Para além das ferramentas digitais, as escolas têm mais um desafio neste homeschooling. É preciso ensinar e educar crianças e adolescentes a se relacionarem dentro do que é a nova sala de aula, os chats

Você sabe o que é educação digital? Já parou para pensar no termo e no que ele compreende? Em tempos de homeschooling, em que crianças e adolescentes usam o ambiente virtual como sala de aula, as relações têm ganhado novos aspectos e é preciso reestabelecer os combinados e as regras que se tinham no ambiente físico.

Escola é um ambiente educador em muitos aspectos. Não só de Língua Portuguesa e Matemática vivem professores e alunos. Aprender a se relacionar, escutar o colega, considerar a fala do outro, somar o que é diverso e ampliar olhares para diferentes culturas são só alguns dos “a mais” que a escola traz no pacote educação. E como é que essas relações estão acontecendo no ambiente virtual? O que acontece quando a gente leva a sala de aula pra dentro da tela?

Saber carregar um vídeo, postar uma lição, abrir o chat e fazer trabalhos de grupo em salas compartilhadas eles já estão craques. Crianças e adolescentes são rápidos no aprendizado que diz respeito as tecnologias, mas para além delas existe algo intrínseco ao ambiente escolar que é a construção das relações, num ambiente plural e cultural.

Entre as novas regras estabelecidas, fica combinado que microfones ficam desligados e só podem ser abertos quando a criança fala ou a professora chama. Mas é nesse momento que começam as gracinhas. Crianças e adolescentes têm “mutado” uns aos outros. O botão mute da plataforma já ganhou derivação verbal. Outra artimanha é derrubar o colega da sala. Agora imagine isso acontecendo no ambiente físico. Como seria calar a boca de alguém?

Existe um tanto que faz parte da criança que está ali testando seus limites dentro do grupo. Outro tanto que extrapola. É a falta de educação. O que vale para ambientes físicos e virtuais. É preciso educar para as relações dentro do ambiente virtual, para a cultura digital. O que implica em refazer combinados e regras, como garantias de um local agradável e respeitoso.

E como olhar para este lugar quando, brutalmente, fomos transportados a ele? Quando muitas escolas e alunos também estão aprendendo a se relacionar neste novo ambiente. Conversamos com duas escolas particulares que estão a frente deste processo para saber mais. Ana Paula Gaspar Gonçalves é assessora de Tecnologia Educacional, na Escola Vera Cruz e Zilda Kessel, coordenadora de Tecnologia Educacional da Beacon School.

Aluna Beacon School durante aula remota em casa. Divulgação/Beacon School

Aluna da Escola Vera Cruz em aula remota pelo chat

O que a gente deve, e pode, entender por educação digital?
Zilda: “A educação digital é um processo que envolve pessoas (educadores e alunos), recursos e espaços digitais. Ela não se resume a ensinar alunos a utilizar máquinas e programas. Deve garantir o uso competente dos recursos e, também, o desenvolvimento de atitudes e de valores baseados no respeito ao outro e na colaboração”.
Ana Paula: “Compreende a Cultura Digital, o que envolve a compreensão de uma cultura inteira, com suas linguagens, comportamentos, contratos, costumes, histórias, códigos e tudo que está imerso em uma cultura. Aprender e apreender uma cultura não é trivial. O desafiador é que estamos todos completamente envolvidos e ela muda em uma velocidade enorme”.

Quando a gente muda o ambiente da sala de aula pra dentro do ambiente virtual, o que se espera das crianças em relação ao comportamento?
Zilda: “Assim como no espaço presencial, o virtual tem regras de convivência a serem respeitadas. Esperamos que as crianças tenham um comportamento respeitoso em relação a todos, mas no espaço virtual parece menos óbvio. Pode parecer um lugar sem regras e que permite o anonimato. Precisamos auxiliar nesta compreensão”.
Ana Paula: “É preciso conversar com as crianças sobre comportamentos esperados como resiliência, colaboração, empatia e a nutrição do desejo pela aprendizagem. Esses comportamentos são muito importantes para a convivência no ambiente online e para sustentação das propostas escolares e a conexão da comunidade escolar”.

Quais têm sido os desafios?
Zilda: “Para os maiores é manter um ritmo de estudos, se organizar para realizar as atividades propostas, estar presentes e interagirem nas lives. Para os menores, há uma questão do vínculo tanto com o professor quanto com os colegas. Como precisam do auxílio dos pais, experimentaram maior isolamento. Outro ponto é a apropriação do uso dos dispositivos e das ferramentas. Aplicativos de interação, antes controlados, foram liberados e eles precisaram aprender sobre. Conflitos, amizades, interações entre crianças e grupos passaram a fazer parte do cotidiano. Entender que não há anonimato e há jeitos de dizer as coisas.O que escrevemos e postamos fica registrado. E para todos o desafio é estar distante”.
Ana Paula: “Uma das dificuldades que percebemos no início foi em relação à compreensão das orientações para a realização das atividades. Em sala de aula, quando o professor comunica uma atividade, o estudante tem muitos elementos para apoiar o entendimento. No virtual tem apenas a interface com o equipamento, o sistema e o conjunto de estímulos que compõem uma proposta. Foi comum ver estudantes confusos em relação à atividade. O que despertou sentimentos como frustração, angústia e impaciência porque todos desejam muito realizar as atividades”.

É possível construir relações saudáveis no ambiente digital? Qual papel da escola?
Ana Paula: “Sim, é o que chamamos de uso responsável que implica em questões éticas que precisamos constantemente desenvolver junto aos alunos. Em sala de aula, os professores são mediadores de diálogos, sabem mediar debates. Os recursos tecnológicos têm funcionalidades de mediação de conversas e os professores aprenderam a utilizá-los. E quando se faz necessário, encaminhamos da mesma forma que no presencial, com diálogo, mediação e construção de contratos didáticos onde cada um entende sua responsabilidade na construção de uma convivência respeitosa. Nesse ponto é importante entender que a tecnologia é um sistema de linguagens que fomentam novos comportamentos que não seriam possíveis sem ela”.

Professores do 7o. da Escola Vera Cruz durante reunião pedagógica, na plataforma Teams

Professores do 7o. da Escola Vera Cruz durante reunião pedagógica, na plataforma Teams

Crianças e adolescentes têm feito uso dos recursos de ferramentas para colocar amigo no mudo. O que fazer?
Zilda: “O uso correto das ferramentas digitais vem junto do processo de aprender a distância. Há combinados para o trabalho no espaço digital e eles precisam ser construídos e relembrados sempre. E falar disso não é perda de tempo. É o meio para poder trabalhar melhor. “Mutar” o meu microfone quando não estou falando para garantir que quem está falando possa ser escutado, chegar antes do início da live, escolher um local para participar, abrir a câmera, pedir a palavra, usar termos adequados e não agressivos nos chats e fóruns”.
Ana Paula: “O digital oferece recurso onde as pessoas se sentem mais seguras para fazer algo do tipo porque a funcionalidade está simplesmente lá para ser clicada e acionada e elas não sentem que estão agredindo alguém. O trabalho da escola é marcar a diferença entre esses campos e desenvolver os códigos éticos específicos da linguagem e desenvolver as sensibilidades necessárias para o novo ambiente”.

Qual a grande oportunidade que as escolas têm em mãos?
Zilda: “O momento é oportuno tanto para estar com os alunos nos espaços virtuais e construir projetos interessantes, orientar os alunos para uma maior autonomia, como para ter também todos os professores trabalhando, construindo propostas, percebendo a potência do trabalho virtual. E isso é de uma riqueza imensa para a comunidade escolar. Jamais teríamos tantos educadores junto de seus alunos trabalhando no virtual e tendo a oportunidade de construir”.
Ana Paula: “As escolas têm agora a oportunidade de, não só aprender intensamente sobre tecnologia educacional, mas como também criar suas próprias tecnologias e trazer ainda mais protagonismo, emancipação e significado para a experiência de professores e alunos. A potência está nos professores, nos estudantes e nas famílias. Esta situação é um embrião”.

Quais aprendizados ficam deste período de escola digital?
Zilda: “A educação digital está presente no currículo de nossos alunos, na proposta de desenvolvimento profissional dos educadores e, ainda, no projeto de inclusão digital de todos os funcionários. Também descobrimos que atividades podem ser feitas a distância com qualidade (e poderão continuar nesta modalidade) e quais as atividades para as quais o presencial é mais interessante. E, certamente, aprendemos o valor da convivência, do abraço e da partilha”.
Ana Paula: “Estamos assistindo a uma participação muito importante das famílias no processo de aprendizagem dos estudantes. Estão vendo o processo muito de perto e isso é muito bonito. A construção da autonomia é outro aspecto e a inclusão de estudantes. Estamos observando crianças com dificuldade na fala se expressando muito mais pelos chats do que faziam em sala de aula.”

Qual contribuição vai ficar a todos?
Zilda: “Existe um papel fundamental que é o de proporcionar aos alunos que aprendam e reflitam sobre esses usos, suas potências e também os seus problemas, já que o digital pode ser instrumento de violência, de controle, de proliferação de fake news. É da escola uma importante parcela da responsabilidade de formar alunos que saibam transitar e serem produtivos com competência e responsabilidade. E sabemos que essas competências são fundamentais para a sequência de estudos que terão na universidade e na vida profissional em qualquer área que escolherem. Nenhuma área de conhecimento e atuação profissional prescinde das competências do uso digital”.
Ana Paula: “Paulo Freire dizia que a História é o tempo da possibilidade e que o futuro não é dado e sim, problemático. Como historiadora e educadora, acho que esta pandemia é um tema gerador de muitas transformações na educação digital. Tenho usado a expressão Pedagogia da Contingência para comunicar que este será um tempo propício para que professores, alunos e famílias sejam agentes da mudança e transformação da educação que almejamos. Serão contribuições importantes para aprendermos a atuar em situações complexas e avaliarmos o sentido da tecnologia na educação com mais criticidade e atenção”.