O título é nome de uma série de quatro capítulos produzida pelo diretor Cacau Rhoden (de “Nunca Me Sonharam”) e que faz muito sentido falar sobre. Pelo contexto educacional de nosso país e porque ontem dia 28, foi Dia da Educação. Merece nosso olhar e nosso tempo.

O terceiro episódio da série, que pode ser vista pela plataforma Videocamp, se chama “A invenção nossa de cada dia” e tem a criatividade tema. O olhar aborda o termo como uma competência que pode ser aprendida e cultivada nas escolas. E também valoriza a criatividade como meio para reinventar espaços escolares. Criatividade como algo inerente à educação e a transformação de sujeito. Criatividade como linguagem expressiva.

“Ideias vem da sua mente. Daquele lugar vazio, branco. Entediado. Lá por perto tem uma porta que você consegue sair daquele lugar. Não é o chão que eu inspiro. Eu olho uma árvore e penso: o que que mora numa árvore? E quem dorme e fica numa árvore?”. A fala é de uma menina que abre o episódio e nos faz pensar, logo de cara, como é importante e vital a gente ter ideias. Ideias não só para imaginar e brincar, mas para transformar. O lugar onde você vive, o mundo, e as próprias ideias – ou os conceitos que temos delas.

Rafael Galvão, diretor de Ensino do Instituto Federal do Paraná, de uma Escola Técnica de Jacarezinho, levanta um ponto essencial da visão engessada e velha que temos sobre as escolas técnicas. Pensamos nelas como lugar de tecnicista. “Aprenda apertar o botão, aprenda a apertar um parafuso, mas não pense sobre o parafuso e não pense porque você está apertando aquele parafuso”. E está aí, neste exemplo simples de um parafuso a mudança que é preciso fazer na educação. Interessa ao aluno, à aquela pessoa que está ali para aprender, não só o fazer com as mãos, mas o pensar sobre o que se faz também. É preciso questionar, trazer os porquês, os pensamentos, as dúvidas. E isso não fala de formação de sujeitos questionadores, mas pensantes, curiosos e provocadores. Precisamos não só de disciplinas que formam uma grade curricular, mas sim de conteúdos que transbordem. Pra que aprendizado deixe de ser algo engessado, preso (grade curricular) e passe a ser uma possibilidade de construção de caminhos (curriculum, do latim caminho).

“Esse terceiro episódio traz à tona a capacidade dos estudantes de se expressarem por meio de diferentes linguagens e de criarem soluções para os problemas identificados nos mais diversos cenários e realidades. Para tanto, é preciso que se valorize a autoria e a autonomia de crianças e jovens”, ressalta Raquel Franzim, cocoordenadora do programa Escolas Transformadoras (correalizado no Brasil pela Ashoka e Instituto Alana) e coordenadora da área de educação do Instituto Alana.

E é difícil pacas formar sujeitos por suas competências e não pelos livros didáticos, pelas matérias na lousa ou aquela avalanche de provas. E não é papo de educador isso, muito menos de jornalista. Crianças e adolescentes que vivem uma educação com maior protagonismo conseguem perceber a diferença que isso faz, não só no estar na escola, como fora dela. “Não adianta nada você se atolar em livros, em conceitos e você não lembrar que você é ser humano, uma bolinha cheia de sentimentos e que precisa trabalhar essa área também”, conta a estudante Ana Julia Sasdelli.

“O menino que chega aqui todo dia está recriando a vida dele, está reinventando uma possibilidade de vida de uma família que vive com R$300 por mês de auxílio que recebe da educação”, fala emocionado o professor de Ciências Humanas, Hugo Correa. “Pergunta pra ele o que é criatividade pra viver”. Ao mesmo tempo que a educação consegue discutir o mundo, ir para o mundo é um desafio muito grande. Tão perto e tão longe de tantos conceitos e desejos que é preciso transcender. Não só muros das escolas, mas amarras da educação e os pré-conceitos.

E criatividade ajuda. Ajuda a encontrar meios de falar, de resolver problemas, de tocar em questões que são tabus, de ajudar os alunos a encontrar soluções. Isso é criativo no educar. É uma educação viva. Que exige capacidade de olhar os conteúdos por todos os ângulos e perspectivas. Pela diversidade. Porque não existe um único jeito de aprender. Existem jeitos. Existem formas. E isso é uma forma de dar vazão a diferentes olhares criativos de uma mesma solução. É diversidade de ideias, de soluções. De olhares. São escolas que ainda – ainda – não têm modelos a seguir. “Então a criatividade e a inovação têm sido a marca desse nosso modelo”, diz o diretor Elton Lopes, da escola pública Prece, no município de Pentecostes, Ceará.

Lançada no segundo semestre de 2018, “Corações e mentes” percorre o Brasil para mostrar ações realizadas por oito escolas que repensaram seus processos de ensino e aprendizagem, abrindo espaço para novas formas de educar. Além da criatividade, os outros episódios abordam a importância da empatia, do trabalho em equipe e do protagonismo nas práticas de escolas públicas, comunitárias e particulares do Amazonas, Bahia, Ceará, Paraná, Pernambuco e São Paulo.

Temas que são palavras quase que “na moda” da boca do que chamamos de educação inovadora. Mas não de forma pejorativa. De forma construtiva e que deve ser incentivada e valorizada. Não por nada elas estão lá na BNCC: empatia, criatividade, protagonismo e outras. São 10 no total e elas têm por objetivo uma garantia mínima de um desenvolvimento além do intelectual, mas que é social, físico, emocional e cultural – compreendidos como dimensões fundamentais para a perspectiva de uma educação integral.

É uma desconstrução e reconstrução. Não só das escolas, como dos professores, alunos e famílias. Para que as diferenças e diversidades sejam respeitadas e escutadas. Às diferentes formas de ser, compreender e fazer. Afinal, o que é educar? “Muita gente acha que é só aprender e seguir ordens. Só que acho que não é assim que a gente muda uma sociedade tão individualista”, conta o aluno Guilherme da Silva, aluno da escola Viver, em Cotia. Precisa ser ser-humano. Para estar presente na vida agora e não no futuro. Futuro é feito de presente. E a gente quer essas cabeças no nosso mundo. Corações e mentes e escolas que transformam. Aqui. No Brasil.

Que a educação seja um grito de transformação.

#escolastransformadoras