Numa época em que se repensa todo cuidado com a natureza, e se reforçam hábitos mais sustentáveis na sociedade, não poderia ser mais natural trazer essas práticas ao dia a dia da criança. Porque é na infância que a gente planta mudanças. É na criança que semeamos o novo, o broto, o renascimento. Tá aí o porquê do nome jardim de infância na fase escolar dos pequenos. As professoras, ou as jardineiras, têm a tarefa de cuidar dessas sementinhas e plantá-las, num primeiro gesto simbólico de formação do ser humano. Para que eles, ali, naquela fase, tomem o gosto pelo aprender, pelo se desenvolver, pelo cuidado, pelo semear a vida.

E o simbolismo do semear a infância tem se propagado num efeito prático bem importante que é a jardinagem. Cada vez mais famílias e escolas têm adotado o ‘plantar e colher’ como forma de sustentabilidade e educação. Pensa na experiência de pegar grãos de feijão e plantar no algodão. Tem o cuidado diário em regar, o saber a medida certa de água e de sol, a espera pelo ciclo do grão, a surpresa do nascimento (ou crescimento), e depois os brotos que vão nascer dali, e a colheita. E claro que, num gesto tão pequeno, existem tantos ensinamentos. Assim é quando uma criança faz jardinagem. E muitas escolas já perceberam a importância na grade curricular. Porque não apenas se ensinam coisas práticas sobre terra, plantas e frutos. Como se ensina-se sobre o ciclo da vida e a importância de ele ser cuidado.

As aulas de jardinagem despertam na criança a importância da relação do ser humano com o meio ambiente. “Preparar o canteiro, adubar, semear, colher e, às vezes, comer o fruto do próprio trabalho, descortinam a força dos processos da natureza”, fala a educadora e médica dra. Regina Helena Ribeiro. “Ao vivenciar as diversas etapas do crescimento de uma planta na horta e no jardim, a criança fortalece suas próprias forças evolutivas e desenvolve uma atitude de respeito e veneração à natureza”, explica.

Crianças que cuidam de hortas ou fazem jardinagem, são crianças que desenvolvem, espontaneamente, um respeito maior à natureza e à vida. Elas cultivam o tempo de forma diferente. Aprendem a importância do cuidado e colhem os frutos, literalmente, dessa prática. E numa cidade grande como São Paulo, ou nas grandes capitais do país, onde crianças estão cada vez mais afastadas do verde, esse contato tem relevância ainda maior. “É uma oportunidade de fazerem com as próprias mãos, e essa conquista é individual, é de cada um”, fala Regina Helena. Além do sentido de realização, existe o sentido de responsabilidade também.

As escolas têm adotado a atividade mão na terra pra trabalhar conteúdos como português e matemática. Porque na jardinagem é preciso contar sementes; depois dividí-las em quantidades necessárias para cada plantio; é preciso medir e acompanhar o crescimento da planta; tem a observação em si, que pode virar um gráfico ou algumas anotações; tem o estudo da colheita e das épocas. O desenrolar é cheio de aprendizados. Porque o simples ato de plantar dá margem a muitos ensinamentos na vida social e humana, assim como na escolar. Quem não leu sobre a escola Island Wood, na cidade de Seatle, que é 100% ao ar livre? Dentro da floresta, crianças aprendem numa área que abrange 225 hectares. Um modelo de educação que visa a descoberta e gestão da vida em comunidade e do meio ambiente. As crianças fazem conexões diárias com a natureza e passam a integrá-la mais ao cotidiano.

E, enquanto as plantas e as hortas crescem, em casa e nas escolas, crescem também as crianças. E, quanto mais semearmos essas sementinhas, mais elas crescem fortes e bem adubadas. Com uma possibilidade maior, e, mais concreta, de construir um mundo mais humano, mais consciente e mais verde. Sim, porque está faltando verde nas cidades. Ainda que tenhamos muitos movimentos positivos e nessa direção, precisamos contaminar, no bom sentido, mais solos. Ainda respiramos cinza. E mudanças a gente planta na infância. Porque quem planta verde colhe maduro.