Escolas privadas e públicas estão autorizadas a reabrir com 35% da capacidade, mas mandar ou não crianças e adolescentes é a questão que mais angustia famílias neste momento da pandemia

Sexta-feira última, o Governo do Estado de São Paulo, João Doria, anunciou a mudança para fase vermelha e autorizou a reabertura das escolas . Na mesma sexta-feira tivemos, no mesmo estado, a média móvel de 842 mortes e um quase total 350mil no país. Neste cenário, escolas estão autorizadas a abrir com 35% da capacidade. Mas quem é que tem coragem de mandar os filhos neste momento da pandemia?

E sabe quando escolas, públicas e privadas, poderão abrir de forma segura? Quando Estado e sociedade civil trabalharem juntos pra que isto seja possível. Quando ambos entenderem que são co-responsáveis por este “serviço” que é essencial.

As escolas estão atentas ao serviço essencial que prestam e ao papel fundamental que ocupam na formação de sujeitos, mas é preciso que sociedade e Governo ofereçam condições reais pra que exerçam seus papéis. Enquanto as condições forem remotas, escolas privadas seguirão com aulas no modelo online – também conhecida como “remota” – e escolas públicas seguirão se virando como podem e fazendo mágica para garantir o que a Lei chama de Direitos da Criança e do Adolescente.

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É mais do que sabido que todo mundo sente falta do cheiro da escola. Que todo mundo sente falta do som da escola. Do barulho do recreio, daquele monte de criança correndo pelo pátio. Todo mundo sente falta deste corpo vivo e pulsante que a gente chama de escola. E é preciso continuar oferecendo vida às crianças e adolescentes porque não dá pra viver somando mortes. Passou da hora de cada um pegar o pedacinho de papel que lhe cabe e fazer a sua parte. Fazer valer o Direito – com letra maiúscula – de uma criança e um adolescente vislumbrar futuro, construir perspectivas de vida. Sonhar. Aniquilamos a adrenalina dos jovens: a utopia do sonho.

Estamos afundando uma geração inteira. Inteirinha. E deste jeito, a escola viva e pulsante que queremos de volta, este ano, não vamos ter. Vai entrar semana, sair semana e os pronunciamentos do Governo estadual continuarão ocupando o lugar da esperança – ou desesperança. O lugar de uma possível segunda-feira mais confiante no mundo. Enquanto isso, escolas seguem no desafio de pensar – e repensar – outras possibilidades de continuar sendo escola.

Estamos reinventando todas as relações. Todas. E como se reinventa aula sem lousa e pó de giz? Como se recupera a essência do encontro pela tela? Como se respira junto? Como corpo único que é o que deveríamos ser. As respostas são todas desafiantes e é sob elas que professores e gestores se debruçam, semana a semana, a fim de reconstruir planejamentos. Alguns pais escrevem e-mails pedindo que avisem as mudanças com mais antecedência. Como? Num país em que não sabemos o que nos espera ao acordar.

Substituímos o vivo do presencial pela frieza das telas. Até quando?

Substituímos o vivo do presencial pela frieza das telas. Até quando? desafio ao adolescente

As escolas têm “almoçado” com o Governador semanalmente pra entender como eles pensam e olham as instituições de ensino. E com as dificuldades de diretrizes claras no país é atordoante pensar como vai ser. Como vai ser? Nunca ninguém sabe e mesmo com todas adversidade dos tempos, elas seguem no exercício de se fazer escola.

Com professores valentes, corajosos, que estão acertando, errando e apostando em diferentes alternativas pra conseguir resgatar o sorriso dos alunos, ainda que seja pela tela. Reinventando pactos e tratos. Professores que vem de um cansaço imenso de 2020 e seguem num desejo comum de voltar ao presencial, mas vivem a impossibilidade da pandemia onde tudo gera incerteza.

Susan Amorim, professora da rede privada relata a importância de reconfigurar o olho no olho entre alunos, professores, funcionários e famílias. “Nossas casas se transformaram em espaços educativos. Quartos, salas, quintais…Aprendemos sobre tecnologia, usando novas plataformas virtuais e aplicativos. Porém, o que mais aprendemos foi que mesmo à distância é possível construir relações cheias de afeto, respeito e cumplicidade.”, fala. “Não há como sairmos iguais desta experiência pandêmica. Todos perdemos muito, mas escolho olhar para o que construímos e ganhamos: o ser escola, mesmo sem estar na escola”.

O professor Guilherme Santinho Jacobik, também da rede privada, reconhece o lugar privilegiado, mas se posiciona como educador brasileiro onde alguns enfrentamentos convergem com a pública. “Nos vimos todos tendo que aprender ferramentas tecnológicas que não usamos como instrumento didático. E, o mais difícil, foi ter que ensinar os alunos que perdiam documentos, não sabiam onde estavam postados. Falta uma discussão da educação híbrida neste contexto emergencial pandêmico”, aponta.

Jacobik, que dá aula para o 4º., diz que este ano estão todos mais adaptados, mas exacerbou nos alunos a falta de contato físico, do olho no olho, da escola fora da tela. “Eles sentem falta das brincadeiras, dos momentos espontâneos de corredor e pátio. De contar as coisas que acontecem em casa na sala de aula, de falar. Isso também é aula. Isso também é convívio escolar. Estamos todos solitários”.

Patrícia Mendes da Silva, professora de alfabetização na rede pública e no Instituto Pró-Saber SP, em Paraisópolis, conta que após um ano de pandemia, ressoa a frase do escritor e poeta Mário Quintana que diz que “democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida” como metáfora para a educação. “E o ensino remoto não nos permitiu dar o mesmo ponto de partida às crianças e adolescentes da rede pública”, fala.

Momento da Contação de história ano passado em novembro, quando o Pró-Saber retomou as atividades presenciais

“A educação sofreu muito e perdemos muitas crianças que não percorreram o caminho da escola, da alfabetização, do aprendizado. E perdemos professores também porque não estavam preparados e não tiveram tempo e recursos para se renovarem. Após um ano ainda temos um resultado triste. Um grupo de crianças entre primeiro e segundo ano não escreve o próprio nome e isso é primordial pra quem está se alfabetizando. Crianças viraram o ano sem aprender a escrever o próprio nome”, relata Patrícia.

Mais de 80% das crianças e adolescentes brasileiros estudam em escolas da rede pública. Mais de 80%, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad). São 45 milhões de alunos. A rede privada é ínfima quando olhamos para o cenário da educação brasileira. Ínfima e pífia. E os relatos da professora Patrícia não deixam dúvidas.

“Eu defendo o vínculo de estar na escola presencial. Torço para que a gente retorne às escolas porque na aprendizagem é vital que exista contato, afeto, a convivência viva. Eu já chorei muito em reuniões…saber que crianças de periferia, as que mais precisam, são as mais prejudicadas e isso me dói como educadora. Elas não tiveram o acesso adequado. Tem família que quando a gente liga pra saber como está, conta que está passando fome, que não tomou café da manhã”.

Patrícia se emocionou durante nossa conversa e se desculpou pelo choro. Patrícia e outros tantos professores é que deveriam receber desculpas de governantes e também da sociedade civil. Se algum educador sentiu que falhou, falhamos todos como nação. Porque educação deveria poder dar a todos o mesmo ponto de partida.

2020 foi “como deu” e agora existe uma chance de organizar, de poder criar novos códigos para garantir a construção desta relação que também é nova. Para garantir os Direitos de crianças e adolescentes que são essenciais. As escolas privadas seguirão com aulas online ainda neste semestre, talvez no ano. O online ainda vai ocupar muito tempo nas escolas. Seja qual for a volta, o retorno, ele será lento. A escola online não será desmontada, ela fará parte daqui em diante. Isto podemos ter certeza.

As públicas seguirão torcendo para que os tablets prometidos pelo Governo do Estado e Prefeitura realmente cheguem às casas das famílias. Porque não existe a possibilidade de assistir uma aula no Google Classroom por uma tela que mede não mais que 5,8 polegadas. E lembrem, são 4,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros sem sinal de internet em suas casas, segundo estudo da UNICEF Brasil. Mas educação é serviço essencial no país, não é?

Escola é construção de conhecimento, mas é também afetividade e crianças e jovens estão privados de tudo isto. Uma marca que vai deixar cicatriz. Uma geração inteira que vai chegar a vida adulta com sequelas que ainda nem foram mapeadas. É sério mesmo que vamos viver um segundo ano sem que os adolescentes possam ir pra balada, beijar, possam fazer planos pra faculdade? Lollapalooza? Esquece. Ninguém quer filho em recreio escalonado. Ninguém quer filho sem saber escrever o próprio nome. O nome.

A educação brasileira está agonizando. Escola é organismo vivo e é sabido que o lugar dos alunos é dentro dela. E é por isto que se faz urgente garantir os espaços de educação às crianças e aos adolescentes. Mandar ou não mandar os filhos pra escola? O que é recuperável, o que não vai ser? Até quando? Enfrentaremos mais um ano cavando o buraco do abismo em que a educação está imersa? Estamos todos em aberto.