Encontros entre pais e mães sempre rendem boas conversas sobre os filhos. E é inevitável cair no assunto celular, internet e conversas de whatsapp. Quem nunca pegou o celular do filho escondido pra ler as mensagens? Dar uma sapeada nas fotos, com quem eles andam conversando e saber qual teor das conversas. É praxe. Parece que faz parte do acordo dos pais com os filhos. E é condicional saber a senha. Agora, mesmo com eles aceitando dividir a senha, será que imaginam os pais lendo mensagens escondido? Será que permitiriam? Não seria isso pura invasão de privacidade? Sempre bom fazer uma reflexão sobre o que significa invadir o espaço do outro – ainda que este outro seja teu filho.

Sempre bom fazer o exercício de voltar à adolescência para compreender a adolescência dos filhos. Passávamos horas e horas no telefone com as amigas. Se alguém quisesse ligar em casa era missão impossível. Dava ocupado. Coisa de 3h no telefone. Até aquele momento em que sua mãe dava um grito e falava “agora chega!”. E falando o quê? “Nada!”. Ou coisas de adolescentes. Namoros, corações, escola, festa, convites, roupas. A lista de assunto podia ser interminável e dava voltas. O assunto era infindável. Assim como parecem ser os dos filhos no whatsapp. São capazes de ficar as mesmas 3h falando as mesmas coisas, voltando aos assuntos e se você não falar para desligar, eles não desligam.

Antes falávamos ao telefone e escrevíamos nos diários. Ah, os diários… Ali tinha tudo, literalmente. Uma vida. É um grau de intimidade tão grande que era incabível pensar que alguém poderia ler sem sua autorização. E quando lia representava uma quebra de confiança gigantesca. Hoje, eles teclam no whats ou no direct do Instagram. Poucos pais queriam ler na nossa época, hoje, muitos querem ler. A justificativa é o perigo da internet – que realmente existe. Aquilo é um buraco negro sem fim e sem fundo. Ninguém sabe onde vai dar e só se descobre quando se chega lá. O que, obviamente, não aconteciam com os diários. As folhas acabavam. Uma hora não tinha mais página e era preciso terminar. Tinha fim. Os scrolls das telas não têm, propositalmente. É um interminável sem fim. E não sabemos lidar com a in-finitude. Dá medo.

Num misto de proteção, curiosidade e egoísmo, pais e mães esperam os filhos dormir para bisbilhotar o celular alheio. Pura invasão de privacidade. E será que não existe a possibilidade de se respeitar a privacidade do filho? Vale pensar até onde isso é proteção e onde extrapola para virar invasão. Porque é preciso ter coragem de deixar os filhos crescerem e começarem a ganhar individualidade nas próprias conversas e nas relações que estabelecem. Claro que estou me referindo a conversas seguras, com amigos que fazem parte do circulo daquele adolescente. Amigos da escola, clube, inglês. Não me parece muito correto querer saber o que o filho anda falando com os amigos da escola. Querer descobrir se alguém já beijou alguém, quem, como, onde e porquê. Existe uma intimidade nas relações que deveriam, e precisam, ser respeitadas. Até mesmo para que eles próprios aprendem sobre individualidade e respeito. Vale uma boa reflexão sobre ler conversas dos filhos.

É preciso respeitar para ser respeitado. É preciso ter coragem de deixar os filhos crescerem e saber que nem tudo eles vão contar a vocês. E tudo bem! Tem coisa que realmente não é para contar. Afinal, pai e mãe não são brothers. São pai e mãe. Simples assim. Diferente assim.