Será? Quem nunca ouviu que menino não chora, não brinca de boneca ou casinha, muito menos abraça e dá beijo. Isso são coisas de menina. Será? Meninos choram sim. Aliás, “eles soluçam”, conta Vivi Duarte que coordena rodas de conversas em escolas

“Nos encontros eles choram. Soluçam. Desabafam. Se conhecem. E percebem que não faz sentido um menino não poder expressar seus sentimentos”. A fala é da Vivi Duarte, idealizadora do Plano de Menina, que resolveu trazer os meninos para dentro das rodas. Não para vitimizá-los, mas para encontrar um espaço de rompimento desse machismo duro e cruel que tanto violenta socialmente. Isso é sobre a masculinidade tóxica.

Meninos são ensinados a não chorar, não sofrer e não reclamar. A não mostrar suas dores e temores. A eles, cabem o peso da masculinidade carregada de códigos culturais. Menino não pode isso, não pode aquilo. Existe uma dificuldade – ou incapacidade – de muitos, em demonstrar seus sentimentos mais profundos. E os danos desse silêncio estão quantificados em pesquisas, estatísticas e documentários. “Os homens se matam e matam aos outros”, diz Eduardo Chakora, psicólogo e pesquisador da masculinidade, no documentário O Silêncio dos Homens, que foi lançado recentemente. Mas é preciso acreditar e cuidar para que meninos sejam capazes de expor sentimentos.

“Eu nunca tive coragem de dar um beijo no meu pai. Lá em casa, quem foi ensinada a dar beijo era minha irmã em mainha”. A fala é de um homem participante do grupo de masculinidade tóxica, que acontece no projeto Serta, em Pernambuco. A dinâmica, conduzida pelo educador social Sandro Cipriano, faz parte de uma das cenas do documentário – este, idealizado pelo site Papo de Homem e pelo Instituto PDH, onde ouviram 47mil pessoas, 28mil delas, homens.

“O machismo não ferra só com as mulheres, apesar de sermos as maiores vítimas, mas cria homens enrustidos de sentimentos e com comportamentos agressivos para provar sua masculinidade que nada tem a ver com violência”, fala Vivi Duarte. “Triste ouvir meninos que nunca abraçaram os pais porque ‘não era coisa de homem’ e que apanhavam, mas não podiam chorar”.

O que as meninas fazem com extrema tranquilidade, os meninos têm medo. É difícil ser homem e não poder dar um beijo sem preconceito e olhares estereotipados. Entre os dados que a pesquisa revela, está o fato de que 6 em cada 10 afirmam não ter sido ensinados, na infância ou adolescência, a expressar suas emoções. 50,9% têm o pai como principal referência de masculinidade, mas só 1 em cada 10 conversou com ele sobre o que significa ser homem. Eles se suicidam 4 vezes mais que as mulheres. Representam 95% da população prisional do país, sendo a maioria jovem e negro, e com a ausência da figura paterna. 1 a cada 4 é viciado em pornografia e quando eles sofrem abuso sexual demoram cerca de 20 anos para contar a alguém. Os números são parte do silêncio que meninos e homens enfrentam diariamente. Eles nos revelam muito do que tem por traz de muito comportamento machista.

Agora como dar voz a quem já tem tanto protagonismo social? A masculinidade, diariamente, rouba o espaço da mulher em diferentes lugares e aspectos. São esses mesmos homens que ali estão no documentário que também representam a estatística de uma violência feminina a cada 2 segundos. Homens têm que entender seu lugar de privilégio. “Toda essa discussão sobre a nova masculinidade tem sido provocada e empurrada pelos movimentos das mulheres”, diz Antônia Pelegrino, escritora e ativista. “Não é que caiu uma maçã na cabeça deles e eles entenderam que é hora de mudar. Existe uma mudança na sociedade que provoca o pensamento sobre a masculinidade tóxica”. “Eles não são coitados, mas são vítimas do machismo cultural”, reforça Vivi Duarte.

A velha imagem sobre a masculinidade só reforça padrões e estigmas sobre o sexo masculino. As meninas tendem a achar que eles não devem entrar na conversa. Mas é preciso trazê-los para o outro lado da mesa. Somos 210 milhões num país extremamente multirracial e cultural. Somos muitos e de muitos jeitos.

Vivi Duarte, idealizadora do Plano de Menina, em 2016, resolveu puxar a cadeira e chamar os meninos para a conversa. Nascia aí, na ETEC Pirituba, o Plano de Menino. Porque para falar de equidade e igualdade, é preciso incluí-los na conversa. Isso é coisa de homem sim.

Vivi e meninos durante dinâmica na ETEC Pirituba

Por que os meninos? Qual era a urgência dessa conversa?
Depois de um ano de Plano de Menina, dialogando e construindo com as meninas autoestima, pertencimento e autoconhecimento para além dos padrões e pressões sociais, tivemos uma demanda que veio delas: “precisamos falar com os meninos ou eles irão continuar a geração de homens que matam mulheres sem parar”. A gente ouviu esta frase da Amanda Guimarães, que na época tinha 16 anos e mora no Jardim Ângela. Ficamos estáticas e pensativas. Como podemos falar de equidade de gênero sem incluir os meninos na conversa? As meninas reclamavam que quanto mais elas identificavam machismo, assédio e relações tóxicas e pontuavam, os meninos ficavam mais agressivos com elas.

Por que quando a gente empodera as meninas, os meninos se sentem acuados e ficam mais violentos? Do que os eles têm medo?
Eles temem perder o trono do poder de macho dominador que aprendem existir desde pequenos. São incentivados a mexer com as mulheres desde pequenos na rua, porque isso é coisa de homem. Ouvem, em casa, que homem não lava louça e que mulheres têm de ser submissas. Algo construído por um sistema patriarcal que insiste oprimir as mulheres. No momento em que a menina ganha voz e força, o menino perceber que todo seu trono está sendo desconstruído e que aquela menina não é dele e sim dela. Que ela tem seu corpo e suas regras. Que é dona de si. Ele, literalmente, surta e fica violento ao extremo. O menino, ou o homem, não dá conta de lidar com essa desconstrução de poder.

Eles se dão conta disso nas rodas de conversa?
E percebem que não faz sentido colocar uma menina em situação de perigo e assédio. Que podem ser seres humanos melhores e eles têm escolhido isso. Todos os dias. Ainda que exista uma pressão da sociedade para homens violentos e tóxicos como sinônimo de homens valentes e corajosos. É cruel, mas eles estão descobrindo que ser um cara corajoso e que faça a diferença na sua geração não em nada a ver com violência e falta de amor.

Escolher falar sobre o que eles sentem é um plano para a masculinidade?
Sim, sem dúvidas. É um desafio falar sobre sentimentos porque todos nós usamos máscaras para nos blindar. Os meninos ficam perdidos no início, mas usamos dinâmicas de psicodrama e trazemos temas importantes de forma mais descontraída. É preciso falar sobre o que se sente e tratar as dores, os medos, as dúvidas. Fica tudo mais fácil.

Qual o papel da escola nesse questionamento da masculinidade?
Abrir diálogos, rodas de conversa. Onde se possa falar sobre machismo, diversidade, respeito e participação em sociedade. Não só para os alunos, mas para os professores também, que muitas vezes trazem piadas machistas e homofóbicas para dentro da sala de aula. Educadores precisam resignificar comportamentos e respeitar a pluralidade do homem e da mulher. Ser educador no Brasil é um desafio, todos sabemos, mas há de se ter ética e compromisso com a formação de cidadãos conscientes e que respeitem as diferenças a si mesmo.

E as famílias desses meninos?
Meu foco é nos meninos e adolescentes de 13 a 22 anos – que estão se construindo. Entendo que os homens de hoje são os meninos lá do passado que foram impedidos de abraçar seus pais por “ser coisa de bichinha”. São os meninos que não puderam falar ‘eu te amo’ para ninguém por vergonha de parecer menininha. São os que não puderam assumir sua verdadeira identidade e orientação sexual para viver num padrão hetero-normativo. Ou os que assediavam e abusavam de meninas porque se achavam no direito. Esses meninos cresceram e hoje perceberam que não dá mais. Ou se reinventam como seres humanos e homens possíveis numa sociedade em busca de equidade ou se autodestruirão. Por isso, estamos abrindo espaço para papo com os pais desses meninos, com as famílias. Para entender como podemos quebrar este silêncio. Numa dessas dinâmicas, um pai nos agradeceu porque o filho tinha falado que o amava e foi quando ele se deu conta de que o tinha tolido por 17 anos. Por puro machismo. É importante que os homens revejam seus comportamentos e aprendizados e se abram para uma mudança que é urgente.

No documentário, uma das cenas traz uma dinâmica, conduzida por você, em que meninos representam diálogos que acontecem em casa. Verbalizar e representar esse machismo ajuda no quê?
Eles reconhecem as falas tóxicas que contaminam não só a pessoa que as recebem, como quem as reproduz. Eles entendem que podem se expressar sem ter de usar agressividade.
Refletem sobre novos caminhos para mudar as narrativas e ressignificar códigos e comportamentos que lhes são apresentados desde a infância.

E como todas essas descobertas têm impactado a relação com as meninas?
A agressividade dos meninos e as brigas diminuíram significantemente nas escolas. O que mais escuto das meninas, é que eles estão deixando de ser “idiotas” e passando a ser mais parceiros. Eles passaram a identificar machismo e falas que oprimem. Aprenderam o poder da escuta e a dialogar de forma consciente e respeitosa. Aprendem a ser agentes de transformação e cúmplices do plano de equidade que temos para mudar esta sociedade machista.