Aquela conversa de jantar…um vai e vem de assuntos, quando Felipe, 11 anos, diz que não quer mais ser artista. A gente questiona e ele me solta: “Porque eu vou fazer as pessoas sofrerem. Elas vão ter que ir ao museu me ver”.

Depois de 10 dias em Paris, indo a museus toda manhã, você pensa: o que fizemos de errado? Ou: o que eles fazem de errado? Por que as crianças e adolescentes acham museu tão chato?

Pode ser a arte estática, pode ser a falta de interação, a falta de compreensão, a falta de conhecimento histórico de um período, a falta de ter ido a museus e exposições com maior frequência, a falta de estímulos artísticos…a falta, a falta, a falta. Pode por culpa nessa “falta” aí. No fim das contas, parece sempre um drama levar crianças a museus. Tem que ter um convencimento, uma moeda de troca. “Vamos lá. A gente vê essa exposição e depois faz um programa que vocês escolhem”.

No Centro George Pompidou, a exposição temporária do artista Vasarely trazia quadros abstratos e geométricos. Uma grande exploração de formas e cores contextualizadas numa época em que tudo isso foi disruptivo. Precisa parar e ler cada uma das referências pra entender, minimamente, o significado (ou o contexto) da obra. As crianças não vão ler. Rapidamente perdem o interesse, ainda que você vá dando pinceladas de coisas interessantes a elas. Logo querem passar para a próxima sala e achar a porta de saída. “Vamos?”

Felipe questiona “o que é arte?”. E a pergunta nos percorre por longos dias e longos jantares. Tantas mil coisas podem ser arte. Inclusive aquelas que a gente olha e não entende nada ou acha uma droga. Eu respondo a ele que qualquer forma de expressão que tenha intencionalidade pode ser arte. Felipe não concorda e se irrita ao pensar que “qualquer coisa” pode ser arte. “Mas isso é feio”, diz. E será que deveria ter feio e belo? Uma coisa é aquilo com que você mais se identifica, outra é estabelecer padrões. Conceito de beleza guia arte?

As perguntas só crescem ao longo dos dias e das visitas matinais a museus. Próxima parada, a exposição do Van Gogh, no Atelier Lumières. “Por que ele é famoso?”. “Por que muitos pintores ficavam famosos depois que morriam?”

Na saída, a lojinha do museu. E não por acaso, encontrei o livro: Comment parle d’art avec les enfants. Comprei, óbvio. Pelo visto parece não ser só a gente a ter dificuldades de fazer os filhos gostarem de ir a museus. Talvez nas páginas desse livro a gente vá encontrar muitas respostas para aquele monte de “faltas” lá de cima do texto. E para o monte de perguntas que surgem numa ida ao museu.

Nem tudo vai ser bacana mesmo. Tem todo museu vai ser “uau!”, mas acredito que o olhar a gente constrói e a arte é um dos alimentos mais vivos pra isso. Eles vão ampliando a possibilidade de mundo. Vão dissolvendo os conceitos e os pré-conceitos. E vão alargando o olhar.

É por nisso que a gente insiste. É por isso que a gente acredita sim que ser artista é uma possibilidade gigantesca de estar presente no mundo. Vai Felipe, não deixa de querer ser artista não.