Na rua a gente encontra todo tipo de gente, mas na escola não. No ambiente de trabalho também não. Nos clubes e restaurantes também não. Entender a exclusão contribui em pensar na inclusão

Uma das grandes características das cidades grandes é a indiferença. Ainda que caminhamos ao lado da inclusão pela diversidade, seja ela no âmbito econômico, gênero ou deficiência, não olhamos e não nos relacionamos com ela. Andamos de cabeça erguida e pra frente. Focados em um único caminho. As crianças, quando estão juntas, percebem a outra criança na frente de um restaurante pedindo uma comida, o morador em situação de rua no farol ou a pessoa de cadeiras de rodas tentando atravessar uma rua. Mas crescemos e perdemos este olhar. Perdemos a sensibilidade humana ao outro. E dai carregamos a culpa. Inevitável será?

Sai de mais um encontro do Pausa Para a Prosa. O filme do dia era o chinês Nenhum a Menos. Uma menina, ainda adolescente, se candidata a professora de uma escola rural, num vilarejo. Existe uma evasão na escola por conta da pobreza. Sim! Pobreza é uma das causas de exclusão social. No Brasil, 2,8 milhões de crianças e adolescentes estão fora das escolas e entre as diversas razões, está a pobreza. Porque muitos entram no “mercado” de trabalho para ajudar as famílias. E é papel de quem garantir que essa criança ou adolescente não desista da escola?

No filme Nenhum a Menos, a jovem professora tem a missão de não deixar que a escola perca mais nenhum aluno e ela toma pra si algo como missão de vida. Primeiro, porque existe uma ordem superior, depois porque ela carrega cada um deles no coração. Porque cada um é único em sua singularidade e é dai que o grupo se forma. Coeso e inteiro. Porque só vai existir grupo se não tiver nenhum a menos.

O filme faz um convite a reflexão sobre os termos exclusão e inclusão social. Lindamente e silenciosamente. Em cenas lentas e reflexivas. Como o tempo que corre numa escola rural. Como tempo de vida. Aqui, numa tela empoeirada pelo interior seco e escasso em sua natureza. A desigualdade é cenário do filme. Como é cenário das ruas por onde a gente circula cegamente e diariamente.

Cena em que a professora corre atrás de um aluno que está indo embora da escola, na tentativa de não perdê-lo

Nos tornamos invisíveis numa multidão e reforçamos, sobre vários aspectos, as invisibilidades das pessoas. Num belo exemplo pra lá de reflexivo, Rosely Sayão traz a imagem de uma criança pequena de escola particular andando sem um pé de sapato. Ela será percebida rapidamente. Há quem pare para dizer “Olha, seu filho está sem um pé de sapato. Será que caiu?”. Mas o mesmo não acontece com essa mesma criança pequena que vive na rua e não tem, de partida, nenhum dos pés de sapato. “Uma criança nossa tem um sapato e a gente enxerga. Mas a criança que está na rua, a gente não vê ela descalça porque ela já não tem sapato”, fala. E como dar sapatos a quem não tem?

É preciso criar consciência e pra isso, é preciso de conhecimento. Porque a gente só vê aquilo que a gente conhece. A gente só sente aquilo que nos toca. E dai é preciso promover mais do que ações pontuais de visitas a comunidades e a projetos sociais, mas a real convivência e permanência entre esses grupos. Como? Com continuidade, com intenção. Com a real consciência humana de quem sabe que cada um importa e que não pode haver nenhum a menos para haver todos.

Quando todos se sentem responsáveis e não apenas uma figura, existe mudança. Quando não for apenas a figura da professora a se preocupar com fulano ou beltrano dentro de uma sala de aula, será possível incluir as diversidades que nada mais são que as singularidades e as subjetividades.

Como parte do fio condutor que guia todo Projeto Político Pedagógico da Escola Vera Cruz, em São Paulo, está lá a inclusão. Aqui não a social com recorte econômico, mas o social de recorte da deficiência. A escola acredita que, à medida que existe o olhar para a especificidade de cada um como sujeito único singular, faz-se a inclusão dele no ambiente escolar. “Inclusão para o Vera está fala do aspecto da diversidade”, fala Eneida Fiuza, coordenadora pedagógica dos Anos Finais, do Fundamental I. “A escola entende que todos alunos são sujeitos singulares e isso exige da escola um olhar inclusivo a todos, independente das questões que exigem atenção”. E faz-se a inclusão quando a escola entende que a responsabilidade também é dela.

Como por exemplo, quando a escola entende que é responsabilidade dela ajudar aquele aluno que fica sozinho no recreio. Quantas escolas não tem programas de acompanhantes de alunos novos, por exemplo? Que é quando um grupo se responsabiliza por garantir a integração daquele novo ao coletivo. Isso é inclusão, também. E trazer o aluno – criança ou adolescente – para se co-responsabilizar deste grupo é o que os torna grupo. O que garante o desmonte da exclusão e passa a se chamar inclusão. Esta aqui da qual falamos. Da qual o filme fala também.

Nenhum a menos da vida social. Do grupo social. Sem criar padrões únicos, sem encaixotar diversidade numa mesma fôrma. As semelhanças continuarão a se agrupar por suas semelhanças. Mas é preciso respeitar o bando que vive ao lado do seu jardim. E isso se aprende pequeno. Deveríamos promover essa inclusão na vida social dos nossos filhos, cotidianamente.

Não com uma ou outra visita a uma Instituição, um assentamento ou uma comunidade Quilombola. Mas de forma presente e intencional. Não para que a diversidade se torne diferença. Mas pra que a diversidade possa ser incorporada as diferenças como possibilidade de grupo. Como possibilidade de inclusão. Com a real consciência humana de quem sabe que cada um importa e que não pode haver nenhum a menos para haver todos.