Outro dia aprendi que o tempo é o senhor das delicadezas. Porque chegar não é mais valioso que a andança. Na espera do tempo, tem caminhos e caminhares. Todos cheios de pequenos gestos. Pequenas delicadezas.

É tempo de férias. O destino eram dois. Mas foram dois caminhos por três caminhares. Um deles através do tempo, da contagem, da paciência. Outro, do conhecimento, do querer saber, do interesse. Por último, o da fantasia, do imaginário, de até onde a cabeça pode ir. Todos senhores de pequenas delicadezas.

O primeiro, um adolescente. Meio sem paciência, meio querendo crescer e já achando infantil os irmãos que se divertem com o que vem da infância. Um parquinho para bebês no caminho do castelo é suficiente pra que eles parem e brinquem. Mas ele não. Senta, reclama e diz “vamos”. “Vamos” é a palavra de ordem. 10 minutos dentro de qualquer lugar é o suficiente pra ele se esgotar. A impaciência da adolescência x o exército do tempo. De ter calma. De contemplar. E a gente ensina pra ele que chegar não é mais valioso que a andança. O caminho – e o caminhar – faz parte de onde queremos chegar. Sem passar por ele não se chega. Simbólico.

E parece que ele descobre. Quando encontra no castelo o aprendizado da escola, se deixa levar pelo tempo. Finalmente perde a contagem do relógio e vive a contagem da viagem. De entrega as espadas, aos reis e rainhas. Entende o porquê dos caminhos e dos caminhares. E que lindo de ver como os olhos brilham.

Brilham tanto que ele diz querer morar no mundo. Já pede pra ir. Um dia vai, no seu próprio caminhar. Por enquanto usa a vontade a favor de sua curiosidade, e se comunica. Sua fala é cheia de vontades. Quer pedir sozinho, quer perguntar, quer saber. Procura a frase mais longa pra fazer a pergunta. E complementa as respostas que recebe. Sua curiosidade é a comunicação. Se interessa pelas pessoas. Sobre o que elas fazem, do que vivem, como vivem e porquê. Quer morar no mundo. Aprender o mundo. Está cheio de tempo.

O segundo, é quieto. Fala o necessário. Quase o essencial. Capaz de pedir uma água com o olhar. Gosta mais de ouvir. É daqueles que entra em qualquer lugar e procura o tour guide. Sai a procura de histórias, de conhecimento. Quer saber o que aconteceu ali ou como aquela engrenagem funciona. Na National Gallery, em que os irmãos estão achando um saco, ele logo quer saber onde está o quadro que a avó tanto gosta. Se você conta que Van Gogh cortou sua própria orelha, ele logo pergunta sobre Monet e Leonardo da Vinci. Quer sempre saber. Porque, como, onde e quando. Está sempre atento. Quieto, mas de observações pontuais. Reconhece sinais de arquitetura, das histórias gregas que ouviu do seu professor. Faz observações cheias de conhecimento. Um menino de mil estrelas eu o chamei a observar um vasto de pontilhados brilhantes numa exposição.

O terceiro, viaja – no sentido literal mesmo. Senta à espera do tempo passar. E passa por ele a fantasiar. A visita ao castelo é um universo. Guerras, batalhas, bombas, canhões, cavaleiros, reis e rainhas. Uau! Imagine tudo isso junto numa mesma brincadeira. Muita empolgação. Ele nem sabe pra que lado olha tamanha a realidade de tudo aquilo. Ainda vive de (ou na) fantasia. Ainda vive na infância. E que delicia de ver e participar. Ele sai do castelo e pede pra comprar um daqueles tradicionais soldados de plásticos pra batalhar. E se deixar ele senta no chão da loja e fica. Mas a gente sempre tem que chamá-lo pra vir. Felipe sempre anda atrás. A observar. O céu, as nuvens, os detalhes que ficam em cima dos prédios – e a gente nem vê. Ele sempre puxa e diz “olha!”. E que olhar mais sensível.

É o acompanhar o caminhar deles pela vida. Tão cheio de delicadezas nas escolhas, nas particularidades de cada um. Cada um no seu passo, cada um com a sua própria mochila nas costas. O que cada um vai por nas costas, é escolha única de cada um. Uma certeza eu tenho. Vão levar amor. Claro que vão levar amor. Muito. E estarão mais do que prontos pra fazerem o percurso que escolherem. Porque o caminho – e o caminhar – faz parte de onde queremos chegar. Sem passar por ele não se chega. É assim que a gente cresce. Com o tempo e as delicadezas que ele nos entrega.