Crianças são sinceras, sempre dizem o que pensam. Mas, às vezes, criam estratégias para chamar atenção ou se livrarem da culpa e do medo. É aí que muitas vezes elas mentem. E como lidar? Apontar o dedo e dizer “você está mentindo” ou “o nariz cresce”, será que funcionam?

Até os 2 anos de idade a criança refere-se a si mesma pelo nome. Só a partir dos 3 anos é que ela começa a dizer “eu”, revelando um primeiro lampejo de autoconsciência. “Aprender a falar significa, de início, dizer exclusivamente a verdade”, conta Michaela Gloeckler, médica pediatra, no livro Consultório Pediátrico. Nos primeiros anos de vida, fantasia e realidade não se distanciam para a criança. Como quando eles brincam de mamãe e filhinha. A criança, daquele momento, acredita que ela é mãe e que tem idade suficiente para cuidar de um bebê. “Isso é muito saudável na vida dos pequenos e necessário. Os pais nunca devem interferir”, atesta o pediatra Dr Leonardo Posternak. Nesta fase é importante ressaltar que nem sempre a distorção verbal da realidade representa uma mentira. “Para mentir é preciso esconder um fato e criar outra versão não acontecida para obter vantagens materiais, afetivas ou de autoestima”, explica o psiquiatra Içami Tiba, autor do livro Educação Familiar Presente e Futuro (Integrare).

Crianças não mentem com a consciência de um adulto. Quando o fazem é para escapar de uma bronca, por medo de contar algo que fizeram, para não decepcionar os pais e também para chamar a atenção. “Os pais só precisam ficar atentos quando a criança contar algo mirabolante demais. Nesse caso, devem procurar saber mais, principalmente se envolver responsabilidades próprias ou comprometer outras crianças”, diz Tiba. Mas, o psiquiatra alerta: descoberta a mentira, cuidado com a reação. “Violências não curam mentiras, pelo contrário, aumentam o medo de serem descobertos.”
Outra situação em que a criança mente é quando deseja muito que algo seja realidade. Nesse sentido a mentira funciona como quando a criança pequena pega algo de alguém porque não agüenta não ter o objeto que quer. “Com o amadurecimento, após 3 ou 4 anos, tanto o roubo quanto a mentira passam a ter importância dentro do aspecto da diferenciação do certo e errado. Do ponto de vista cognitivo, a criança atinge a capacidade de fazer juízos morais e de sentir culpa”, explica o Dr. Leonardo. É nesse momento que os pais devem ensinar, com exemplos, acima de tudo, noções de cidadania e como conduzir nossas escolhas na vida. “Não é de um chefe de família bravo e autoritário que os filhos precisam, mas de alguém mais tranquilo, que lhes sirva de líder confiável, que os ame incondicionalmente, mas que também estabeleça noções sobre o que devem e podem, e o que não devem e não podem fazer”, aconselha Tiba.

Importante também ressaltar que as crianças aprendem por imitação e também com as referências do mundo ao seu redor. “A forma como os educadores (pais, professores, cuidadores) se comportam  e reagem em sua relação com a criança também é decisiva. Se entre nossos pensamentos, nossa fala e nossos atos não vigora uma retidão e coerência, o que estaremos plantando?”, questiona a educadora e médica Dra. Ana Paula Cury.

E o que fazer quando a criança é pega na mentira? “Em primeiro lugar, o adulto deve exprimir sua consternação pelo fato, mas também deve ter claro que, no fundo, a criança não quer que tenha sido ela – e quer sentir, pela reação do adulto, que ele sabe disso”, diz Ana Paula. Em outras palavras, ela quer que o adulto reconheça que ela não tinha essa intenção, estava explorando o objeto e não poderia antecipar essa consequência, para a qual não estava preparada. Dentro deste contexto os pais devem tentar mostrar pra criança que essa não é a melhor forma de agir e que ela tem consequências que não são boas. “E as consequências sempre devem estar ligada diretamente ao que a criança fez”, completa Ana Paula.

A mentira também tem um papel psicológico importante na formação e no desenvolvimento da criança. Sandra explica que por trás existe uma necessidade de se diferenciar do adulto e preservar seu próprio mundo, criativo, diferente da vida real e dos fatos. Isso significa que a criança tem necessidade de se diferenciar dos pais e do universo dos pais e, na paralela, tenta criar o seu próprio mundo. Inventam mesmo lugares, pessoas, casas, passeios… “É o momento em que a criança se descola do materno”, reforma Sandra.

É apenas a partir dos 7 anos, para a psicanálise, que a criança é capaz de distinguir a verdade da mentira, a diferença entre fantasiar, desejar e criar versões da realidade. Nessa idade, já podemos falar em mentira consciente, intencional. Nessa fase, ela diz que fez a lição não porque tem medo da bronca, mas por malandragem. Ela já sabe quais são as consequências e não tem mais medo, então pode até começar a se divertir com as mentirinhas. Fazer a lição da escola, tomar banho e jantar são clássicos da mentira nessa 2ª infância. “Faz parte da ruptura entre o mundo infantil, imaginário, e a entrada no mundo adulto, no real”, explica Ana Paula Cury. É o começo da queda do paraíso na infância, quando ela começa a se dar conta de que o mundo não é um mar de rosas. Antes disso, a criança não possui um pensar conceitual. “Sua vida de pensamentos claros é precedida por uma vida de fantasia e imaginação”, diz Ana Paula.

“Mentimos para agradar, seduzir, conquistar o outro a fazer o que queremos. Pais que conseguirem ensinar que a frustração faz parte da vida e que cada um é responsável pelo que faz, que as explicações não diminuem o erro, que a mentira, mesmo que alivie na hora traz complicações na hora que for descoberta, terão seus filhos menos mentirosos do mal”, diz Tiba. As “mentirinhas” sociais que evitam sofrimentos alheios desnecessários, são as do bem.  As crianças não nascem com o dom da mentira, mas aprendem com uma facilidade incrível, principalmente onde ela existe com fartura.