Há 20 anos eu não pegava um ônibus rodoviário para fazer uma viagem. Passei minha infância e adolescência viajando pro interior de SP via Cometa. Todas férias eram a mesma coisa. Meu pai colocava a gente (eu e minha irmã), no ônibus leito e meu avô pegava no dia seguinte, bem de manhãzinha, na rodoviária de Votuporanga. Interiorzão de SP, quase divisa com Mato Grosso. Lembro que a primeira vez, eu devia ter uns 10 anos. Era pequena. Imagine que a gente ia. E lembro bem das viagens. Meu pai entregando as passagens ao motorista, o ritual de conferir o RG da gente, depois a gente entrava e lá ia. Sete horas de viagem. Pura memória de infância.

Meninos de férias e no meio dos dias em Brotas surge uma reunião de trabalho em SP que eu preciso ir. Faz o quê? O famoso bate e volta. Meninos ficam na fazenda, eu saio cedo de carona e volto a noite de… ônibus. Já não tinha mais a carona e decido voltar de ônibus. 20 anos depois lá estou eu na rodoviária para pegar um ônibus – agora para Brotas. Nostalgia em sua melhor forma. Não podia escolher melhor jeito de recordar histórias – ou contar.

Eram 4h de viagem entre aquele fim de tarde e começo da noite que não faz muito sentido você dormir. E eu tenho o péssimo hábito de prestar atenção na conversa das pessoas. E que epopeia humana é essa de pegar um ônibus SP – Brotas…

As meninas a minha frente se matam de dar risada. Do nada e pro nada. Simplesmente, cochicham e gargalham. Por horas a fio. Ao lado, uma senhora que entrou carregada de sacolas dentro de sacolas. Eram tantas que seus pés tiveram que ficar no corredor porque não cabiam no lugar de pés da poltrona. Incomodada com as risadas, ela reclamava. “Credo!” “Nossa, hein!”. As meninas tentavam conter o riso, mas só piorava.

Ao lado, mais uma poltrona pra trás, uma mulher ao telefone conta sobre o ex-namorado a amiga. “Ele fez questão de dizer que a gente não tá mais juntos. Eu entendo ele, mas não precisava fazer isso no post. Não sei pra quem ele tá querendo dizer”. Os filhos, nas poltronas ao lado, chamam a mãe diversas vezes que abre pacotes de salgadinhos pros meninos, depois passa o refrigerante e interrompe a ligação para pedir que eles não mordam a bala porque quebra o dente.

Alguém dá aquela roncada alta e as meninas gargalham de novo. A senhora levanta pra ir ao banheiro e as “cadeiras” vão batendo por onde ela passa. Um rapaz resolve assistir aquele vídeo de piada que alguém mandou pelo WhatsApp. Incrível como as pessoas precisam aumentar o volume do celular justo nessas cenas!

A Maiara ligou pra mãe que estava no ônibus. “Filha, a mãe tava deitada dormindo, filha. O que você quer?”. Maiara precisava que a mãe depositasse um dinheiro pra ela. “Maiara, você sabe que a mãe te ama né? Olha filha, você pode me pedir o que quiser viu? Por você e pela Estefanie eu faço qualquer coisa! Eu posso deixar de pagar o aluguel, mas eu não deixo de dar dinheiro pra vocês…Maiara, escuta…escuta filha, eu amo você! Estefanie é minha neta, mas é minha filha também. Você sabe né? Maiara, eu e teu pai te fizemos com muito amor. Seu irmão veio de atrevido porque ele a gente não queria não, mas você Maiara… você a gente fez com amor! Maiara filha, a mãe tá dormindo no ônibus, depois eu falo com você tá?”.

Hum… senti um cheiro. Cheiro em ônibus nunca é coisa boa. Com a quantidade de pacotinhos que se abre, pudera! Alguma hora, em algum momento, alguém solta um pum. Inevitável! O problema é quando está frio e o motorista não capricha no ar condicionado. A coisa não se dissipa. Fica aquele negócio pairando no ar e você ali sofrendo com o pum alheio. Complicado!

Mas complicou mesmo foi a conversa da moça que tinha acabado o namoro. Acredita que o filho do ex ligou 3x seguidas?! “Não é criança não! Ele tem 18 anos. Acha? Ligou uma vez, ligou duas, precisa ligar três? Se o pai não atendeu era porque estava ocupado né? Eu falei pra ele que assim não dava. Desisti né? Falei: agora melhor a gente levantar e tomar café…depois ele até falou que conversou com o filho, mas…ah, isso também era uma coisa que não dava certo…”. Complicado. Ligar pro pai três vezes não é coisa certa em namoro alheio. Igual pum dentro do ônibus.

Sorte a minha que esses ônibus de hoje em dia fazem 20mil paradas ao longo do trajeto. Uns descem, uns sobem. Algumas histórias mudam, outras continuam ao longo das 4h de viagem.

Aos 44 anos, viajei acordada ainda que no leito. Vivi outra viagem das que eu vivia quando criança. Ainda que fosse pro interior, ainda que estivessem me esperando na rodoviária. Não era o meu avô. Agora são meus filhos, quem vivem as férias que um dia eu já vivi também. Em outros tempos, outros modos. Mas com a certeza de que vão construir lembranças e memórias e isso é o mais grandioso que eu posso proporcionar a eles. Histórias da vida, pra vida.