A fala é da mãe da blogueira Alinne Araújo que se suicidou dia 15 de julho depois de terminar um relacionamento. O ex-namorado, em entrevista a um canal de televisão, chorava enquanto dizia “eu tentei de tudo, mas não consegui”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já coloca o suicídio como segunda principal causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos. No Brasil, de 2000 a 2015, os casos aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% na faixa de 15 a 19 anos – mais do que o aumento na média da população, que foi de 40%. Segundo a mais recente edição do Mapa da Violência (documento realizado com base em dados do Ministério da Saúde), de 2002 para cá, a taxa de suicídio de jovens tem sido consistentemente maior do que a do restante da população, tendo crescido de forma contínua no período pesquisado.

Por traz das histórias de suicídio, outro tema: a depressão. É o assunto tratado no quadro “Não tá tudo bem, mas vai ficar“, do Dr Drauzio Varella, no Fantástico. O canal GNT exibe o filme A Fábrica da Depressão, em que faz uma investigação mundial sobre a natureza global e o escopo epidêmico da depressão, mostrada de um ponto de vista societal que desafia a noção individual de depressão.O tema está em pauta.

E o que antes não era divulgado, hoje as redes sociais espalham. O caso da Alinne viralizou, como tantos outros. A gente passou a saber sobre adolescentes de escola particulares e públicas que se suicidaram por diferentes razões. Passamos a ver adolescentes que invadem escolas, matam e depois se matam. Passamos a escutar e ler sobre depressão, angústia e a dificuldade das famílias em perceber sinais desse possível jovem em vias de. Que sinais são esses? O que é possível fazer além de carregar uma culpa eterna de que talvez algo pudesse ter sido evitado?

As respostas e as razões são complexas, mas claramente estamos frente a uma juventude cheia de questões e que precisa de um olhar mais carinhoso e paciente. Ainda assim, os alertas mais básicos valem ser lembrados: observar se o adolescente está mais quieto, fica muito tempo trancado no quarto, fala pouco, se irrita com facilidade, baixou o rendimento na escola ou no esporte, o círculo social diminuiu… é sabido que quanto mais laços sociais com a família e a comunidade o adolescente tem, menores são as taxas de suicídio. Mas isso é um olhar, um recorte de um contexto complexo e dolorido.

No caso dos alunos do colégio Bandeirantes, em 2018, por exemplo, em entrevista ao Estadão, o diretor da escola, Mauro Aguiar, disse que eram bons alunos e que as famílias eram presentes. A fala nos convida a desarma aquele dedo apontado de “onde estavam as famílias desses meninos?”. Muitas vezes bem próxima. Será então que eram as altas exigências da escola? As cobranças? As comparações sociais, do grupo? Talvez qualquer pergunta que busque um culpado seja injusta.

Em entrevista ao Estadão, em abril de 2018, a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, especialista em processo de luto por suicídio, reforça que as conversas são importantes, tanto para acolhimento quanto para identificar outros adolescentes vulneráveis. “O suicídio é um ato de comunicação. A pessoa comunica em morte o que ela não consegue comunicar em vida.”

A gente precisa aprender a diferenciar solitude de solidão. A gente precisa aprender a não culpar e sim a amparar. A gente precisa aprender a não julgar e sim a compreender. Para que menos jovens e menos adolescentes flertem com a morte. Para que as estatísticas não subam. Para que a gente aprenda a ressignificar a vida que anda tão banalizada. Não apenas pelos jovens, mas talvez pela espécie humana.

Cometer suicídio pode ser um ato grandioso de coragem, mas é também um choque violento de fragilidade. É um grito, uma fala de quem não conseguiu se comunicar por outras vias. Em que ponto se chega para achar que nada, nada mais tenha sentido? Que lugar é este tão profundo que o jovem se depara que ele não é capaz de ver – e sentir – ajuda? Duvidar da vida não é lugar de fraqueza. Não pode ser.

“As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer
Pânico, vertigem, obsessão (…)”

Solitude é ficar consigo mesmo. Tem a ver com autoconhecimento. Tem a ver com a capacidade, e a possibilidade, de escutar o silêncio da alma. Solidão é sentir-se sozinho. Tem a ver com vazio, escuridão. Com pesadelo, com desespero. Algo que faz o coração chorar profundamente. Onde não existe o sorrir por acaso. E é preciso olhar com muito cuidado para essas diferenças para poder amparar. Amparar é sinônimo de acolher, de proteger, sustentar, de apoiar. E é isso, talvez o máximo, que quem está por perto possa fazer.

É preciso sim falar sobre violências quando elas acontecem. Perguntar o que as crianças ou adolescentes estão sentindo. É preciso abrir espaço para dúvidas e para que eles possam se abrir, dizer como se sentem. É preciso ter acolhimento, em casa e nas escolas. É preciso pensar numa educação integral onde existe um olhar sócio emocional. E é possível se reconhecer como mãe ou pai de um adolescente em depressão porque existe uma conversa que é possível.

“A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não (…)”