Escolas internacionais e bilíngues se aproximam de projetos sociais como forma de assumir mais responsabilidade sobre as diferenças e desigualdades. Conheça o trabalho dessas escolas e o que elas pensam sobre educação brasileira

Num país como o Brasil, com tanta desigualdade social, chega a ser ofensivo escolas tão elitistas como as que temos. Ainda que isso não faça delas, e nem de quem as frequentem, culpados de nada. É um direito, também, dessas famílias de proverem a seus filhos uma educação de qualidade num país em que a educação carece de existir. A parcela dos 1% da população que ocupa esses lugares é sim muito privilegiada e faz dela responsável – não culpada, reforço – por tamanha desigualdade.

Quando uma escola como a americana Avenues reside numa área ao lado de Paraisópolis é inviável não olhar para o vizinho. Mais do que cordialidade entre portas, é preciso, neste caso, haver troca. Convivência. É preciso construir uma educação verdadeiramente sem barreiras e para o mundo. Daquelas mesmas que se falam dentro das escolas internacionais. “Formamos cidadãos globais”, não é o que dizem? Pois bem, o mundo está na porta bem ao lado. É a grama seca e dura que dá pra ver da janela das salas de aula.

Inicialmente, as escolas internacionais chegaram ao Brasil para atender a uma demanda de famílias estrangeiras que vinham a trabalho. Depois veio o boom das bilíngues para atender a demanda dos pais que querem formar cidadãos para o mundo. Crianças que possam falar inglês já desde pequenas e sejam capazes de ter uma formação ampla e diversa quando a gente pensa em língua e cultura internacional. Entrou no currículo das escolas a palavra empatia e as crianças e o jovens devem aprender, também, o que os americanos chamam de “skills”.

Ainda em meio a crise econômica no Brasil e a pandemia do coronavírus, onde uma parcela considerável de famílias tirou os filhos de escolas particulares e matriculou em públicas, as escolas bilingues e internacionais continuam a crescer. Escolas, como o Santa Cruz que nunca sofreu com a falta de alunos, passaram a abrir mais vagas em seus processos seletivos. O Santo Américo chegou a fechar salas de tantos alunos que migraram para a Avenues.

O fato é que essas escolas existem, conquistaram espaços e fincaram bandeira. E mal não tem. É preciso agora olhar a vizinhança e entender que estamos no Brasil, um país com uma desigualdade social gigantesca e um déficit educacional maior ainda. Os dados do Pisa 2018 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostrou que o Brasil tem repetido o desempenho ruim de anos anteriores. Ficou entre os 20 piores nas três habilidades avaliadas — leitura, matemática e ciências — e está com as notas estagnadas desde 2009.

O levantamento, que avaliou mais de 600 mil alunos de 15 anos em 79 países e territórios, mostrou que muitos estudantes não têm sequer conhecimentos básicos sobre as matérias. Cerca de 43% dos avaliados brasileiros não conseguiram atingir um nível de proficiência mínima em nenhuma das três habilidades (leitura, matemática e ciências). Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que organiza o exame) esse número é 13%.

E como fazem as escolas internacionais e bilíngues frente a tamanha desigualdade educacional? Que reflete, indiscutivelmente, uma desigualdade social. Uma vez que estamos formando cidadãos globais. Alunos que tenham habilidades e capacidades desenvolvidas para lidar com situações de mundo como a sustentabilidade do planeta, a fome, a falta de moradia e sim, a educação. Aquela empatia que agora faz parte dos currículos foi posta em prática. Porque é preciso de olho no olho. De sentir a grama seca e dura do vizinho. Pra fazer a empatia existir dentro da gente e fazer brotar.

Turma do Projeto Jatobá 2020 com as diretoras Maria Eduarda Sawaya, Vera Nicol Giusti e Luciana Leite

Turma do Projeto Jatobá 2020 com as diretoras Maria Eduarda Sawaya, Vera Nicol Giusti e Luciana Leite

“A escola é o lugar definido pela sociedade para a educação formal. Não há mais como ignorar, dentro da escola, a existência de “mundos tão diferentes” lá fora, que precisam de soluções cada vez mais urgentes e sustentáveis para que possamos crescer como sociedade e como país, num mundo em constante mudança”, fala Luciana Leite, sócia-fundadora e diretora da Beacon School. “A educação tem o papel de tratar também das questões humanas e tal desigualdade que presenciamos no nosso país é também uma questão humana que precisa ser tratada no ambiente formal da escola, torna-se uma responsabilidade nossa”.

E é deste senso que nascem os projetos. Nascem, dentro das escolas, a responsabilidade social como pilar fundamental da educação em nosso país. Deixando evidente que se trata de uma comunidade ativa de aprendizagem. A Beacon School, inaugurada em 2010, já iniciou com uma demanda conjunta. Tanto escola quanto uma das famílias matriculadas queriam contribuir para trazer diversidade e igualdade para o lado de dentro. Poucos anos depois, nasceu o Projeto Jatobá que capacita e forma crianças, da rede pública, na proficiência do inglês para ingressarem no 6º. com bolsa vitalícia, não só para a mensalidade, mas também todos os extras que a escola propõe.

“Os alunos têm a oportunidade de colocar em prática valores que permeiam a sua vivência e aprendizado na escola, tais como o respeito, a valorização e o acolhimento da diversidade, pois está nos valores da Beacon formar alunos para um mundo melhor e mais pacífico. A escola acredita que a diversidade contribui para isso por enriquecer não somente a formação deles, mas da sociedade como um todo”, conta Luciana.

Na St. Francis College, Taciana Ribeiro, professora e coordenadora do Programa CAS, uma disciplina que promove a atuação de nossos alunos e alunas em projetos de Criatividade, Atividade e Serviço (CAS) fora da escola e que não podem ter ligação direta com as atividades acadêmicas. “Incentivo e promovo parcerias com diferentes instituições para facilitar a comunicação dos alunos e alunas com o mundo fora da escola. Alinhando as sugestões da Secretaria de Ensino e os requisitos do CAS, nos organizamos com escolas públicas para desenvolver atividades de acordo com as demandas particulares de cada instituição”, conta.

A escola que segue a metodologia e o currículo IB (International Baccalaureate), metodologia que é organizada ao redor de projetos sociais de ação e serviço com a comunidade desde os primeiros anos do Ensino Fundamental até o Ensino Médio. Neste currículo, nos dois últimos anos do Ensino Médio, alunos e alunas cumprem obrigatoriamente alguns requisitos para conseguirem a certificação ao final do terceiro ano. Um destes requisitos é representado pelo CAS.

São os próprios alunos que lideram os projetos em conversas com a direção, professores e discentes estabelecendo uma parceria de ajuda mútua entre as escolas, delineando seus objetivos a partir das demandas das escolas parceiras. Ainda que os projetos estejam parados por conta do isolamento social, duas escolas fazem parte: E. E. Godofredo Furtado e E. E. Ludovina Credidio Peixoto, em que os alunos de Ensino Médio desenvolvem e aplicam aulas e atividades de reforço de Matemática no contra turno da escola Godofredo Furtado, Língua Portuguesa e prática de leitura para os alunos com menor desempenho da escola Ludovina Peixoto.

“Estes projetos reverberam impactos extremamente positivos tanto para nossos estudantes quanto para os estudantes das outras escolas”, reflete Taciana. “No nosso caso, para além de desenvolverem habilidades de comunicação, organização, gestão e execução de projetos, os alunos desenvolvem empatia e consciência de classe, conseguindo colocar em uma perspectiva responsável seus próprios privilégios com intuito de trabalhar por uma sociedade com melhores oportunidades para todos e todas. Os impactos nas escolas públicas em que trabalhamos com a parceria também são bastante positivos. Desde melhoria da performance dos alunos na sala de aula, sua participação ativa e envolvida até uma melhoria considerável no desempenho em provas e avaliações do governo como o SARESP”.

Sem dúvidas, a importância de um trabalho como este é enorme no contexto brasileiros. Fortalecer a integração da escola com o território no qual está inserida, visando maior participação das famílias e representantes da comunidade local na construção e execução do seu Projeto Político Pedagógico é fundamental. “O projeto proporciona uma aproximação das distintas realidades sociais, culturais e econômicas da nossa sociedade e também faz um questionamento da realidade atual. É uma semente que plantamos para que, no futuro, nossos alunos possam atuar de forma democrática com relação à desigualdade e suas consequências para a sociedade”, frisa Luciana.

Turma do Projeto Jatobá 2020 durante aula de inglês

Turma do Projeto Jatobá 2020 durante aula de inglês

Não só os alunos e suas famílias, mas funcionários, famílias dos alunos bolsistas, escolas públicas parceiras e fornecedores. Tem uma cadeia envolvida no projeto que é também impactada com toda movimentação e convivência que o projeto propõe. O engajamento da comunidade local no projeto educativo das escolas contribui para que esta assuma, junto com cada unidade de ensino, a responsabilidade pelo desenvolvimento integral de sua população, condição necessária para a construção de uma educação voltada para a cidadania, a convivência e os valores democráticos.

Agora existe um impasse que mora ao lado de fora das escolas. Porque de um lado temos uma classe social mais abonada que traz pra si uma questão que é social e se responsabiliza por ela no que lhe é passível. Mas como é para quem recebe a ajuda? Como se sentem tanto as famílias quanto os alunos que têm que lidar, diariamente, com tamanha discrepância de mundo?

Receber bolsa vitalícia, ter material, viagens e extras garantidos ok. Mas e o emocional, como e onde fica? Como criar um ambiente e uma convivência confortável para que esta criança ou adolescente que ingressa possa, minimamente, sentir-se parte? Ano passado, um aluno do Ensino Médio, da escola Lourenço Castanho se matou. Ele era filho da auxiliar que trocava fraldas. Era bolsista. Mas sentia-se deslocado em conversas sobre lugares que ele nunca tinha viajado, restaurantes e programas que ele não tinha condições financeiras de bancar, roupas que ele não tinha e uma distância geográfica de moradia.

Existe um abismo social entre essas classes que os projetos, as escolas e as famílias que colaboram não conseguem abarcar – e tudo certo! A gente dá conta de um tanto nesse mundo. “Esse é o nosso principal desafio e ele é diário”, reforça Luciana, diretora da Beacon. “O que podemos contar da nossa experiência é que é possível a convivência positiva e produtiva entre alunos que provêm de classes tão distintas e esse é um acontecimento que agrega para ambos os lados. Temos um cuidado grande com o emocional dos alunos que entram como bolsistas e, por isso, durante o primeiro ano eles fazem acompanhamento semanal com uma psicóloga. É um trabalho em grupo, onde os alunos que já são bolsistas se juntam aos novos integrantes, para conversar sobre os desafios e criar soluções para o dia a dia na escola e na vida. Esse trabalho tem se mostrado muito importante, pois a partir dele conseguimos melhor direcionar ações específicas para aprimorar cada vez mais o convívio no ambiente escolar”.

“O desconforto existe porque desigualdade está posta. Entretanto adolescentes se entendem melhor do que adultos”, analisa Taciana Ribeiro, coordenadora do programa na St. Francis. “Em uma das primeiras vezes que fomos para a Godofredo para a restauração e intervenção artística no ginásio, a interação entre nossos alunos os da Godofredo foi quase nula. Quando voltamos para a escola, depois de refletirem sobre a experiência – momento que faz parte dos requisitos do CAS – nossos alunos nos procuraram com um pedido: queriam poder ir para a Godofredo sem os uniformes da escola”. Depois de conversarem, eles perceberam que muitas barreiras já eram construídas pelos uniformes que eram completamente diferentes e isso fazia com que a distância entre os alunos fosse maior.

Na segunda visita sem os uniformes, Taciana já não mais sabia quem era quem no meio de todo mundo conversando e interagindo. “É claro que este é só um exemplo de como procuramos amenizar um problema intrínseco nas nossas relações sociais, mas por termos o canal dos alunos sempre aberto, tanto conosco aqui na escola quanto com a coordenação e os alunos das outras escolas, facilitamos muito a resolução de situações como esta. Também acreditamos na ação mais do que na passividade para resolução de problemas, promover esta interação já é um passo para possibilitar e amenizar os desconfortos em certa medida”.

Os desafios da educação no Brasil, sem dúvida, são imensos. Dificilmente ambos os lados estarão em posições confortáveis. Dói mexer nesses lugares. Dói olhar pela janela e ver a grama secando por desnutrição. Mas “promover a interação entre duas classes sociais tão distintas permite trocas culturais, de valores e tradições, promovendo mais respeito e reconhecimento das diferenças, das semelhanças e das riquezas sociais que temos no país”, acredita Taciana e a gente, certamente, também. É preciso sair da zona de conforto e confronto. De ambos os lados. De quem brinca no pátio de grama verde e macia e de quem, muitas vezes, nem pátio tem para brincar.