso entender que a partir daquele momento deve-se buscar construir juntos. A família faz parte – ou deveria fazer – do curriculum e do projeto pedagógico da escola. As escolas têm uma ideia de quem são as famílias e isso está na comunicação que elas estabelecem e nas relações que constroem.

Agora quando a comunicação é mediada por câmeras em salas de aulas, por medo, pelo sub dito do “eu pago, eu tenho direito” – a relação de consumo, ou pela pressão dos pais, todo mundo perde. As escolas têm a árdua tarefa de resgatar seus valores e ter isso muito claro para que nada as tire desse prumo. São esses valores que vão determinar o tipo de comunicação que vai estabelecer com as famílias e, por consequência, com as crianças. As relações se perderam e as câmeras ganharam espaço de confiança. E as câmeras podem até ser uma saída, mas não são um caminho simbólico e construtivo. Roubaram o lugar das palavras. Sabe aquela coisa antiga de “dar a palavra”?

Em algum lugar das relações, perde-se a palavra. Talvez seja no próprio whats ou nessa rapidez que escolhemos nos comunicar. Palavras abreviadas ou emojis que dizem o que não dizem. No conceito de afetividade do filósofo e médico Henri Wallon, ele enfatiza a “emoção em contágio” no desenvolvimento da criança. Perfeita associação para as relações que se deveriam construir entre escolas e pais. Porque é preciso investir numa relação construtiva e não descartável. Não se quer uma matricula a mais e não se quer devolver uma criança de uniforme limpinho na saída como garantia de paz. Crianças se sujam e isso é sinônimo de aprendizado, de vivência, de escola.

Colocar o dedo na cara das escolas e dizer o que elas devem ou não fazer com os filhos é um grande erro. Cada qual tem seu papel formador na educação de uma criança e investir nessa parceria é investir em construção de conhecimento, em ampliação de repertório. Nos olhares, nas palavras, nas diversas linguagens. Na comunicação, na forma em que a gente usa a palavra. Ou na forma em que se dá a palavra ao outro. E isso exige confiança – com.fiar = fiar junto, de costurar junto. Entrelaços. De relações.