A procura por respostas e manuais que possam solucionar problemas é sempre uma saída. Mas existem outras alternativas. Acredite! Entender o limite além do não, pode ser uma conquista a longo prazo para as birras

Limite Época de férias, mais tempo com os filhos e às vezes parece que cansa. Você fala mil vezes a mesma coisa e nada. Dai grita, se irrita e começa aquele ciclo maluco de tentar impor limites no meio de uma birra interminável. Não dá certo e você recorre aos livros e manuais de auto-ajuda. Parece até que a coisa toda é sinônimo de educar filhos. Logo vem os como “dizer não”, “isso não pode” ou “tá proibido”. Seu filho grita e não te obedece? Ele faz birra e você não sabe oque fazer? Se você procurar na internet, vai achar uma lista de dicas e instruções do que fazer e impor limites aos filhos. As sugestões acalmam e, muitas vezes, são necessárias sim, mas do que vale uma lista do “faça isso e faça assado”, se não entendermos o que tem por trás da palavra limite?

Entender o tamanho da palavra limite e onde vive seu significado é, de fato, uma conquista a longo prazo para quem educa. Originária de limes, em latim, significa “caminho entre dois campos, fronteira”. Sinônimo de marco ou marca e antônimo de imensidão. Porque limite é contorno, antes de ser uma proibição, antes de ser não. Impor limites significa impor contornos. É delimitar até onde o outro pode ir. Tem mais sinergia com amparo, de dar apoio. Sabe aquele abraço que a gente dá na criança pra conter a birra? Isso é limite.

Em palestra recente, na escola Rudolf Steiner, a médica dra Ana Paula Cury, sugere aos pais o ressignificar do limite pelo amor. “Estamos acostumados a nos relacionar com o limite pelo não pode ou isso é proibido, e existem outras expressões”, fala. “O útero é um deles, por exemplo. Limite tem a ver com algo que ainda precisa amadurecer para ganhar um pouco mais de espaço e ele pode ser muito necessário quando diz sobre esse amadurecimento”.

É o limite que dá continente e muitas vezes não fosse ele, estaríamos à deriva. “A gente precisa reconhecer, nos processos das crianças, onde e como cabem os limites”, sugere Ana Paula. “As pequenas tarefas, do dia a dia, preparam para as maiores. É salutar a criança ter em seu ambiente pequenas responsabilidades e tarefas”. Mais um olhar sobre o limite. Quando ele vem vestido de responsabilidade. Porque põe em movimento capacidades que estão ali, quase que maduras. É também um exercício da vontade, que fortalece o querer interno da criança. Não pela birra, não pelo ser voluntarioso, mas pelo saudável do que pode ser uma conquista.

“Os pais precisam bancar o não porque ele vai ser o sim lá na frente”. “É também um estabelecer de limites para a autoproteção”. Cabe aos pais reconhecer nos filhos o que eles são capazes para a idade que têm. Esse é outro contorno do limite. Como uma criança que ainda está descobrindo os limites do próprio corpo. Aprendendo sobre peso, balanço e equilíbrio. O quanto ela for capaz de subir sozinha numa árvore é tão sinônimo de autoconhecimento como sobre limites.

foto Gabriel Lehto

O que tem a ver com autoeducação – e que tem a ver com auto-observacão pra que a gente seja capaz de se redesenhar, ou ressignificar os sentidos e os limites. “Limite não pode por medo, ser sinônimo de castigo ou recompensa”. “Se a gente quer educar para uma moralidade que surja de dentro pra fora, precisamos suscitar essa bondade ao educar”. O que passa longe do castigo que tem a ver com agir pelo medo ou com a recompensa que tem a ver com alimentar o egoísmo. Limite como contenção e continente, pela emoção. Emo-ção – algo de fora que entra em ação. Sentinela entre o mundo de fora e o de dentro. Das coisas simples do educar de uma criança.

Algo que tem muito mais sentido se conectado com nossas emoções do que com dicas e manuais sobre maternidade. Tem a ver com a gente se reconectar com nossa canção interior e buscar aquilo que é único, que é singular. Não está nos livros, não está nos sites sobre parentalidade. Está lá dentro dos nossos próprios limites e contornos. Tá no abraço que a gente é capaz de dar na criança que a gente foi e no adulto que nos tornamos. Porque todo educar ao outro é auto-educação também. E isso nos coloca frente aos limites.