“Como que com 2 anos ele já sabe o que é a cadeia? Achei triste”, me falou Felipe depois de brincar de polícia e ladrão com um vizinho na praia. O menino quando teve o irmão pego e escutou a frase “você está preso” começou a chorar. Como criança pequena, levou a frase ao literal das letras. E como criança pequena também expressou algo que faz parte do seu contexto cotidiano. Sabe aquelas coisas que a gente diz: “ah, ele está só imitando o que acontece na vida dele”. É por aí.

Mia Couto, o escritor moçambicano que escreve feito poesia, num de seus livros de contos, escreveu assim: “Que valia ser criança se lhe faltava a infância? Se a vida aparece sempre adiada para outras idades. Criancice é como amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecer ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo”.

Inevitável um “ou seja” neste próximo parágrafo. O que ele quis dizer parece algo tão simples, mas é justamente nessa simplicidade que existe uma complexidade enorme. “Esse é o milagre que um filho oferece – nascermos em outras vidas”. E como é emaranhado de sentimentos e memórias esse ato de se doar ao outro em pura e plena entrega. Para poder viver e deixar que o outro também viva. É preciso se entregar a infância que parece já tão distante, para deixar que o filho viva a infância. Porque como escreveu Mia Couto: “os pais precisam ser filhos”. Precisam se permitir. Serem filhos, crianças, de igual para igual.

Criança que vive a infância, cresce forte e madura. Feito árvore. Feito planta. E para que isso aconteça é preciso de pais presentes. Fortes e maduros. É preciso de amor. Pais empoderados criam filhos empoderados de infância. A palavra apesar de estar na moda, é importante de ser usada. Garante protagonismo aos pais, o que garante futuro aos filhos. E não é exagero falar de futuro quando se fala de criança.

É preciso gostar de viver. “Faça de conta que é uma prenda, a vida”. Dos lugares secretos que a infância tem de viver. Criança sem infância não se vive. E é preciso de amor para se viver. De quem cuida. De quem olha. De quem está perto. De miúdos. De infância – no dicionário, um conjunto de crianças.