Era o dia em que o Lucas precisava se despedir do melhor amigo, na escola, que está indo morar fora. Ele, com sua maior timidez e temperamento reservado, olhou pra mim com olhos mareados e segurou bravamente o choro. Não conseguiu. Mas no carro logo arrumou uma implicância com o irmão e chorou, chorou e chorou. Chegou em casa, subiu pro meu quarto, colocou fones de ouvido e não quis descer pra almoçar. Ficou de coração partido e a gente, que é mãe, fica junto um restinho apertado. E não tem o que fazer. Não há o que fazer. Porque tristeza e saudades não há mãe que tire de um coração. Criança também sente dor, sente aperto no peito, e não é só de sorridos e estripulias que vive a infância.

 

Tem o tal aperto no peito sim. Tem choro, tem saudades e tem tristeza. Tem um monte de sentimentos que mãe nenhuma quer que o filho sinta. Mas como fazer pra que eles cresçam? Precisam passar pela dor, pela perda, pela despedida e sozinhos. Não dá pra trocar por um doce ou por um cinema. Aperto no peito a gente não troca por nada. A gente se encolhe, chora, chora e chora. E, por um momento, a vida vira um caos porque a criança não entende muito bem o que está sentido. Que dor é essa que dói tanto. E as emoções se misturam. Dá raiva porque, no fundo, a gente não quer que o amigo vá embora. Dá alegria porque a gente lembra das coisas boas com o amigo. E dá a tal da tristeza. Ah a tristeza…como seria colorida a vida sem ela. Teria menos cara de dia cinza de chuva. Teria menos cheiro de lembrança. Mas teria menos coisas pra contar, pra rir sozinho. Talvez sem a tristeza a gente nem chegasse na alegria plena. Porque ás vezes a gente precisa ir lá no fundo pra poder subir de novo. E criança aprende a conviver com a saudades e logo a vida segue. E um novo amigo vai ajudar a completar o buraquinho que o outro deixou. Não vai ocupar. Não foi isso que eu disse. Ele só vai ajudar. Quem não precisa de ajuda, não é?

 

No filme Divertida Mente, a menina Riley, 11 anos, é quem muda de país. Deixa pra trás a casa com quintal, o verde da cidade, as amigas, o time de hóquei e mais um monte de porto seguros que a gente vai construindo ao longo da vida. E na vida nova, Riley se confronta com o Medo da escola nova e dos amigos que ainda não fez, com a Raiva de ter que mudar de cidade mesmo não querendo, com o Nojinho da pizza de brócolis. Mas tem a Alegria lá dentro dela que vive tentando reativar memórias boas pra deixa-la feliz de novo e faze-la sorrir. E ela consegue, mas um certo momento a Tristeza começa a ficar pesada demais e transforma essas memórias afetivas que traziam tanta alegria em memórias tristes. Riley começa a ficar muito triste e suas emoções começam todas a tentar ajudar, mas ela vai ficando cada vez mais confusa. E tem um descontrole de emoções. Dá pane no sistema de memórias afetivas e os mundos vão desabando. Literalmente. E talvez o Antônio, amigo do Lucas, também se sinta assim quando chegar nesse lugar novo.

 

A Alegria vai ao fundo do poço e põe a gente pra pensar nas emoções. E entender que cada uma delas tem um papel dentro da nossa história e que é importante demais poder reconhecê-las dentro da nossa vida. Filme sensível e que ensina, também, as crianças coisas sobre o sentir. Porque a gente não quer nunca que eles sofram, que passem por dificuldades, que sintam tristeza. Mas a vida não é assim e não pode ser. O que antes era uma referência de alegria se descontrói e precisa dar lugar a uma vida nova. Mas pra isso, a criança precisa viver suas emoções e entender a importância e o lugar de cada uma delas. Porque pra reconstruir, ou construir novo, precisamos desconstruir o passado. Lindo.

 

O filme é cheio de mensagem simbólica (assim como a vida). Mensagem da criança que deixa a infância quando esquece seu amigo imaginário; quando a tristeza traz a tona as bases de uma memória afetiva importante pra se reconectar; quando a família se abala mas não desmorona; quando a família mostra a importância da escuta dos sentimentos e do acolhimento; quando a criança percebe e entende o que acontece dentro dela.  Levar as crianças a consciência do que acontece dentro delas e de que podem lidar com as emoções. Com frustrações e aperto no peito. Porque a gente fica triste sim e porque menino também pode chorar. Porque chorar faz um bem danado.