De olho num mercado de trabalho cada vez mais plural e diverso, cresce o número de jovens que saem do Ensino Médio e optam por faculdades fora do Brasil

Caminhamos para um mundo cada vez mais plural e diverso, que exige das pessoas habilidades e competências que talvez nem os departamentos de recursos humanos ainda saibam definir. As mudanças são mais velozes do que nunca. Sabe-se que os jovens viverão muito mais que seus pais (a expectativa de vida só aumenta), e que talvez trabalhem em mercados que ainda nem se formaram.

Aquele mundo programado, em linha reta, praticamente não existe mais. “Construir carreira” é um termo quase que antigo para essa geração. Eles buscam flexibilidade e o mercado exige deles resiliência frente aos desafios e empatia frente a diversidade. Precisam ser capazes de se adaptar a diferentes situações, de trabalhar com equipes cada vez mais plurais. Falarem diversas línguas, ter interesse em aprender e serem munidos de curiosidade.

A geração que supostamente vai salvar o mundo também busca experiências de trabalho que não são as mesmas que seus pais tiveram. Eles querem viver a experiência do trabalho, mas que isso não exige “morrerem” pelo trabalho. Querem ser ouvidos, ter mais flexibilidade, poder fazer outras coisas além do próprio trabalho e querem poder contribuir com o que trazem na mochila, ainda que possa parecer pouco.

E para que tudo isso dê certo, ou que realmente aconteça, é preciso se preparar. E se preparar para estes adolescentes que estão saindo do Ensino Médio, muitas vezes, significa optar por uma faculdade fora do Brasil. O número tem crescido nas classes médias e altas e a escolha vislumbra a entrada no mercado de trabalho que vem logo mais.

st Francis

Escolas internacionais chegam ao Brasil oferecendo o currículo IB a seus estudantes, o que abre portas para universidades fora do Brasil. Na foto, aluna do colégio St Francis

Para Roberta Monteiro, mãe de Fernando Delboni que está cursando o último ano de Engenharia da Poli – USP na Finlândia, “o curso de extensão completa o perfil do profissional que ele deseja se tornar, contempla o que ele deseja entregar para o mercado de trabalho”, diz.

“Acreditamos que só a faculdade aqui não basta, mesmo sendo USP, tem que ter a experiência e isso a faculdade fora traz muito forte. Tira da zona de conforto, mistura diversos estudantes de vários países, aprendendo a lidar com suas diferenças, com a saudades, com o dinheiro, com o tempo livre, a socializar. Ele já foi para tantos países vizinhos, foi sozinho, foi em dupla, ele está aprendendo a aprender o máximo possível”, completa.

Fernando, 22 anos, é um menino que vem da família classe média brasileira. Roberta é dona de uma unidade de Kumon e Marcelo, seu marido, trabalha com ela na empresa. Estudou até o 9ª. No colégio alemão Benjamin Constant, depois passou em 1º. lugar na prova do Objetivo Integrado, onde entrou como bolsista. De lá para a Poli já com o desejo de fazer o que as faculdades chamam de “sanduiche” que é cursar o último ano numa escola parceira em outro país.

Entre as cinco opções que aplicou – e foi aprovado – Fernando optou pela Finlândia “porque o país é uma referência em educação”, é o que ele contava quando as pessoas lhe o perguntavam por que, um outro diferencial que vai contar no seu currículo.

“O bônus está em saber que aqui ou fora ele já estará pronto para lidar com quase todas as adversidades. Estudar fora não é garantia de nada, mas é com certeza um avanço de anos na construção do ser humano”, completa Roberta.

A família dele é representativa da parcela dos 5,85% de alunos entrevistados para o estudo da Belta, Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio, que foram contemplados com bolsa de estudo. Dos 2837 ouvidos, 49% contaram com a família como fonte financeira em 2019, enquanto 61% fizeram poupança para a ocasião.

A mesma pesquisa, feita em 2020, revelou que 76% dos jovens estudaram em escolas privadas e cerca de 19% em escolas públicas. A faixa etária é outro dado curioso. Em primeiro lugar, o estudo mostrou que as pessoas que viajaram para o exterior tinham de 22 a 24 anos; em segundo lugar de 18 a 21 e em terceiro de 15 a 17 anos, nessa ordem. Os dados nos contam algumas coisas sobre estes jovens. A primeira é que muitas vezes eles ingressam no ensino superior no Brasil, enquanto aplicam para uma vaga fora, tentam uma transferência ou aplicam para o chamado “sanduiche”.

Outra leitura é de que eles têm ingressado com menos pressa na faculdade. Em dúvida do que cursar e que profissão seguir, alguns tiram um tempo ao final do Ensino Médio para viver experiências que ainda não tiveram oportunidade e isto inclui, inclusive, uma temporada de estágio profissional – algo que é exigência curricular de muita faculdade americana.

A ideia é vivenciar algo de que ainda não têm certeza se gostam para tomar a decisão com mais calma e maturidade. Na contramão da parcela que ingressa mais tarde, têm os adolescentes que ingressam no Ensino Médio totalmente focados em construir um currículo capaz de garantir uma vaga numa universidade no exterior e eles não sonham pequeno. Yale, David, Princeton, Cambridge, Duke e Caltech são algumas das escolhidas.

Segundo Alexandre Argente, Presidente da Belta e Diretor Geral da Travelmate Intercâmbio, qualquer especialização feita no exterior, mesmo que acompanhada de bolsas de estudo, exige um bom investimento. “Vejo maiores oportunidades para pessoas de classe média e alta, mas já encontramos no Brasil, organizações e projetos de governos estaduais que viabilizam programas de intercâmbio para quem tem menor poder aquisitivo,” conta.

Aulas preparatórias e Escolas Internacionais
Como resultado desse interesse, além dos cursos tradicionais como o inglês e espanhol, escolas especializadas em idiomas oferecem aulas preparatórias para os exames internacionais como o TOEFL, além do auxílio na língua estrangeira e até mesmo orientação vocacional.

Segundo Marcelo Dalpino, Gerente Acadêmico da Cultura Inglesa, as novas gerações, entre 14 e 21 anos, apresentam uma inclinação maior para aprender o inglês para fins de carreira. “Este é um dado recorrente em nossa unidade social em Paraisópolis, por exemplo, onde concedemos bolsas de estudos integrais para alunos da comunidade”, conta. Para ele, a opção universitária é, ainda, a via mais segura para qualificar o currículo e desenhar um plano sustentável de carreira.

“Isso é reflexo do momento histórico que vivemos com a economia globalizada e busca por oportunidades fora do país. Como educadores, entendemos que estamos formando agentes de transformação do mundo”.

“Ao ensinar uma segunda língua, preparamos uma pessoa para atravessar as fronteiras físicas e digitais (ou e-fronteiras) para entrar em contato com outros povos e realidades, e dessa forma, estabelecer relações e impactar comunidades, seja por meio do trabalho, dos estudos, da pesquisa ou de conexões afetivas,” explana.

Marcos Noll Barboza, CEO da Cultura Inglesa, compartilha que além do desejo de morar fora, muitos desses jovens estão interessados em estruturar um plano de carreira sólido para garantir um futuro promissor em suas vidas. Segundo o empresário, parte deles, inclusive, almeja voltar para o Brasil com um currículo mais robusto para encontrar oportunidades de trabalho dentro do seu próprio país.

Há um ano e três meses nos Estados Unidos, a ex-aluna da Cultura Inglesa, Thais Barros da Silva, 30, contou com a ajuda de um casal de amigos para realizar o sonho de morar e estudar fora.

Thais

Thais e a alegria de poder cursar uma universidade fora do país

Para a estudante de Ciências da Computação, no Raritan Valley Community College, “o estudo aqui é completamente diferente do Brasil”, conta. “Eles ensinam a gente a desenvolver alto grau de senso crítico, somos incentivados a ser autodidatas, a sair da zona educacional e buscar conhecimento fora do campus, além de empreender e saber trabalhar com finanças, independente da sua jornada profissional. Eles também incentivam muito a relação com o esporte e as pesquisas. O grande benefício é ter a experiência multicultural e aprender sobre hábitos, culturas e religiões de diversos lugares”, destaca Thaís.

Paula Mello da Rocha Azevedo, diretora vice-presidente do Instituto Inhotim, é mãe de três filhos que sempre estudaram em escola internacional e tiveram experiências de summer camps ao longo do percurso escolar. “Era uma maneira de vivenciarem a liberdade e a autonomia que eles não poderiam ter no Brasil, de conhecer um college durante as férias de junho/julho”, conta.

“O mais velho sempre quis estudar fora, desde muito pequeno. Ele nasceu ‘do mundo’ e São Paulo era uma cidade muito cruel. O meu filho do meio teve a mesma vivência na escola, mas decidiu ficar aqui e faz psicologia no Mackenzie. É feliz lá. Vai de metrô todos os dias e não quer saber de estudar fora. A caçula está indo em setembro. Sempre foi uma aluna fora de série e tem uma facilidade e uma grande curiosidade de se relacionar com diversas culturas. Já escolheu uma roomate da Turquia e elas vem se comunicando por mensagens há dias, buscando pontos em comum”, conta Paula.

Para ela e a família, o movimento sempre esteve muito mais próximo das experiências que morar fora propiciam do que na preocupação com o mercado de trabalho. “É uma forma de exercitar a autonomia e a liberdade como cidadão. Temos pra nós que o que essa geração quer é viver experiências, ter menos e experimentar mais. E assim tem sido. Quem sabe pra onde a vida vai levá-los? Espero que estejam abertos às oportunidades e que não tenham barreiras pré-concebidas. O mundo é pequeno pra eles hoje em dia”, fala.

Realmente, o mundo é pequeno para esses jovens. Viajar até a cidade grande era desejo da geração de seus avós e pais. Esta turma quer viajar pelo mundo. Quer viver o que o mundo oferece com toda intensidade que a idade lhes permite.

Para Caio Simas, coordenador de Ensino Médio e do currículo IB da escola Eleva, no Rio de Janeiro, a ideia de estudar fora é algo compartilhado entre as famílias e os jovens. “A nossa percepção é que este desejo pode ser explicado por alguns pontos, como o fascínio pelo novo, por buscar novas experiências e oportunidades, comum a todos nós”, diz.

“Na última década, podemos notar um aumento do desejo de estudar fora devido, entre outros fatores, ao maior acesso a informações e facilidade de comunicação, que a Internet e globalização proveram” diz. Com isto, a procura por escolas internacionais ou que oferecem o currículo IB aumentou significativamente.

“A metodologia coloca, de fato, o aluno como protagonista, desenvolvendo habilidades e soft skills fundamentais para o mercado de trabalho e um curso universitário, cujas habilidades são de pesquisa, pensamento crítico, habilidades socioemocionais e de self management. Trata-se de um currículo bilíngue, com conteúdos específicos sendo trabalhados na língua inglesa, o que permite uma adaptação mais fácil aos cursos universitários fora do Brasil”, explica.

Para Christina Karam, porta-voz do St. Francis College, o IB foi construído com a visão de criar um mundo melhor e mais pacífico, através de uma educação holística, que estimula o indivíduo a cuidar, pensar e refletir sobre o próximo e seus arredores,” diz. Segundo ela, ter a mente aberta e procurar sempre o balanço entre as coisas da vida é a forte filosofia do programa. “Dizemos às vezes que o IB é a “ONU” do setor educativo”.

Para Dr. Barry Hallinan, Senior Master and Director of University Guidance & Careers, da Escola St. Paul ‘s, “o diploma não é apenas sobre ensinar conteúdo aos alunos, mas dar a eles os valores essenciais e oportunidade para fazer escolhas em suas vidas”.

Alunos do curso IB da escola inglesa St. Paul’s durante aula na biblioteca

Crescimento de alunos que vão para fora do Brasil
Caio Simas, da Eleva, conta que nos últimos dois anos, a escola teve mais de 20 alunos aprovados em universidades internacionais, sendo 8 deles, nas top 15, da América do Norte, como: MIT, Dartmouth, Upenn e University of Toronto. “Temos um departamento de Counseling voltado para auxiliar nossos alunos em seus processos de escolha profissional, preparação para a universidade e criação de Projetos de Vida: o Eleva Pelo Mundo”, informa.

A partir do 9º ano, a escola conta com uma trilha de diversas ações, como workshops, painéis de carreira e visitas a universidades, que buscam oferecer cada vez mais ferramentas, oportunidades, informação e orientação para que o aluno se sinta seguro para fazer escolhas de forma autônoma e consciente. Ou seja, preparado para atingir seus objetivos acadêmicos e profissionais, seja no Brasil ou no exterior.

Já a porta-voz do St. Francis, revela que desde 2006, cerca de 150 alunos foram estudar no exterior e desses 150, 70 ainda estão cursando. “Nos últimos três anos, 47% dos nossos alunos foram dar continuidade aos estudos em universidades americanas, 20% foram para a Europa e 17% permaneceram no Brasil”, reforça Christina.

Na escola St. Paul ‘s, Dr. Barry comunica que anualmente, cerca de 80% dos alunos vão estudar em universidades fora do Brasil e acompanhar a trajetória e ajudá-los no direcionamento de acordo com suas proficiências e afinidades está no escopo das escolas internacionais. Caio Simas compartilha que há entre os alunos, as faculdades mais desejadas e reconhecidas pela sua excelência, como o MIT, Harvard, UCLA, Stanford, Oxford, Yale, Princeton, Berkeley, Columbia, mas que pela experiência deles, sempre existem outros pontos de vista.

“Trabalhamos com dois direcionamentos que são: ter sempre o plano A, B e C na manga e escolher a faculdade de acordo com o perfil do aluno, do curso que deseja e onde a exigência seja compatível com o seu esforço.

Christina Karam revela que as carreiras escolhidas também vêm mudando ao longo do tempo. “Hoje vemos muita busca por Gestão de Negócios, Design, Diversidade, PolíticasPúblicas, Produção Musical, Relações Internacionais, Moda e carreiras mais amplas e criativas,” diz.