Nem só de imaginação vive a infância, mas quantos mundos não seriam possíveis se nos permitíssemos reinventar? Inventar a gente inventa. E não é só de amor como pensava Cazuza. É de humanidade mesmo. Seres humanos são criativos a ponto de inventar. Inventamos até mesmo o mundo que a gente não vê. Seja pela utopia, seja pelo olhar que preenche onde parece acabar o horizonte. Porque qualquer olhar sempre verá uma parte do mundo. O restante do mundo, a gente completa com a imaginação. Assim como na vida que estamos sempre a completar. Porque “para sobreviver a gente precisa da arte”, diz Viviane Mosé, filósofa e poetisa.

Diane Sousa, fundadora da Incubadora de Esportes e Cidadania do Instituto Formação e empreendedora Ashoka, nasceu em São Bento, interior do Maranhão. Em conversa promovida pelo projeto Escolas Transformadoras, que aconteceu segunda-feira passada no Itaú Social, Diane começou sua fala com algo extremamente importante: a avó. Parteira, foi quem a criou e quem, desde cedo, lhe deu a oportunidade de um mundo possível onde ela pudesse se desenvolver. “A gente sempre teve como pensamento claro de que a nossa missão era transformar escassez em abundância. Mas o mundo possível que ela criou para eu me desenvolver não foi o mundo possível para que ela se desenvolvesse na minha idade”, conta. “E um dos elementos edificantes para que a gente tenha uma ideia criativa é o pensamento livre. Minha vó tinha o pensamento livre, mas não tinha o corpo livre e nem o tempo livre. Eu tenho o corpo livre, o tempo livre e o pensamento livre. Essa é uma conquista que aconteceu por uma racionalidade de resistência da minha vó e que me permitiu estar aqui hoje”.

Alemberg Quindins, educador, músico e criador da Fundação Casa Grande, diz que considera o adulto um traidor da infância porque a gente só pode sentir-se realizado se consegue deixar o sonho de criança sobreviver. “Porque criatividade é um atributo da infância e lá que está a fonte”, reforça. Criatividade não é adereço, não é coisa de se guardar em caixinha e abrir só quando tem um trabalho que pede que sejamos criativos. Somos.

Quando eu crescer eu vou “ser todas as idades”, dizia Cora Coralina. E quando a gente é reconhecido como alguém? Com que idade? Só quando cresce. Porque “todo adulto quer crescer e ter acesso ao mundo”. Está na música da Palavra Cantada, mas está também no inconsciente da gente que cresce. E que acha que precisa crescer e fazer um feito grande para ter relevância e se tornar relevante. Visão equivocada de mundo. Esperar uma vida para ser alguém quando já se pode ser. Pequeno e nas pequenas coisas – que são tão maiores.

Em Juazeiro, Alemberg traz a sua experiência e vivência da Fundação Casa Grande para reforçar o coro de crianças como mundo possíveis. “O trabalho da Fundação recriou a cidade e restituiu a invisibilidade das crianças. Hoje ela passa na rua e sabem o nome dela porque ela é uma comunicadora da cidade”, conta. “Me diga uma coisa, quanto tempo precisa pra uma criança ser reconhecida na sua comunidade? E tê-la como uma cidadã do mundo”. “Essa criança trouxe o sentido de cidadania para a infância. E a infância trouxe para a cidade o sentido do ser cidadã para construir uma cidade”. Porque no fundo a cidade deveria ser essa grande escola da infância. Que acolhe, respeita, escuta e educa. E cutuca para criar.

Mas é preciso que nos cutuquem até a vida adulta. Senão vamos parar de criar. Porque parece que quanto mais a gente cresce, mais sem graça ficamos. O tempo pra imaginar que existia no jardim de infância dá lugar a algo sério no ensino fundamental e dai em diante é só um decrescer de ideias. “Parece que quanto mais doutorado o adulto faz, menos criativo ele fica”, brinca séria Viviane Mosé. “E precisa de doutorado para ser um bom professor. Precisa de não criativo para ensinar”. Precisa reconstruir padrões isso sim. Precisa mexer nas coisas que estão cômodas e transformar.

Sem medicar. Sem embotar a criatividade. Para ela não nascer para dentro e ser a inversão de algo que poderia ser muito bom. Aquilo que eu não posso criar, eu posso matar. Aí nasce a violência e a gente precisa da vida. Desse resgate no mundo e de mundo. Para de novo ter mundos possível e ser possível dentro deles. Que a gente possa sempre completar o mundo que os olhos não veem com criatividade, com possibilidades. Infinitas e finitas. Mundos possíveis.