Crianças impacientes que, cada vez menos, sabem esperar. Pais impacientes que, cada vez mais, buscam soluções nas “10 dicas milagrosas do que fazer”. Ah, mas se fosse tão fácil quanto seguir receita de bolo, educar seria barbada

O Google tem 27 milhões de páginas de resultados para o título acima. O desespero com a impaciência dos filhos – das crianças, no geral – é tamanho que as mídias segmentadas abordam o tema por diversas vezes. Os pais, também impacientes e cansados, recorrem as “dicas milagrosas de como controlar os filhos”. Ah, mas se fosse tão fácil quanto seguir receita de bolo, não é?

Educar dá trabalho e antes de pensar no que ou como fazer, é preciso entender o que existe por trás de tanta impaciência. Impaciência que, na grande maioria das vezes, vira chilique, birra, vira aquela criança chata e mal educada que se joga no chão dos lugares quando quer alguma coisa.

Para refletir: o quanto é responsabilidade do adulto a impaciência das crianças? Você suporta, aguenta firme, um descontrole do seu filho quando ele diz que quer alguma coisa e você diz que não tem? A pergunta está direcionada à uma criança pequena, mas e quando o adolescente enfrenta dizendo que não vai parar de mexer no celular, por exemplo?

De alguma maneira, temos ensinado crianças e adolescentes que as conquistas não levam tempo. Que basta querer, bater o pé uma, duas vezes, e pirlimpimpim, a tal coisa se materializa na sua frente. Famílias gastam o dinheiro que não têm para satisfazer o desejo do filho. E isso não teria problema algum se fosse esporádico.

Mas quando satisfazer os desejos dos filhos, ou as vontades, entra para a rotina, temos um problema sério pela frente. Porque não é só o material que está em jogo, mas a conquista de algo, o querer que te faz desistir de outros “quereres” para ter só aquele. Algo que leva tempo, que demanda paciência. Espera.

Numa sociedade em que a ferramenta de conversa on-line lança a possibilidade de acelerar os áudios e correr com os diálogos, fica claro que andamos com pressa. Se não existisse a demanda, não existiria o serviço e mesmo se quisermos acreditar no contrário, que eles lançaram algo que nem sabíamos que precisávamos, a partir do momento que incorporamos ao cotidiano é porque estamos realmente acelerados. E quem tem necessidade de ir cada vez mais rápido, pouco tem de paciência. De espera.

E fico aqui pensando nas necessidades do mundo. Seria lindo se nós pudéssemos ensinar crianças e adolescentes que é preciso esperar. Que existe valor na espera, no tempo que se preenche de vazios e que exige da gente ser paciente. Já parou para pensar que esta mesma palavra é usada para denominar a pessoa enferma?

Espera tem a ver com tempo, com observação, com saber estar presente num determinado momento. Tem a ver com presença e pra que isto ocorra, de maneira genuína e verdadeira, a gente não pode contar com os desvios da tecnologia ou os subterfúgios do mundo virtual. Proporcionamos poucos momentos “vazios” para os filhos nos dias de hoje. Certamente porque também vivemos um cotidiano de poucos vazios. Tudo agora tem a opção de colocar em time lapse.

Foi-se a câmera lenta. É preciso acelerar para dar conta de caber no dia, para dar conta da entrega, para responder às demandas. Mas será que a vida só se preenche de entregas burocráticas? O que mais cabe para além das listas diárias de afazeres? A vida precisa de espaços vazios. De silêncios e essa tecla não é nova. Sabemos disto e temos discutido o assunto incansavelmente na pandemia.

Mas confesso que quando vejo uma família com criança pequena numa mesa de restaurante, 90% das vezes eu perco as esperanças. E isto não é uma crítica, mas é um desabafo. Por que, e pra quê, se coloca um ipad em frente à criança enquanto ela espera?

Mal dá tempo dela se ajeitar na cadeira e já tem um adulto na frente, posicionando o aparelho e ligando no canal de desenhos que ela mais gosta. A criança não precisou nem pedir – nem pedir. Vocês têm ideia do que é entregar um brigadeiro à uma criança sem que ela tenha vontade? Ou sem que ela tenha tido a oportunidade de experimentar outras coisas que também estavam sobre a mesa?

A espera é vivida através da não espera, ou do encurtamento ao máximo deste tempo. Pais não se sentam mais à mesa sem que antes já liguem o desenho para a criança. Empanturram os filhos de movimentos paralisantes em nome da paz. Suposta paz. Suposta espera.

Muitas vezes colocam o iPad dentro do prato. Simbolicamente, estão trocando os alimentos. Alimentar uma criança com comida é alimentá-la com amor e de amor. Alimentá-la com imagens e sons de iPad é alimentá-las de impaciência, irritabilidade, falta de respeito, falta de diálogo, de interação e principalmente, falta de tédio.

Porque pode ser extremamente tedioso ficar à mesa “sem fazer nada” esperando a comida chegar. Mas é nessa espera que aprendemos a transformar tédio em algo maior como uma conversa, um desenho, um jogo. É quando aprendemos a transformar impaciência em paciência.

E não para por aí. Existe um termo designado pelo psicólogo romeno Marius Zamfir que dá nome a essa apatia – e impaciência – das crianças causada pelo excesso de tela. É o autismo virtual. São crianças que apresentam sintomas que se aproximam daqueles associados ao quadro em si, mas que têm origem no uso da tela de maneira quase que ininterrupta.

Os sintomas comuns são o isolamento social, quando a criança começa a anular as coisas que estão ao seu redor, prejuízo na fala e a dificuldade de mudar a rotina. E dai experimenta tirar o Ipad da frente dela pra você ver o que acontece. Um escândalo.

Esperar é verbo e vem de “esperança” que significa contar com – confiar em. Quando a criança espera e tem os pais ao lado reafirmando a necessidade da espera, ela ganha confiança. Força. Não só para enfrentar aquele momento que gera um profundo desconforto, como tantos outros ao longo da vida. A criança se fortalece e fortalece também a sua própria vontade. O querer.

Para a antroposofia, um dos princípios que norteiam o ser humano no cotidiano é o querer, a ação volitiva, que se relaciona com os sistemas metabólico e motor, e se realiza num estado de inconsciência, ou vigília dormente. Isso porque não temos consciência alguma sobre o funcionamento de nosso metabolismo e de nossos movimentos, necessários para realizar nossas ações. Do ponto de vista temporal, relaciona-se com o futuro, o que queremos vir a realizar e pra isto é preciso espera.

Ah, a espera…. Que lindo seria se pudéssemos ensinar às nossas crianças que é preciso esperar as pessoas saírem do elevador antes de entrarmos, que é preciso esperar os que estão à nossa frente. Que é preciso esperar todos terminarem de comer para poder se levantar, que conquista leva tempo e exige fazer escolhas.

Que é preciso aprender a esperar para respeitar o próximo, para convivermos, minimamente, melhor num mundo onde não existe mais o outro porque o “eu” é tão imediatista que se eu não suprir minhas vontades neste exato momento, eu morro de impaciência.

Na contramão de tudo que o mundo precisa, ensinamos que a conquista é rápida e fácil. Que, às vezes, basta um grito, um chilique que tá ali, na mão. Só que ganhar de mão beijada não tem graça. Porque não tem conquista e logo enjoa, logo se quer outra coisa e o ciclo da insatisfação começa a rodar num looping violento.

Desculpem a frase feita, mas é isso mesmo: crianças que aprendem a esperar, aprendem a viver de maneira mais respeitosa e colaborativa em sociedade. Porque sabem viver como parte dela e não no centro dela.

Educar dá trabalho e se fosse fácil como receita de bolo, a vida seria uma barbada. Não é e é preciso muita paciência para as incontáveis esperas. Te acalma.