“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã…”

Que a vida não é a música do Chico Buarque a gente sabe e tá mais pra gosto de bafo acordando as 6h da manhã do que essa pasta de dente de hortelã. Nem sempre todo dia tudo igual, mas todo dia um dia por vez.

São 6h da manhã e o despertador toca. Finjo que não escuto. Toca de novo às 6h10. Ainda dá para segurar uns minutinhos. Pouco, mas dá. São 6h20. Estamos no limite já. “Lucas está na hora de levantar”. “Felipe não esquece que hoje é Ed. Física e precisa de uniforme”. “Pedro, dia de escola”. Lá se vão 20 minutos entre um quarto e outro, entre um chacoalhão e outro acordando os filhos. Nunca dá tempo de tomar café da manhã. Sim, meus filhos e eu, inclusive, saímos todos os dias sem tomar café da manhã. É preciso fazer escolhas e no caso, nossa preferência é pelos minutos a mais na cama.

Pit stop da escola. Descem. Numa reta só eu faço o caminho de volta em direção a Faculdade. Aos 43 do 2º tempo resolvi fazer uma nova graduação e lá estou eu cursando Pedagogia. De volta a sala de aula e todas as implicâncias positivas e negativas que ela traz. Mas a pessoa aqui em questão trabalha e entre uma aula e outra, uma fala e outra da professora, 50mil whatsapps pra responder, e-mails pra despachar, textos para escrever e postagens a fazer. São 20minutos prestando atenção na aula e outros 20 prestando atenção na vida fora dali.

A funcionária de casa escreve perguntando o que ela faz pro almoço. A moça do leva e traz das cachorras quer saber se pode pegá-las amanhã porque está parada num trânsito daqueles. A cliente quer saber se já pode ver o casting da campanha. A secretária do fulano quer confirmar a entrevista de hoje a tarde. Entra o whatsapp da professora de um dos filhos confirmando a reunião de pais à noite (aquela que você tem anotada, mas que esqueceu, obviamente). Tua mãe manda um “oi” toda fofa e um meme de corações na sequência. Tua mãe te fez lembrar que você precisa marcar cabeleireiro. Fazer as unhas não, imagina! Aprendi a pintar eu mesma. É para tingir os brancos mesmo. Mas cabeleireiro…quando?

11h30 a aula acabou. Dá tempo de passar na costureira. 12h30 já estou com o carro estacionado na rua da escola. Desço e vou caminhando até lá. Um momento de respiro. Celular fica no carro e vou escutando os passarinhos do bairro. Na volta para o carro, vou escutando os “meus passarinhos”. Esse é o privilégio de buscar filhos na escola.

Chegamos. Enquanto a garagem vai abrindo, a Jasmin vai aparecendo. É uma das cachorras, a Border. Está sempre ali, à espera. Na sequência, chega a Estrela, a Golden. Aquela empolgação de cachorro quando você chega em casa. Enquanto a funcionária coloca o almoço na mesa, dá tempo de fazer xixi. Almoço com tempo contado. Já são quase 2h da tarde. “Felipe, se troca, arruma a mochila que a gente tem que sair”. A frase parece sempre um estopim de uma guerra. Incrível o poder do “temos que sair” na vida de uma criança. E o menino em vez de pegar a escova de dente resolve pegar uma nerf. Literalmente, isso aqui virou um campo de batalha.

Deu o horário e entro no carro. Tem um filho escondido no porta-malas e outro no banco dianteiro. Páh-páh-páh-páh. Tipo metralhadora. Os caras estão dando tiro de bolinhas de espuma pra tudo quanto é lado. Whatsapp toca. “Carol você já está chegando? Estamos esperando você para a reunião”. Oi?! Chegando? Nem sai!!! “Chega!!!! Sai do meu carro agora que eu tô atrasada!!!”, berro. Isso, B-E-R-R-E-I.

No meio da reunião, ele, o whatsapp, de novo. “Carol, acabei o casting agora e te mandei o arquivo com os pré-aprovados. Consegue ver?” – a produtora. “Mãe, o carro não chegou ainda pra me pegar. O que eu faço?” – o filho do meio. “Carol, vim dar soro no Digo (gato), mas não estou achando-o. Sabe onde ele pode ter se escondido?” – a moça dos bichos. “Carol, lembra que hoje a noite eu viajo?” – o marido. “Boa tarde, podemos confirmar seu horário para amanhã as 18h?” – a secretária da dentista.

Está na hora da entrevista que você confirmou mais cedo. É a última das 11 que você fez no mês. Todas ao vivo, com direito a jornalismo à moda antiga: caderninho e caneta em punho. A matéria rendeu muitas noites, 13 páginas de texto corrido e mais de 40mil toques. Checked! Mais uma cumprida no dia.

São quase 19h e eu chego no clube esbaforida. Dava para fazer um meme. Chegar na natação é uma luta. Diária. Ainda, uma estafa mental, exclusiva das mulheres. Pura balela essa história de dia de princesa.

#diadeprincesa
#vidademãe