O movimento de pais que aportou ano passado pedindo maior diversidade racial começa 2021 com conquistas. Já há mais alunos, professores e coordenadores negros nas escolas privadas

Ano passado, dois movimentos importantes, o Escolas Antirracistas e Liga Interescolas por Equidade Racial (este, formado por sub-coletivos de quinze escolas), surgiram entre pais de colégios privados na capital para reivindicar maior diversidade racial dentro das instituições. Ambos tinham como proposta provocar as escolas para que fossem, de fato, inclusivas e diversas não apenas nos discursos, mas no dia a dia. Era preciso ter negros que não fossem atendentes, faxineiras ou porteiros. Era preciso ter negros ocupando as salas de aulas e os cargos de gestão das escolas.

O pedido por mais negros se fazia mais que necessário quando o cenário ao redor mostrava que 80% dos alunos eram brancos e 1 a cada 10 escolas não tinham nenhum professor negro. Uma discrepância tamanha que não precisaríamos nem de dados para ter certeza de que escolas particulares, em sua maioria, carregam a desigualdade racial no cerne de sua existência.

Mas dados contribuem para tornar fatos mais concretos e foi preciso de números para alarmar o que já era alarmante. O incômodo e o barulho foram tamanhos, que 2021 não poderia começar como foi até então. Depois de cutucar e ganhar espaço nas mídias – e nas escolas – por diversas vezes, os movimentos já podem comemorar mudanças significativas.

Ainda que estejamos falando de poucas escolas, a fotografia começa a mudar e este é um passo importante. Quem são os negros da escola dos teus filhos? Em algumas já podemos dizer que são alunos, professores e gestores. A Escola Vera Cruz, à frente de qualquer outra instituição que faz parte dos movimentos e que vem trabalhando desde 2019 na questão antirracista, teve 22 processos de recrutamento e seleção para este começo de 2021, onde foram contratados 10 profissionais negros, sendo 2 gestores e 8 docentes. A escola sai de uma contratação praticamente inexistente para 45% do quadro atual.

O Projeto Travessias que trabalha em parceria com a gestão, efetivou bolsas para 18 alunos que ingressaram no G5, da Educação Infantil. Angela Fontana, coordenadora do Ensino Fundamental nível 1, fala que o trabalho no Vera Cruz se orienta pelo compromisso com a educação entendida como um espaço de transformação. “Nesse sentido, o Projeto Travessias contribui para darmos mais um passo na transformação da situação histórica de segregação e desigualdade social criada pelo racismo, ampliando os benefícios da convivência na diversidade. O aumento da presença negra e indígena dentro das escolas de maioria branca traz novos aprendizados para o espaço escolar”, diz.

Crianças do G5, da Escola Vera Cruz, em atividade presencial (foto divulgação)

Crianças do G5, da Escola Vera Cruz, em atividade presencial (foto divulgação)

“Vivenciar, em contexto de aprendizagem, um ambiente diverso, culturalmente rico e historicamente necessário, traz para dentro das salas de aula as diferentes realidades étnico-sociais brasileiras. É assim, com verdadeiro autoconhecimento — adquirido na relação com o outro — e com a compreensão do papel histórico do racismo em nossa sociedade, que formamos cidadãos comprometidos com a transformação social”, completa Angela.

Tatiana Nascimento, negra e mãe de um casal, integrante ativa do Projeto Travessias, reforça a fala da coordenadora e diz que é alentador começar o ano com tantas conquistas dentro da escola. “O Travessias não é um projeto apenas da escola, é um projeto de país também. Saber que de 22 profissionais contratados tivemos 10 negros é sinal substancial de uma mudança efetiva e que veio para ficar. Quantas vidas a gente pode mudar com esse movimento? Não apenas a dos profissionais que foram contratados como também a dos que já estão na escola, assim como das crianças e famílias de todo o espaço. É como se a gente tivesse aberto uma nova porta contendo excelentes possibilidades do outro lado, ainda que a gente saiba que teremos muitos desafios pela frente. Mudar é desafiador, mas esse é um caminho que já tínhamos que ter aberto há muito tempo. A escola é potencialmente um lugar de mudança, uma semente forte desse lindo país que certamente começará a surgir”.

O mesmo comemora integrantes da Liga Interescolas por Equidade Racial e pais do colégio Oswald de Andrade, Cassio França, cientista político, e Sônia Penteado, empresária. A Liga é formada por coletivos antirracistas de outras escolas e são esses inúmeros coletivos que têm ajudado, e garantido, a provocação de mudanças dentro dos colégios semanalmente.

“Difícil não ficar satisfeito quando vemos avanços no processo de tornar a escola antirracista. Na primeira reunião de 2021, a diretora-geral declara, novamente, o compromisso do Oswald de ser uma escola antirracista e declarações públicas nos interessam”, fala Cássio. “Elas contribuem para implicar a escola em mudanças estruturais, criam possibilidades e com elas o coletivo se vê legitimado para apoiar e cobrar a direção”.

A escola contratou, em setembro de 2020, a consultoria de Suelem Benício, socióloga e mestre em políticas públicas para assessorá-la na transição do processo. “Fizemos um censo e começamos o processo formativo com todas as equipes: pedagógica e administrativa e temos feito reuniões para compreensão dos espaços”, conta Andréa Andreucci, diretora-geral.

“O projeto de uma escola antirracista é base de sustentação para as escolhas pedagógicas que envolvem toda a comunidade oswaldiana. Da equipe pedagógica à equipe de apoio administrativa todos estão envolvidos no movimento de mudança. As famílias são protagonistas também ao saber que as escolhas têm essas premissas. Vai além da sala de aula, da reflexão, da consciência crítica, do olhar criterioso na composição do quadro de colaboradores, vai do compromisso da educação com o propósito de entregar para sociedade jovens que transformam e melhoram o mundo”, complementa Andreucci.

A escola fez algumas novas contratações este ano e todas as posições foram ocupadas por negros. Duas mulheres para tecnologia; um produtor para o departamento de comunicação; e uma coordenadora pedagógica para a unidade Girassol, Ensino Fundamental I. “Cargos de gestão têm a oportunidade de visibilidade para aquilo que queremos mostrar como base de uma liderança que não tem cor e sim competência e atende aos pré-requisitos para a função. O RH procurou no mercado esse perfil e conseguiu atender a nossa premissa e as exigências para às demandas da educação de nossas crianças e jovens que são muitas”, fala a diretora-geral.

Outras escolas também começaram a fazer mudanças estruturais e curriculares desde a entrada dos coletivos de pais. O Gracinha, no Itaim Bibi, e a Escola da Vila são dois bons exemplos. Patrícia Moura e Souza, negra e mãe da escola, conta que o trabalho do coletivo de pais dentro da Escola da Vila reforçou a necessidade de se olhar para questões raciais. “Como qualquer cidadão — a gente só descobre quanto chão ainda tem pela frente quando começa a fazer um letramento racial”, diz.

“O que mais comemoramos foi a decisão da escola de implementar um processo de transformação com uma assessoria antirracista especializada num projeto mais transversal e sistêmico ao longo do tempo”, conta Patrícia. “Essa é uma das notícias que mais nos deixou contente. Mesmo uma instituição que já tem atenção para a questão racial, vamos aprender absurdamente com um projeto real e profundo de transformação pra uma educação ativamente antirracista”.

Na Vila, não houve contratações para este ano, mas a diretoria reforça o desejo de ter negros em cargos de docência e gestão. O currículo da escola também deve passar por uma longa e profunda revisão que irá abarcar conteúdos da Educação Infantil ao Ensino Médio.

Já no Gracinha, o coletivo tem trabalhado junto à escola para acabar com o abismo racial. Patrícia Marinho, integrante do movimento e mãe de duas meninas, conta que estão empenhados em três frentes de trabalho: sensibilização e letramento racial da comunidade escolar; revisão curricular; e inserção de mais negros na escola a começar por docentes. “É um movimento aberto para toda comunidade e de longo prazo. Somos quase 80 pessoas dentro da escola, mas somos em grande maioria brancos e precisamos nos letrar antes de mais nada”.

O coletivo está à procura de uma assessoria especializada antirracista pra caminhar nas mudanças necessárias. No curto prazo, montaram um kit de letramento básico com livros, filmes e outros materiais. “Também estamos implementando um clube de leitura e criamos, em parceria com o Colégio Santa Cruz, um banco de currículos de professores negros. A gente acredita que começar a trazer professores negros para dentro da sala de aula seja uma maneira mais acolhedora e representativa para que tenhamos também alunos”, explica.

Selo produzido pelo coletivo antirracismo do Gracinha para ser usado em todas ações da escola

Selo produzido pelo coletivo antirracismo do Gracinha para ser usado em todas ações da escola

Para Caio Maia, jornalista e pai de três meninas da Escola Vera Cruz e idealizador do Movimento Escolas Antirracistas, “qualquer pessoa que se lembre de como era a relação da maior parte dos brancos com o racismo em fevereiro de 2020 e olhe para o Brasil em 2021 percebe a olho nu que aconteceu uma mudança profunda, e que ela é para sempre. Essa mudança vai do mais corriqueiro, do vocabulário, das conversas do dia a dia, ao comportamento de boa parte das empresas. Demoramos 520 anos pra acordar para o fato de que mais da metade da nossa população não é branca, embora os espaços de poder e privilégio sejam quase sempre ocupados por nós brancos, mas essa iluminação finalmente aconteceu, e quando a gente vê, não pode desver”.

Especificamente nas escolas, os movimentos e os coletivos de pais têm conseguido avanços juntos à gestão. Sabemos que a porta para transformações se abre pela educação, campo tão representativo da sociedade. Programas de bolsas, abertura de vagas exclusivas para pessoas negras e atenção ao currículo que deveria existir desde sempre, agora começam a se tornar comuns nas escolas onde estudam os filhos da elite econômica. Ainda é pouco. “É muito pouco, mas é um começo”, reforça Caio Maia. “As crianças dessas crianças serão filhos de uma geração que não pôde mais fingir que não existe racismo no Brasil.”