Atribuímos aos filhos a condição de tirar boas notas como obrigação da infância. E por que? Obrigação é cumprimento de tarefa, mas oferecer responsabilidade é contribuir para formar valores. Em épocas de boletins e aprovações de final de ano a reflexão se faz necessária

“O elogio congela a criança onde ela está e isso não é bom”. A frase, isolada, me pareceu perfeita. Um tiro certeiro para questões como acomodação, o esforço moderado e a aceitação do mediano como lugar de conforto. Aquele “tá bom assim” que eles adoram dizer. Mas, a frase, seguida de “eles precisam ser pressionados porque a vida é assim”, me trouxe a desconstrução completa do que entendemos por desempenho e capacidades de um filho, seja ele criança ou adolescente. Uma ajuda para a desconstrução do filho perfeito – ou a idealização que se faz dele.

O encontro era o último do Pausa para Prosa. O filme escolhido foi Whiplash: Em Busca da Perfeição. Vencedor do Festival de Sundance, em 2014, conta a trajetória de um jovem que quer ser o melhor baterista de jazz da sua geração e tem um mestre, Terence Fletcher, que faz o famoso terrorismo psicológico na tentativa de tirar sempre mais. Mais e mais. Porque nunca está bom, é sempre possível fazer melhor. Chegar à perfeição. Aliás, a premissa é essa: o bom, o belo, não são suficientes. Não são aceitáveis. Sob pressão é possível mais.

A pressão como possibilidade de ultrapassar limites. Pressão como ferramenta de extração daquele momento ápice de onde uma pessoa pode chegar. Técnica que muitos treinadores de atletas usam. Sobre gritos, xingamentos, humilhações e truculência, tem muito técnico esportivo que tira o atleta da sua zona de “conforto” e ganha em desempenho. O mesmo acontece no filme. O mesmo acontece com o jovem de Billy Elliot que treina, treina, treina para dar a pirueta perfeita e quando ele chega lá, a professora olha e diz “agora a mão”. Filmes amplificam questões que nos permeiam no cotidiano. São exageros, mas nos dizem muitas coisas. A arte está aí pra isso.

Dai a frase me veio novamente: “O elogio congela a criança onde ela está e isso não é bom”. Escola tem que fazer pressão, professores precisam ser mais bravos, pais não podem elogiar porque a criança acomoda e o mundo lá fora é só um tiquinho do que se vive na infância. Então é melhor já começar a aprender, a lidar com a pressão desde pequeno. Será? Mesmo? Tem certeza?

Cena do filme Whiplash

Em pleno 2019, quando as pessoas buscam o mindfullness, a comunicação não violenta, tem yoga nas empresas, salas de descompressão e os índices de doenças de adultos em crianças é altíssimo, faz sentido usar pressão nas crianças? Tem que fazer chorar? É preciso ajudá-las a dar conta, mas sem sacrificar o tempo de infância. Porque a vida não são provas atrás de provas. A infância é curta pra ser gasta pensando no futuro.

Dar aos filhos responsabilidades é muito mais gigante que ter a obrigação de tirar boas notas na escola. Responsabilidade vem carregada de valores. Obrigação é pura tarefa. Vazia. E pra resignificar esse boletim de notas é preciso resignificar o sentido de escola. Melhor: a criança e o adolescente na escola. O que seu filho faz ali? Já parou pra pensar? É apenas uma preparação para o futuro profissional? Ter que passar no vestibular…o que mais? Faço um convite aqui a reflexão profunda.

Ainda que tenhamos muitas escolas que preparam a criança e o adolescente pro mercado de trabalho, as escolas estão mais preocupadas em transmitir conhecimento e ensinar essas crianças a lidar com o mundo. A serem pessoas críticas, protagonistas, autônomas, conscientes, investigativas e empáticas. O ensinar língua portuguesa ou matemática é quase que uma escolha prática de chegar a esses lugares. E isso tudo aí não tem nota. Melhor, não é nota boa que diz o que aquela criança ou adolescente carrega no coração. O caminho para chegar na nota diz muito mais do que o resultado final e é aqui que está o que importa.

A nota é só um resultado do comportamento, das preocupações, dos jeitos, das formas. É este percurso de aprendizagem que a gente deve valorizar e sim, elogiar. É um passo de cada vez para poder dar mais um. Seguir adiante, firme e cheio de coragem. Seguro de que é capaz sim! E elogio ajuda muito nesse caminhar. Simplesmente porque somos um povo acostumado a achar que tudo não é “mais do que obrigação”. Só que não é. Ou até é, mas ainda assim merece ser elogiado.

Porque foi bem feito, teve energia, teve tempo, teve dedicação. Teve cuidado em fazer porque aquilo importa e não porque alguém mandou. É esse resignificar das coisas tidas como obrigação que nos tira do lugar de pressionar para poder elogiar. A criança precisa entender o espaço da escola, da educação, na vida dela pra ganhar sentido. Assim com o adulto precisa entender que trabalho não deveria ser obrigação. Segunda feira não deveria ser um saco.

E elogios fazem parte deste caminho. Muitas vezes é ele quem movimenta. Tira da zona de conforto. Dá confiança. Diz o quanto aquele sujeito é capaz. Pais precisam elogiar as conquistas dos filhos sim. A gente tem que ensinar eles a não desistir. A ir até o fim sim, mas porque existe comprometimento. Isso é ajuda-los a dar conta da vida. E o que o mundo reserva pra eles quando forem adultos? É pra quando chegarem lá. A infância é curta demais pra ser gasta pensando na vida adulta.

Por mais elogios e menos rigor. A gente precisa é de abraços.