A história do mar e também de outras coisas que me lembro. A frase é quase o título do livro álbum da escritora e ilustradora argentina Mônica Gutierrez. Num azul profundo e pincelado, ela conta sobre um avô e uma neta. “O Senhor Jaime falava pouco – às vezes, só o essencial, às vezes até menos que isso. Mas foi assim, entre silêncios, que ensinou à sua neta coisas essenciais da vida”. Ensinou sobre letras, sobre o que as ondas diziam, sobre as cores e até sobre singular relação entre eles e o silêncio. “Nesses passeios, eu aprendi a pensar”, diz a menina.

Um livro de memórias, cheio de sentidos e que me faz pensar sobre a relação entre as pessoas. Sobre as conversas que vão se transformando, ainda que tenhamos silêncio e o partir de alguém. Tem sempre o olhar de quem cresce e o olhar de quem vai. E é pela relação com o outro que a gente vai se construindo e construindo nosso olhar de mundo. Para ele não ficar pequeno. Para o mundo ser grande.

No livro, a menina aprende com o avô. E quando se tem filhos é com a gente que eles aprendem. Nada mais somos que mediadores do mundo e o mesmo são os educadores de bebês. Que através das experiências que eles vivem são capazes de apreciar o mundo e as sutilezas que ele nos ensina. A gente aprende pelas boas relações que criamos e pelos laços. São pelas pessoas que passam em nossas vidas que nos formamos e ampliamos nosso olhar de mundo.

Crianças pequenas temos que falar de construção de vinculo para falar de aprendizado. E isso precisa acontecer dentro das escolas, dos berçários e das creches. A gente esquece dessa importância. Mais do que imitar um adulto, a criança constrói ali sua primeira grande relação de confiança e olhar para o mundo. É por aí que vai se construindo conhecimento. Adulto como leitor do mundo. Criança como quem vê para depois olhar por si.

E dai a importância do adulto em pensar na construção do seu olhar. Estético e sensível. Para olhar e apreciar a estética das coisas. Aqui entram as artes como ampliação de mundo e possibilidades. Como diferentes possibilidades de leituras. Quando o educador, ou os pais da criança, tem essa diversidade de conhecimento e cultura ele é capaz de transmitir também. Pensa numa brincadeira que você faz com seu filho ou numa proposta de atividade do berçário. Se a leitura do adulto for limitada, a brincadeira ou a proposta também será. Explorar paredes, alturas, texturas, larguras são formas ampliadas de descobrir o mundo. Se a gente sempre der a mesma folha sulfite e a mesma canetinha, teremos sempre uma mesma versão. O que eu vou oferecer de atividade a uma criança pequena está totalmente ligado as experiências que eu tiver e meu olhar de, e para, o mundo. E quanto mais ampliado meu olhar, mais eu tenho o que oferecer.

Em Vozes no Parque, de Anthony Browne, a gente tem uma aula de mundo. O autor empresta seu olhar as diversas obras de arte em sua literatura de forma magnifica. Tudo ali conta algo e vai muito além da narrativa. Um convite para a gente se colocar no lugar do outro, para ampliar o horizonte e para pensar sobre algumas questões como o isolamento, a amizade e as coisas estranhas em meio ao familiar. Assim como o autor empresta aos leitores seu olhar, o adulto faz o mesmo com a criança pequena. A maneira como ela investiga o mundo tem a ver com tudo isso.

Pela literatura ou pelo adulto, alguém precisa mediar essa relação de mundo e infância. E é pela relação com o outro que a gente vai se construindo e construindo nosso olhar de mundo. Para ele não ficar pequeno. Para o mundo ser grande. Como o livro do Mar. Como o avô e a menina. “Senhor Jaime falava cada vez menos, mas lhe ensinava cada vez mais – a verdade é que entre eles as palavras se tornavam cada vez menos necessárias”. Talvez porque o mundo estivesse ficando grande. O mar agora ganhava traços, sons, formas e muitas, muitas cores. São nesses passeios que a gente aprende a pensar.