Passado o Dia das Mães, a internet deixa clara uma mensagem: é preciso desromantizar a maternidade

Não é de hoje que a internet tem sido espaço constante para manifestação de mulheres que são mães nas suas mais complexas diversidades e diferenças. O lado bonito da maternidade todo mundo já está careca de saber, mas faz-se o tempo em que é preciso deixar claro o quanto o “tal” esforço de heroína esconde uma desigualdade de gênero monstruosa por trás.

Domingo, Dia das Mães e o almoço era em casa. Meu marido sai para o mercado e eu coloco a roupa da faxina para deixar a casa em ordem. Tiro as roupas sujas de todos os cestos, ligo a máquina, dou uma geral na cozinha, levo pratos e talheres para a mesa do quintal onde será o almoço, depois os copos e por fim pego o aspirador. Passo na casa toda.

Termino quase na hora marcada para as pessoas chegarem, mas estou contando com o atraso delas. Toca a campainha, é uma tia. Me desculpo pelo cabelo caindo do coque e a roupa da faxina e subo correndo para o banho. Estou saindo e escuto a campainha de novo. Uma prima chega e me pega de toalha pelo corredor. Carol onde posso montar a salada? Pode entrar na cozinha e mexer onde precisar e pegar o que quiser.

Me troco correndo e desço de vestido de alcinhas num domingo que fazia frio. Todo mundo que chega está de casaco e eu pingando debaixo do vestido. Aos poucos vou tentando reestabelecer a temperatura normal do corpo, mas custo a chegar nela. Fato é que entre toda a correria e o calor provocado, fui juntando os pedacinhos de mim que passaram a manhã correndo com os assuntos e as postagens diariamente absorvidas pela internet.

A mensagem é clara: precisamos desromantizar a maternidade. Mulheres que são mães não querem mais serem chamadas de heroínas porque elas estão exaustas deste fardo. A gente dá conta? Dá, mas estamos há tempos acenando a bandeira da igualdade e equidade.

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Por detrás desta queixa, existe a intenção concreta de desconstruir a figura imaculada da mãe. Ninguém é Santa ou quer ser vista como Santa. E é claro que esta conversa ganha força em 2022 quando o movimento feminista dá as mãos à maternidade como parte importante da pauta. Existe um espaço social que as mulheres ocupam que, em sua grande maioria das vezes, passa ou irá passar pelo maternal.

A ideia, por exemplo, de que mulheres nasceram com instinto materno e que são objetos sociais de procriação é algo que o feminismo anda lutando para desconstruir. A ideia de que mães são heroínas que aguentam tudo e fazem tudo é algo que nós mulheres também estamos lutando para desconstruir.

A maternidade é exaustiva em qualquer fase e, cada vez mais, mulheres querem deixar essa marca bem clara à sociedade. Queremos ser vistas como mulheres reais, com questões reais. E só pelo reconhecimento deste papel desigual e desequilibrado é que chegaremos num lugar mais igualitário das relações. A igualdade e a equidade de gênero necessariamente passam pela maternidade – pela função materna dentro das relações.

Quer um exemplo bem óbvio? Na internet você encontra uma série de matérias que procuram ajudar ou dar dicas às mulheres de como elas podem conciliar vida profissional e materna, mas se você der uma busca pelo mesmo tema só que com homens/ pais sabe o que você encontra? “Como conciliar a paternidade com o SUCESSO profissional”.

A diferença pode ser sutil e quase imperceptível, mas ela é uma representação simbólica do lugar social que homens ocupam e mulheres não. Um deve conciliar, outro garantir sucesso. Mulheres quando se tornam mães precisam, primeiro, batalhar para garantir seu lugar no emprego para só depois ir em busca do sucesso, o que já a coloca numa posição inferior.

Segundo estudo da Fiocruz, 50% das mulheres perdem o emprego ao longo dos primeiros dois anos da criança. Quando ela consegue manter-se no trabalho, esta mesma mulher soma, em média 3h de trabalho doméstico em sua rotina diária se comparado a homens em atividades tanto da casa quanto com os filhos.

Dados da Oxfam mostram que o trabalho não remunerado realizado por mulheres representa US$ 10,8 tri por ano no mundo. E não para por aí, infelizmente. Depois de anos de batalha e conquistas, a pandemia colocou mais de 7 milhões de mulheres de volta ao trabalho doméstico.

Tivemos um retrocesso equivalente há 30 anos de conquistas de direitos femininos escoados pelo ralo. São 7 milhões de mulheres, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), que abandonaram trabalho e estudo para voltar para dentro de casa e cuidar de filhos e moradia. Lavar, passar, limpar, cozinhar. Como é que a gente comemora a maternidade sem olhar para este cenário que permanece nos dias de hoje sem um olhar crítico e consciente?

Como é que a gente tem coragem de perpetuar a romantização da maternidade numa sociedade que ainda vive num sistema desigual e cruel com a mulher? Impossível não cutucar o tema permanentemente. Impossível abster-se aos dados e a tamanha desigualdade em pleno 2022.

Foi-se o tempo em que o Dia das Mães era comemorado com flores. Foi-se o tempo em que maternidade era assunto apenas de revistas especializadas na pauta “mamãe e bebê” e que o tema era envelopado num por um grande laço de fitas.

Revistas, sites, blogs e perfis pessoais de mulheres que são mães têm sido cada vez mais ocupado por pautas que lutam pela desconstrução da romantização materna – e que bom para o movimento ter tantos outros canais e mulheres apoiando e reforçando um discurso que é imenso.

Porque as principais protagonistas, e interessadas, neste movimento somos justamente nós, mulheres que são mães. Com postagens no Instagram, canais de comunicação e redes de apoio, a gente tem juntado força para dizer ao mundo que, mais do que uma maternidade real, é preciso reconhecer uma mulher real por trás de um filho.

Numa entrevista ao site Hypeness, a escritora Giovana Madalosso declarou que “o Brasil idealiza e celebra a figura materna, mas, na hora do vamos ver, nem o governo, nem o patriarcado estendem a mão para a criação dos filhos; como se não fossem da sociedade, como se fossem só das mulheres. Toda mãe brasileira tem um quê de heroína e isso é tudo que não queremos mais”.

A jornalista Carol Pires, que recentemente lançou a newsletter Folga para falar sobre maternidade, junto das amigas Helen Ramos e Anielle Franco, declarou em uma postagem o quanto é enfurecedor observar o quanto as mulheres reclamam da sobrecarga física e mental.

“O homem-médio se diz inseguro de procurar os médicos dos filhos e marcar as consultas sozinhos. Se dizem desatentos para lembrar as datas das vacinas e a hora do remédio. Se sentem desajeitados para dar banho, cortar unhas, passar pomada, comprar roupa. Não lembram os nomes de todas as professoras, assistentes e coleguinhas. Se sentem muito cansados para chegar do trabalho e ter paciência com as birras dos filhos. Mas também se queixam de abandono da parceira – a mesma que está fazendo tudo isso enquanto seu corpo está em puerpério”, desabafa.

Criar um ser humano é um projeto coletivo ou, no mínimo, deveria ser duplo. Pelo menos duas pessoas deveriam estar igualmente implicadas nos cuidados físicos, mentais e emocionais do filho nas suas diferentes fases de crescimento e desenvolvimento.

A maternidade é exaustiva e quando a gente olha uma mãe com filho cansada é porque existe também uma mulher por detrás vivendo a mesma exaustão. É como se existissem duas camadas que precisam ser igualmente reconhecidas. Como diz a postagem da revista Tpm, “a mãe tá on e também exausta”. “Com pouco tempo para si mesma e se sentido culpado por não dar conta de tudo que a sociedade diz ser ideal”.

Fernanda Nascimento, diretora de redação da revista, reforça a necessidade de abrir espaço para falar sobre as questões maternas de maneira ampla e real. “A Tpm nasceu para quebrar esses discursos que eram repetidos pela mídia, não só sobre a maternidade. Isso era 2001 e as revistas femininas ainda falavam em ‘10 jeitos de prender um homem’ ou ‘deixar a barriga trincada’. As marcas avançaram bastante nesse sentido, mas a romantização da maternidade ainda aparece por trás das pautas”.

Em pautas de revistas, entrevistas de emprego, falas em rodas de amigos, encontros de família, ainda há muito o que desconstruir desta imagem materna culturalmente e socialmente enraizada. Não cabe mais no mundo, não cabe mais nos desejos das próprias mulheres e não cabe no que a gente chama de futuro.

Será que ficou claro por que é preciso desromantizar a maternidade?