Com o afrouxamento das restrições e maior número de crianças e adolescentes frequentando as escolas, já é possível contabilizar um aumento de turmas afastadas por contaminação da COVID-19

Bastou um mês de aulas presenciais para observarmos uma mudança significativa dos relatórios escolares que chegam nos emails das famílias todo final de semana. O que antes trazia uma amostra pequena de turmas que tinham sido afastadas devido a testes positivos de COVID-19, agora deu uma reviravolta.

Nas últimas semanas de agosto, escolas particulares da capital tiveram um ‘boom’ de abre e fecha de salas de aula. Isto acontece porque toda vez que uma suspeita ou um caso é reportado à escola, imediatamente toda a turma e professores que tiveram contato com aquele aluno, são afastados pelo período aproximado de 10 dias, correspondente a uma pequena quarentena.

Segundo a médica infectologista, Christina Gallafrio Novaes, diariamente, em muitas escolas privadas, um questionário sobre sintomas precisa ser preenchido para cada aluno. “Trata-se de procedimento chamado de rastreamento de sintomáticos e sendo a resposta positiva para coriza, febre ou dor de cabeça será orientado aos responsáveis que a criança fique em casa”

Na sequência, a enfermeira escolar responsável notificará a professora daquela criança, para que toda a classe fique em casa até o esclarecimento do caso. “A orientação é que, a partir do terceiro dia de sintomas, a criança em questão faça um teste diagnóstico (PCR). Vindo negativo, em geral se permite a retomada das aulas presenciais. Se o teste resultar positivo, será mantida a quarentena para a classe toda. A duração dessa quarentena e os procedimentos a partir daí variam de escola a escola. Em algumas, toda a classe pode retornar – sem necessidade de testes – passados 14 dias. Outras liberam o retorno após 10 dias – algumas com e outras sem testagem das outras crianças”, explica.

E o número de afastamento de turmas está crescendo. A Escola Waldorf Rudolf Steiner teve seis turmas ausentes, de 2º. Fundamental ao 10º. ano Ensino Médio, além de mais cinco alunos afastados por prevenção, logo na segunda semana de aula. Um número expressivo pra quem vinha com uma média de uma turma a cada quinze dias, mais ou menos.

No email aos pais, eles alertam: “informamos que os contágios não aconteceram na Escola, que se mantém como ambiente seguro, mas o momento requer muita atenção e o comprometimento da comunidade com os nossos protocolos. Pedimos especial atenção para o distanciamento social, uso de máscara, higiene das mãos e, se possível, a manutenção de ambientes arejados”.

O mesmo aconteceu na Suiço-Brasileira que teve quatro turmas isoladas no Ensino Médio e três salas de Fundamental I. No Gracinha, bastou uma semana pra turma do 2º. Do Médio voltar ao remoto por conta de contaminação e no Vera Cruz, o 3º. foi inteiro afastado. Algo parecido aconteceu Colégio Santa Cruz, zona oeste da capital.

Dezessete alunos foram infectados nesta última semana por conta de um evento fora da instituição, mas que precisou da intervenção escolar para relembrar alunos e pais de que é preciso “um comportamento consciente de todos para o controle da pandemia em nossa comunidade”.

O comunicado aos pais fortalece “a importância do cumprimento dos protocolos, amplamente divulgados, pois a pandemia ainda apresenta elevados números de contaminação. Encontros, ou comemorações, fora do convívio familiar sem os cuidados protocolares expõem a comunidade a riscos que afetam a segurança de todos”.

A escola ainda reforça que são situações como estas que elevam o alto risco de contágio dentro do ambiente e impacta a rotina e a frequência das aulas com a suspensão das atividades presenciais. E a infectologista Christina alerta que crianças e adolescentes, ainda não vacinados e saindo mais de casa, “algumas vezes até em festas”, aumentam a oportunidade de transmissão do vírus.

“Os adultos, em grande parte já vacinados com pelo menos 1 dose, sentem-se mais seguros e também têm circulado mais e se descuidado mais (esquecendo-se que a vacina protege contra as formas graves, mas não os impede de serem infectados e transmitirem o vírus, levando-o para dentro de casa)”, alerta. “Comércio, serviços e restaurantes estão atualmente abertos com permissão de capacidade total. Ambientes fechados, com grande número de pessoas, sem uso de máscaras (onde se come, retira-se a máscara), favorece enormemente a transmissão do vírus, que acaba chegando nas crianças”.

Paralelo a este cenário, existe outro agravante: o enfrentamento de altas e baixas temperaturas, o que provoca uma onda de resfriados e gripes, principalmente, nos menores. E as orientações das escolas são claras: a qualquer aparecimento de algum dos sintomas da COVID-19, crianças e adolescentes não devem ir à escola.

“Parte destes afastamentos se deve a ‘alarmes falsos’, ou seja, sintomas provocados por outros vírus respiratórios (sendo o Rhinovirus o mais frequentemente identificado) que produzem sintomas indistinguíveis do SARS-coV-2 (o novo Coronavirus)”, explica Gallafrio. “Mas é também fato que a Covid-19 tem aumentado entre as crianças e jovens. A variante Delta, que agora predomina entre nós, produz carga viral muito mais alta, traduzindo-se em uma maior transmissibilidade”.

Pagú Santos, mãe de duas crianças, diz que preferia algo mais estável. “Optamos por ficar no online até o final do ano para evitar esse vai e volta. A escola dos meus filhos já abriu e fechou algumas vezes”. Isabelle Santos é da mesma opinião. “Não volto enquanto não estabelecer justamente por conta do abre e fecha!”.

Na casa da Simone Nunes é diferente. Os dois filhos voltaram ao presencial, mas o mais velho que está no Ensino Médio já teve que ficar uma semana em casa porque um colega testou positivo. “O que está no infantil por enquanto tudo OK. Acredito que no infantil as professoras têm mais controle, adolescente é muito complicado, por mais que a escola coloque mil controles eles querem socializar, marcam encontro no banheiro, se aglomeram na entrada e na saída”.

Os filhos da Fabiola Andreazzi estudam no Porto Seguro e segundo ela, toda hora há suspeitas e o afastamento da sala se mantém até que o aluno em questão apresente teste negativo. “No infantil é frequente. No fundamental afastam mais porque tem irmãos mais velhos e qualquer caso positivo na sala, os mais novos também tem que fazer isolamento…Escola enorme, não tem como não ter casos”, conta.

Importante reforçar que os casos entre crianças e adolescente não subiram. O aumento de notificações vinda das escolas está estritamente relacionado ao aumento de turmas e alunos recebidos agora pelas escolas. Se eu tinha um número menor de alunos frequentando a escola, tinha também um menor número de contaminações. A partir do momento em que abro para receber mais gente, abro também as portas para mais casos e mais afastamento de grupos e salas de aula.

A continuação do ano letivo é cheia de desafios e vai exigir das famílias jogo de cintura para lidar com o abre e fecha das salas de aula. Crianças e adolescentes parecem já lidar bem com o que podemos chamar de “nova rotina” escolar, resta aos pais entenderem que para mantermos as escolas abertas, os protocolos devem ser rigorosos e exige delas o fechamento a qualquer sinal de contaminação.

O trabalho mais duro fica à cargo das escolas que precisam ser sistemáticas e muitas vezes firmes com famílias que por vezes mandam crianças com nariz escorrendo. Neste momento que vivemos, nariz escorrendo pode ser resfriado, gripe, rinite alérgica, mas pode ser também COVID-19. Infelizmente.

• Tentamos contato com algumas escolas particulares da capital, mas Santa Cruz, Porto Seguro e Gracinha retornaram dizendo que neste momento não iriam participar da matéria. O Vera Cruz não nos respondeu e o Osvald de Andrade disse que iria participar, mas não retornou há tempo.