Acontece todo final de ano, quando começa aquela época de apresentações e exposições de trabalhos do ano letivo das crianças. É um sorriso de um vídeo, um olhar atento, um traço numa folha em branco, um cisco nos olhos. Nos olhos de quem vê o filho crescer. São fragmentos de um longo ano de aprendizados. Uma possibilidade do olhar de que o tempo esteve ali. Ao tempo das coisas sensíveis às transformações.

Um tempo de elaboração de possibilidades. Como se a escola fosse capaz de congelar um instante da descoberta e exibir aos pais. É para ver. Com os mesmos olhos de descobertas e aprendizados que levaram as crianças a produzirem os trabalhos que estão ali, nas paredes das escolas. São salas e salas, corredores e corredores. Puro privilégio de poder entrar dentro do conhecimento e das descobertas deles. No fundo, tá aí a grandeza das exposições de finais de ano: poder olhar teu filho de perto, lá na intimidade. Porque descobertas são íntimas.

Num dos corredores da escola, uma apresentação sobre desenhos e abertura daquele espaço dizia assim: “olhar que olha para dentro e para fora. É um processo de autoconhecimento, de enfrentamento das imagens internas e da realidade externa”. Dos momentos íntimos das descobertas. Porque existe muito mais na leitura que os olhos podem ver. A criança passa por diferentes fases de desenvolvimento e cada uma delas é um passo no despertar da consciência. É quando parece fazer sentido o propósito da pedagogia waldorf que fala do “educar para o futuro”, o que significa encarar, a partir da própria organização escolar, os principais desafios que a atualidade nos propõe.

Educar para o futuro não é mérito apenas das escolas waldorfs. É mérito de muita escola preocupada em formar seres humanos capazes de olhar o mundo de forma sensível. Um olhar colaborativo. Quase como a combinação da fotografia e da pintura.“Fotografias, geralmente, são representações da realidade. Pintar é, por vezes, uma maneira usada para representar um senso de realidade”, dizia um cartaz em outro espaço da escola. “A presença da mão do artista se reflete na qualidade da superfície da pintura, enquanto a fotografia não possui superfície. Quando os dois meios são combinados existe uma discordância harmoniosa que pode ser tanto estimulante quanto inspiradora”.

Pintar, desenhar, escrever, fotografar, gravar, registrar. Seja lá o que for, são expressões. Formas de construir pensamento. Por linguagem, memórias, lógica e emoção. Como prática social que nasce na vida, na ação e na interação. E é aí que a criança se constitui como ser singular e, ao mesmo tempo, coletivo. São falas de uma geração de crianças que questionam, que se preocupam, que sensibilizam. Que são capazes de ampliar seus olhares para além dos conteúdos e olhar o mundo, as pessoas, a natureza. Capazes de fazer uma viagem de estudo do meio e voltar com uma poesia linda em que se dão conta de muito mais coisas além dos nomes científicos das plantas e as espécies biológicas dos bichos. Porque mais do que uma aula, é uma atitude frente à vida. Uma possibilidade do olhar de que o tempo esteve ali e de qual é nossa responsabilidade sobre ele. São eles que vão nos educar para o futuro. Porque são capazes de atribuir sentido ao que estão vivendo. E ao significado das coisas. São os fragmentos de aprendizado.