É grande o número de adolescentes que procura intercâmbios para aprimorar a língua, mas o que poucos sabem é que a saudades vai junto na bagagem

Tem coisas que a gente vive e depois a gente parece, quase, esquecer. Não por falta de memória, mas por longitude na linha do tempo. Adolescência parece estar longe quando a gente vira adulto. O exercício de resgatá-la, ainda mais quando se tem filhos, passa a ser uma constante. Mas muito mais para entendê-los do que nos reviver.

Eu tinha 16 pra 17 anos e estava no começo do 2ª. colegial. Não sei de onde, mas tirei a ideia de fazer intercâmbio. Morar fora. Estudar inglês. Ninguém – absolutamente ninguém – do meu círculo de amigos planejava algo do gênero. E nem meus pais me disseram pra fazer. Sei lá de onde a coisa veio. E sei que a coisa foi.

Poucos meses depois, estava eu, minha irmã e meu primo embarcando para diferentes cidades, nos Estados Unidos. Sim, foi um pedaço grande da família. Despedida doída para os meus pais. As duas filhas indo de uma vez. Cada uma pra uma cidade. Cada uma pra uma casa. E a única coisa que sabíamos sobre as famílias que iriam nos hospedar, era o que vinha por fotos e cartas trocadas. E de lá, mandávamos notícias por cartas também.

Cartas. Elas têm uma possibilidade de escrita que eu adoro. Uma conversa com o tempo. Tempo como possibilidade de escuta, de reflexão. De pausa. Numa grandeza que só o papel e as palavras têm. Quase sempre um resgate de memória. Tenho caixas delas guardadas. Cartas contam sobre a gente. Numa combinação perfeita das palavras com o tempo vivido. Ou tempo impresso.

Mas agora eu troco mensagens de whatsapp. Minha sobrinha Stella está fazendo intercâmbio. Há alguns meses já. Naquele tempo final de adaptação. Quase já sem a saudades em primeiro plano. Ela já é capaz de ter a saudades guardada dentro de si. Quase em segundo plano.

Eu e Stella, minha sobrinha, em viagem recente, antes do intercâmbio

Eu e Stella, minha sobrinha, em viagem recente, antes do intercâmbio

Parece já ter esquecido a chegada, que foi dolorida. Como sempre é. O que a gente não sabe quando é adolescente é que a saudades vai junto na bagagem. Lembro de mim, deitada no chão do quarto, espiando por debaixo da porta o que acontecia na casa. Dava medo sair do quarto. Dava medo descobrir que eu estava num lugar que não era a minha casa e eu tinha zero intimidade com aquelas que seriam minha família pelos próximos meses. Dava um medo danado!

Stella chegou assim. Com medo do que não sabia e não teria respostas pelas próximas semanas. “Os primeiros dias foram meio difíceis! A saudade bate forte e aí o tempo não passa, mas estou torcendo pra essa semana ser ótima e passar voando!”, me contou via whats. “O segredo é eu entrar no ritmo. Quanto mais rápido isso acontecer, mais eu vou aproveitar”.

Isso mesmo Stella. Ritmo traz segurança. Ritmo e rotina. Essa dupla é imbatível. Traz conforto interno e traz sorriso. E você já descobriu que esse é um caminho. É só seguir agora. Rotina mudou minha relação com a escola, com os amigos que eu estava tentando fazer, com as aulas que eu tinha escolhido e com a saudades. Rotina ajuda a acolher. Abranda a solidão.

Sabe Teté, lembro exatamente dessa solidão. Passava pela janela do meu quarto. Aliás, aquela janela era uma vala de tanta solidão. A vista era a rodovia, a highway como chamam. Tinha uma pequena bancada baixa rente a minha janela, o que me permitia sentar e observar. A estrada de poucos carros, pouco movimento, me doía internamente. Eu sentia o meu vazio interno. Das pessoas que me faltavam. Até o dia em que decidi não sentar mais na janela. Eu fechava a cortina para não ver. Para não sentir. A gente precisa arrumar estratégias.

“Me inscrevi em track. Vamos ver se eu gosto. As aulas começam 3f. Estou torcendo porque se eu gostar vai ser bom para distrair a minha cabeça”, você me conta. Veja só, eu me matriculei em futebol, basquete, desenho de sombra e teatro. Todas na busca dessa distração para a cabeça. Terminei na natação e deu certo. Alguns momentos que eram vazios ganharam tempo de nadar e competir. Vai dar super certo! Só não se incomode se o track não der certo. Experimente outra aula.

Outra distração era ir ao mercado. Tinha um WallMart big e eu passava horas ali. Saia com uma caixa de sucrilhos, um leite e mais uma besteira. Mas gastava horas do meu tempo entre gôndolas. “Mas quando você ía no mercado, ía sozinha?”, você pergunta. Sim, Teté, sozinha. Não tenha medo e não se importe com isso. Você vai ver que o passeio é bom. “É porque, às vezes, quando tô mal fico pensando em dar uma volta na escola, só pra distrair sabe, mas aí fico com receio de sentir uma solidão e só piorar sabe”.

Às vezes dava solidão, Té. Dava mesmo. Eu olhava aquele lugar gigante, aquele gramado vazio e ficava com muitas saudades. Mas depois de um tempo, coloquei na minha cabeça que não ia mais chorar de saudades. Que estava ali pra aprender e conhecer uma cultura nova e que ia dar tudo certo. Aos poucos, as coisas foram melhorando. Eu escrevia bastante também pra me ajudar a melhorar a saudades. Era um jeito que eu tinha de colocar pra fora. Busca um jeito teu de colocar o q você sente pra fora. Às vezes, só de rabiscar um caderno ajuda a acalmar.

“Simm! Às vezes, quando dói muito, tento não pensar nos 5 meses que vou ficar aqui (porque senão piora), e tento pensar de mês em mês! Às vezes ajuda e às vezes não kkk. Mas esse primeiro mês é adaptação e eu tenho que experimentar coisas novas. Daqui a dois finais de semana vou passar com o primo do meu pai e daqui 3 semanas meus pais talvez venham”.

Isso! E pense também que no meio de tudo isso tem os amigos novos que você já começou a fazer. Logo isso cresce e ganha mais corpo no teu dia a dia por aí. E isso acontece tão rápido que daqui a poucas semanas você vai me contar sobre a saudades que ficou longe. Vai me dizer que está amando e que quer ficar mais tempo. Tenho certeza disso. Certeza.

“Oii Tia Caroll! A vida tá muitoo boaa aqui!!! Mil vezes melhor do que antes. Já tô bem adaptada. Às vezes da uma saudade ainda, mas isso acho que vai ser sempre né? kkkkk Tô super feliz e as pessoas são muito legais. Fiz uns amigos e eles são incríveis! Ainda tenho que ganhar bem mais intimidade com eles porque sou bem tímida no começo hahaha! De resto, tá dando tudo super certo, graças a deus! Comecei o vôlei também e hoje tive meu primeiro jogo. Ganhamossss! Fiquei super feliz e meu time é super legal. Às vezes, ainda sinto saudades das pessoas dai, da Valentina, da família (vocês), mas tá mil vezes melhor do que antes”.

Eu tinha certeza Stella. Certeza disso.