Ou dá para falar de moda dentro do universo infantil? Deveria-se relacionar moda com criança ou deveria-se apenas vender roupa para criança? O título é uma provocação necessária para que se possa olhar para o que é moda infantil hoje e poder pensar o que se quer construir a partir dela para o futuro. Porque moda e infância não deveriam estar num mesmo mix.

A indústria da moda infantil funciona bem como a do adulto. São cíclicas e precisam de lançamentos constantes para se manterem vivas no mercado de varejo. Acredite, moda para criança tem suas tendências e sazonalidade. Porque antes de ser infantil, é moda e também tem que funcionar dentro da engrenagem do mercado. Somado a isso, uma parcela do mercado enxerga e lê a criança como voz ativa de consumo e deposita nessa figurinha os anseios do consumo. Tanto é que muitas vendedoras são treinadas para perguntar à criança o que ela quer e o que ela achou do produto. Quase que uma afronta à infância, visto que o papel de escolha e decisão é dos pais. A criança vai aprender, ao longo dessa fase, pela observação e ensinamentos dos pais. É a partir daí que ela vai criar parâmetros e referencias do que deve ou não deve para poder escolher.

Mas o varejo está aí, ávido a vender e girar a roda de produção. Este é o capitalismo que se vive. O desafio é fazer com que esse mercado gire de forma rentável e que respeite premissas básicas da infância. Por enquanto, como forma de se renovar e poder justificar a compra constante dos pais, algumas marcas vendem moda em seu portfolio. Produzem coleções com apelos de moda usando artifícios do universo adulto, como uma escolha de cartela de cores, modelagens, estampas e até temas. Faz sentido? Faz sentido vender moda para uma criança? Certamente não. A que custo você envolve a criança na roda da moda para justificar o crescimento da empresa no mercado? Paga-se um preço alto. Basta observar as redes sociais de crianças ou os concursos de mini misses que cresce mundo afora, inclusive dentro do Brasil. Matérias fazem chamadas perigosas como “siga as 10 mini fashionista mais estilosas” ou “as 10 minifashionistas para seguir no Instagram”. Jura mesmo que isso é uma referencia positiva na infância? Usar roupas de marcas, saber o que é uma grife, ou o que é tendência. Crianças fruto de uma indústria de moda e da aparência. Quando a moda, em si, é muito mais que apenas aparência. Quase como um estereótipo mas que tem contribuído contra a infância, pois coloca a criança numa posição que além dela não dever ocupar, não sabe ocupar. Obviamente criança deveria se preocupar com o brincar e nunca com o que ela vai vestir. Quando esse peso inverte é sinal de que a aparência tomou um lugar de destaque e importância além do que seria esperado. Culpa da moda? Um conjunto de fatores leva a isso. Certamente envolver a criança, cada vez mais cedo, no segmento moda e no mercado de consumo das aparências deveria ser daqueles itens proibidos dentro das empresas.

Um mergulho no universo da criança pode trazer muita inspiração para criar e este pode ser um gancho a indústria de moda infantil. Eles inventam “moda” do jeito deles e para que isso se torne um produto de venda é preciso observar.
Hoje a moda infantil trabalha em duas frentes. Uma delas já falamos que é o uso dos códigos do adulto. Na outra ponta temos marcas que fazem uso de personagens e coisas facilmente absorvidas pelo universo da criança. Cabe aqui estampas de doces, ursos, bonecas, carrinhos… ícones desse universo. Funciona. Existe público consumidor para ambos. Mas como fazer roupa para o que chamamos de crianças da Geração Z? Essas crianças que estão aí plantando pequenas mudanças de comportamento. Crianças que nasceram numa era digital, mas que tem na relação do humano e da natureza valores muito claros e sólidos. São crianças que reciclam lixo porque sabem que precisam cuidar da natureza; são crianças que se preocupam em ajudar o próximo; que buscam melhorias ao redor de onde moram; que acham estranho animais preso num zoológico; que questionam; que querem sempre saber mais.

Um estudo recente realizado pela empresa Officina Sophia, chamado A Voz das Crianças, mostra em números e estatísticas o que o parágrafo acima conta. O que dá força ao achismo. E são estudos como este que apontam novos caminhos para empresas de diferentes setores. A moda pode ser uma importante ferramenta para ajudar a ilustrar essa voz. Fazer roupa pensando nessa criança do futuro, nos valores que ela carrega e no desejo que ela tem para o mundo. Certamente teríamos coleções mais perenes e mais fortes. Que usassem uma quantidade maior de tecidos orgânicos e recicláveis em suas produções; que se preocupassem com a qualidade e a origem das tintas que usam nas estampas; que fossem transparentes no quem fez esta peça de roupa; que talvez pudessem contar em etiquetas ou tags a estória daquela peça, qual o nome da costureira que fez por exemplo. Humanizar a indústria de moda para a criança. Como ela humaniza o mundo ao seu redor. Princípios de construção de futuro. Humanos, respeitando a infância, e econômico quando se tem uma indústria apoiada em valores mais sólidos de comportamento.

Afinal, desde que o mundo é mundo, a roupa é uma ferramenta de comunicação. Seres “amódicos” simplesmente não existem. O problema é quando o motor dessa expressão é o consumo inconsciente. E como pais e consumidores não podemos nos esquivar do papel fundamental de ensinar aos nossos filhos a forma correta de usar mais essa linguagem. Na pré-adolescência e adolescência então a dificuldade é enorme. “Conversas como “escola não é lugar de desfile de moda”, “essa roupa não é adequada para esse ambiente ou sua idade”, “você não precisa de nada, seu tênis ainda serve” são muito importantes ressalta a médica ginecologista Dra. Diana Vanni. “Isso passa por um processo de desconstrução da importância da estética e do consumo”.

“Vejo de forma ainda mais assustada a erotização das roupas infantis. Não, as meninas não menstruam mais cedo ou transam mais cedo porquê elas usam roupas de oncinha. É muito mais grave do que isso”, fala a ginecologista. “Elas aprendem a valorizar nelas mesmas apenas a imagem, o físico. O gosto pela moda é ensinado desde cedo, faz parte da construção do gênero feminino. Só que elas não compram essas roupas sozinhas, e elas só são vendidas porquê existe um mercado. E nós pais somos esse mercado”, pontua.

“Acho importante também eles terem referências de cenários como os descritos no filme “The Real Cost”. Que eles entendam que na base de pirâmide dessas 55 camisetas de personagens desnecessárias que eles têm existe o trabalho de crianças como eles. Que não existe mágica, e que se na nossa época tínhamos apenas uma roupa de sair e eles têm muitas, certamente isso não sai de graça, tem um preço social e ambiental que optamos por não enxergar”, completa dra. Diana.

Pessoas, planeta e lucro, o tripé da economia sustentável a qual desenvolveu e defende o sociólogo e acadêmico inglês John Elkington. Autoridade em economia sustentável dentro de grandes empresas, em entrevista recente à revista da faculdade ESPM, John fala do desafio em substituir o crescimento econômico linear pelo crescimento circular. Ou seja, menos o consumo pelo consumo e mais um consumo consciente que retorna algo de onde foi retirado. Preocupação com o clico inteiro. É a economia verde que se fala há bons anos. Utopia? Pode parecer, mas não se constrói um mundo que não se idealiza. Está aqui um começo, certamente, de onde a moda pode partir para criar.