Elogiar é tão parte da educação de uma criança tanto quanto broncas e críticas, mas com o cotidiano tumultuado muitos esquecem de fazê-lo

Ele tem oito anos e tinha que pintar um ovo de Páscoa para a escola. O desenho era todo cheio de detalhes que precisavam ser coloridos. Inicialmente, o aluno optou por pintar algumas partes e não preencher todo o ovo. Mas a professora não gostou. “Ah! Mas precisa pintar tudo, tem que fazer direito”, ela falou.

Numa outra situação, este mesmo menino de oito anos, tirou uma flor do jardim pra decorar o prato do avô. A paisagista, mulher do avô, que estava por perto, assim que viu falou: “mas você arrancou o meu antúrio!!!”. O avô na hora, emendou: “ficou lindo meu prato”.

Ser humano cresce e esquece de carregar dentro um Manoel de Barros. De alguma maneira a gente se deixa atravessar por tanta dureza e realidade que perdemos a capacidade de olhar as miudezas e dai perdemos o elogio. É tanta regra pra seguir, tanta coisa pra dar conta, que o olhar busca a eficiência – não a boniteza. A vida vira essa coisa quase chata que lamentamos toda segunda-feira.

Elogiar uma criança é tão importante quanto ter que chamar atenção por algo. Mas entre tantas broncas e chamadas que a gente faz durante o dia, o elogio cai no abismo do esquecimento. Normalmente, se lembra de elogiar uma criança quando ela executa bem uma atividade na escola ou tira uma nota boa. Uma cultura tradicional e burocrática de se educar. O mérito é valorizado quando, de alguma forma, ele estabelece relação com desempenho e sucesso.

Uma criança que vai bem na escola é sinônimo de sucesso na vida profissional. Será? Será que a vida se resume aos lamentos da segunda-feira? O que mais faz a gente abrir um sorriso, soltar os braços ou dispensar o olhar sem querer nada em troca? Quando foi a última vez que você elogiou seu filho?

Pesquisando sobre a importância de elogiar uma criança, encontrei uma linha da neurociência que acredita que o elogio é importante porque ele afirma o sentido de recompensa pelo esforço empreendido e a criança aprende a dar valor as coisas. Eu discordo um milhão por cento. Absolutamente nada deveria ser ensinado pra que se tenha recompensas, pra que se ganhe algo em troca.

Elogiar é importante pro crescimento saudável do psicoemocional da criança, assim como do adolescente. Elogiar reforça a autoestima, colabora com o desenvolvimento das capacidades singulares, reafirma personalidade e identidade. Elogio faz bem! A gente aprende com os erros, mas aprende com os acertos também e pra isso precisamos fortalecê-los.

Tem uma linha da parentalidade chamada positiva e é aqui que entra o estímulo positivo como ferramenta importante para educar. Outra linha da neurociência diz que os estímulos são mais facilmente gravados na memória. Isso porque a criança tem a sensação de bem estar e ela quer que se repita.

A ciência tem alguns experimentos publicados que comprovam a teoria. Parte deles usa o mesmo princípio, mas com diferentes matérias-primas que, normalmente, são colocadas em potes de vidro por alguns dias. Um dos vidros recebe elogio e o outro críticas, broncas e até xingamentos. Os resultados demonstram preservação de cor e aparência do que recebe elogios e escurecimento do que recebe broncas.

Algumas escolas já fizeram uso da experiência para, não só trabalhar conceitos da própria ciência, como também para falar de empatia – o substantivo do século. Mas independente de qualquer comprovação científica ou teoria neurolinguística, o melhor termômetro ainda é aquele de quem educa, de quem está no dia a dia da criança.

Manoel de Barros falava que a infância é um território de liberdade e defendia o “criançamento” das palavras como uma forma de revolucionar a linguagem e fazer dela uma brincadeira. A poesia é uma “voz de fazer nascimentos” e talvez, nós adultos tenhamos que aprender a fazer nascer palavras que estavam no limbo.

Lembrei daquela poesia linda do Manoel, O Menino Que Carregava Água na Peneira. Talvez algo que nos falte. À gente que tem mania de carregar só as coisas concretas, que não escorrem, que não transpassam o olhar. Pra que a gente consiga “transver” os feitos das crianças e seja capaz de elogiar. Elogio faz bem. Um bem danado.