Foi ontem. Sabemos. Sabemos também que é todo dia. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Mas o que é mesmo o Dia das Mães além de uma homenagem a elas, a nós? Por acaso você sabe de onde ele existe e por que surgiu?

Na Grécia Antiga, a entrada da primavera era comemorada em honra a Rhea, a mãe dos deuses. Era uma festa de adoração à figura da mãe. Em 1907, a data foi oficializada no calendário americano a pedido de Ann Maria Reeves Jarvis, cidadã comum que sofreu a morte da mãe e criou um memorial que cresceu e tornou-se o 1o. Dia das Mães americano.

E por aqui, no Brasil? Foram as feministas. Sim! As feministas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Nosso Dia das Mães existe porque as feministas, em 1932, pediram que a data fosse oficializada ao presidente Getúlio Vargas. “A iniciativa fazia parte da estratégia das feministas de valorizar a importância das mulheres na sociedade, animadas com as perspectivas que se abriram a partir da conquista do direito de votar, em fevereiro do mesmo ano”, registra a enciclopédia virtual Wikipedia.

Aonde eu quero chegar? Que muitas vezes na vida é preciso resgatar o verdadeiro sentido para poder dar sentido novamente. Talvez o Dia das Mães tenha se perdido entre tantas propagandas que fazem a gente chorar, mas existe uma essência tão atual nessa data que merece atenção.

Concomitante à data, ao meu pensamento, recebo de uma amiga um kit muito bacana do projeto que ela e mais duas amigas soltaram nas redes sociais. Elas chamam de movimento. Eu posso dizer que é um manifesto. Manifesto de mulheres que são mães e que estão exaustas de serem julgadas. Porque a vida não está fácil, não. “Todo dia, de todo tipo de gente (dos mais próximos aos mais desconhecidos), recebemos julgamentos com relação à nossa condição e escolhas como mãe. E isso não é legal. Não mesmo”, elas escrevem no manifesto.

Concordo. Não é legal. Não mesmo. Por que julgamos umas às outras? Por que os outros julgam? O que tem o ser humano com a vida do outro? O professor e filósofo Leandro Karnal nos responde com uma entrevista que deu, recentemente, ao site O Globo: “As religiões, apesar de darem a base moral para os julgamentos, sempre insistem em não julgar os outros. As religiões, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, fornecem a base material para inventar o pecado, mas também recomendam quase universalmente a misericórdia, a compaixão, o perdão, o não julgamento. Faz parte de um jogo complexo. Nós gostamos de julgar. Se fosse apenas por causa da religião, em regimes ateus como a União Soviética ou a China de Mao Tse-tung não teriam ocorrido julgamentos. Então eu diria que, apesar de a religião dar o vocabulário, o julgamento é humano, não é exatamente religioso.

Dado o fato humano, precisamos lidar com ele e o ambiente feminino e materno tem uma relevância crucial nesta vida. O movimento #jafuijulgada quer justamente fazer conexões entre pessoas e gerar conteúdo. Gerar pensamentos. Gerar empatia. E a partir daí gerar movimento, mudança. E feliz estamos de saber que não estamos sozinhas e que o movimento #jafuijulgada também não. Ano passado, a revista Crescer lançou uma enorme campanha com o mesmo mote e usou a hashtag  #julguemenos #apoiemais.

Precisamos de mais olho no olho e menos pedra na mão. Precisamos de mais olhares carinhosos e de compaixão umas com as outras – e dos outros também. Para que o manifesto traga o movimento. Para que faça o movimento. E que ele suavize a vida que já é tão dura e tão cheia de culpas. Tenha certeza de que, assim como você, outras mães também se sentem julgadas a todo santo momento. Isso não ajuda. Só atrapalha. Atrapalha a sua e a nossa autoestima. Atrapalha nossa força de nos colocarmos no mundo. Sem mais picuinhas. Que a vida possa ser maior que isso. Que o Dia das Mães possa ser maior que o domingo de ontem. Que ele possa ser muitas e muitas hashtags e movimentos femininos.