Seis adolescentes negros contam como se sentem ao frequentar escolas particulares da capital paulistana onde 90% dos alunos são brancos

Última sexta, dia 20, Dia da Consciência Negra e a recorrência da violência contra o negro e o racismo estrutural que persiste em nossa cultura nos faz um aceno, novamente. Como bem disse Joice Berth em sua rede social, a busca deveria ser por uma consciência mais humana, fazendo referência ao professor e geógrafo, Milton Santos. Porque “a consciência nacional é menos humana enquanto não sanar a ferida aberta do colorismo, enquanto não estancar os efeitos da pobreza, enquanto não expurgar a rejeição (in)consciente que produz uma resistência à presença da consciência negra como um dos pilares de formação da nossa sociedade”. E como a gente provoca essa consciência mais humana?

Em julho deste ano, um coletivo de pais de escolas particulares veio a público contar sobre um movimento que estava nascendo, o Escolas Antirracistas. A ideia, naquele momento, era mobilizar o maior número possível de famílias para a questão. “Quem são os negros da escola do teu filho?”, perguntavam integrantes do movimento a fim de provocar a reflexão entre as famílias.

Negros em escolas particulares são a minoria. Negros na alta classe brasileira são a minoria. Negros em cargos de poder são minoria. E ainda que o Brasil tenha mais de 50% da sua população autodeclarada negra, parece que o lugar que a maioria ocupa é exatamente onde muitos não querem estar: nas estatísticas de homicídio, assassinato, encarceramento, pobreza, violência e por aí vai.

Movimentos crescentes, coletivos de negros e a mídia cada vez mais atenta têm ajudado a população a reformular suas perguntas, além de refletir sobre o papel fundamental para uma mudança. E cada vez mais, brancos têm se perguntado ‘como faz para mudar’? Como faz para que negros ocupem outros lugares na sociedade? Inclusive dentro das escolas.

Numa tentativa de responder a essas questões, um grupo de pais lançou há poucas semanas, junto à Escola Vera Cruz, o Projeto Travessias, resultado de mais de um ano de conversa e articulação com o corpo gestor. “O racismo ser estrutural não pode justificar a apatia pessoal de cada sujeito. O racismo estrutural não é uma entidade abstrata: somos nós quem formamos as estruturas e temos que desconstruir nosso racismo pessoal antes de qualquer coisa para que as estruturas passem a ser formadas por sujeitos não racistas (nós mesmos) e consequentemente tornem-se estruturas não racializadas”, fala Tatiana Nascimento, uma das idealizadoras do projeto e a frente do mesmo.

Uma das primeiras ações do Projeto é a abertura de um edital para bolsas de alunos negros, pardos e indígenas. Com foco na equidade racial, estão sendo oferecidas 18 vagas para 2021 com ingresso no G5 da Educação Infantil. O projeto não se restringe à concessão de bolsas, embora comece com esta medida. “Fizemos 6 eventos de sensibilização que reuniram nomes do movimento negro como Clélia Rosa, Sueli Carneiro e Luiz Carlos Santos”, conta Tatiana. “A escola contratou uma consultora que é uma historiadora negra e que vem trabalhando na capacitação dos professores com olhar muito atento ao currículo e trabalhando na formação de uma pedagogia antirracista. Além de uma especialista para selecionar cuidadosamente as crianças que farão parte da escola, elaborando um plano de integração delas e das famílias. Além da prioridade na contratação de professores e gestores negros”, reforça.

A seleção de quem serão essas crianças e o processo de integração não só delas, mas também de suas famílias é um dos pontos cuidadosos na etapa de bolsas. A questão da inclusão responsável das crianças tem mobilizado escola, projeto e comunidade escolar. E uma das reflexões cruciais a se fazer, é pensar em como essa criança nessa se sentem num ambiente de pouquíssima representatividade. Como é estar dentro da pele negra em uma escola majoritariamente de brancos?

Conversamos com seis adolescentes para saber deles como é ser negro nas escolas particulares da capital paulistana e o que eles pensam sobre os programas de bolsa, que buscam a inclusão de negros.

Raquel Liberman Lopes, 18 anos, ex-aluna Escola Vera Cruz
“Fui adotada com meses e fui introduzida na classe média alta (lugar que originalmente não me pertencia) e, portanto, convivi minha vida toda com brancos. Demorei 15 anos para me entender como negra e isso só aconteceu a partir do meu primeiro contato com professores negros. Ser negro dentro de uma escola majoritariamente de brancos é “não ser negro”.

O medo de ser diferente sempre conviveu comigo, então desde pequena busquei ficar o mais parecida possível com minhas amigas. Eu lembro que colocava saia na cabeça porque me remetia ao cabelo liso. Era uma busca incessante pela branquitude. Ser uma das únicas alunas negras da minha escola me mostrou o quão forte eu posso ser, e ao mesmo tempo, como posso transformar o meu redor com essa potência. Vestir a pele negra no ambiente branco pode ser muito solitário. Sinto muito a falta de colegas parecidos comigo, que ao invés de escutarem e ficarem sentidos com minha dor, saibam o que eu passo e compartilham das mesmas vivências.

Acredito que bolsas integrais para alunos negros são de extrema importância e também um movimento muito bom para aumentar a diversidade e diminuir a desigualdade racial futuramente. Mas precisa de todo cuidado porque não adianta criar bolsas e simplesmente introduzir estes novos alunos às escolas privadas. Haverá um impacto, medo e insegurança em abraçar as mudanças. Devemos desenvolver meios de ajustar os alunos pretos e pretas de forma com que eles se sintam confortáveis e bem recebidos nesses novos espaços, sendo tanto na escola, quanto em ambientes fora como shoppings e festas”.

Raquel, ex-aluna da Escola Vera Cruz

Raquel, ex-aluna da Escola Vera Cruz

Luís Fernando Souza Dória, 15 anos, Colégio Santa Cruz
“Os negros que trabalham na minha escola são funcionários de limpeza, cantina, segurança e tenho pouquíssimos colegas de classe. Nunca tive um professor negro. Mesmo os professores abordando o racismo, sinto que muitas vezes estão despreparados e não despertam o interesse dos alunos. Sou capaz de apostar que, caso feita uma pesquisa, a maioria dos alunos não tem ideia sobre o que aconteceu em Palmares. Digo isto para reforçar que os conteúdos sobre a história dos negros precisam ser melhor abordados.

As pessoas que vejo tratando sobre o assunto sempre são brancas, o que me incomoda bastante. Ultimamente, tenho me aproximado mais da cultura negra, músicos negros e de debates antirracistas e isso me dá força para criar a minha identidade como jovem negro. Conversamos em família sobre o porquê de estar neste ambiente. E tenho tido boas surpresas em relação à alguns colegas, geralmente vindos de famílias brancas que não são racistas e a convivência tem sido bem respeitosa. Arrisco dizer que a maioria dos alunos da minha escola não tem amigos negros, não frequentam ambientes com negros e pensam muito menos do que deveriam sobre a sua bolha racial e seus consequentes privilégios. Gostaria de um ambiente acadêmico com uma maior diversidade.

Lembro de quando um colega em uma aula de Educação Física me chamou de ‘preto fudido’. Imediatamente, com apoio de muitos outros alunos, reclamamos para a Coordenação que me deu todo apoio. Passado o episódio, a família quis pedir desculpas. Não aceitei. Não estava disposto a diminuir culpa de racista. A potência está em aprender a não se submeter. É um exercício diário. Quanto mais nos reconhecemos como negro (ainda que eu tenha muitos privilégios), somos capazes de nos fortalecer para o enorme trabalho que temos pela frente.

Na minha escola há um grupo de pais que está lutando por uma política de cotas. A discussão está avançada, embora pense que não será fácil. Será que os brancos acham que os negros merecem mesmo ter uma escolaridade de qualidade, completamente gratuita? A escola estaria preparada para receber além dos alunos, mas também as famílias e os saberes de sua cultura? Quero mais negros ocupando as escolas, a cidade”.

Luís, aluno do Colégio Santa Cruz

Luís, aluno do Colégio Santa Cruz

Isabela Medeiros Rodrigues, 19 anos, ex-aluna Colégio Miranda
“Estudei toda minha vida em escolas particulares e acontecia o mesmo fenômeno: a falta de reconhecimento do problema estrutural do racismo. Desde o início, sofri uma perda de certa identidade diante das diferenças fenotípicas. Isso ocorreu por meio das minhas características físicas, como o cabelo cacheado. Me sentia na obrigação de tentar me encaixar nos padrões deixando-o sem muito volume ou até mesmo “mais liso”, o que fazia com que eu não aceitasse a sua condição natural.

Esses problemas estruturais ficaram cegos diante dos meus olhos durante todo o período. Muitas vezes, também me questionei sobre quem eu realmente era e como deveria avaliar o meu tom de pele. O que mais me chocava era chegar em alguns locais e algumas pessoas comentarem: “nossa, como você é uma morena bonita”, “o seu tom de pele é muito lindo”. Não entendia o porquê desses comentários. Hoje vejo que as pessoas estavam tentando demonstrar menos estranhamento diante do racismo que elas têm enraizado em si. Vestir uma pele negra é a tentativa, constante, de tentar ser aceito socialmente.

A tentativa de oferecer bolsas integrais para estudantes negros seria uma ótima oportunidade para diminuir as desigualdades sociais e aumentar a inclusão, assim como seria uma forma de reparação de danos histórica herdada da escravidão. No entanto, para que isso ocorra de maneira justa, os alunos negros precisarão aprender com os brancos e vice-versa, para que juntos lutem para o fim dessa segregação injusta”.

Isabela, ex-aluna da Escola Vera Cruz

Isabela, ex-aluna da Escola Vera Cruz

Giovanna Souza de Freitas, 16 anos, Colégio Santa Cruz
“Ser negro em uma escola particular e predominantemente branca, apesar de ser um avanço, significa a imensa desigualdade racial no país. Não é um símbolo de poder, afinal, de que adianta um negro bem-sucedido enquanto vários outros estão na miséria? É apenas um oprimido tornando-se um opressor.

Mas dar um ensino de qualidade para alguém vulnerável na sociedade é de profunda importância para mudar a realidade atual. A educação é um dos grandes pilares para melhorar a vida de todos. Ações atuais que vem promovendo a equidade racial, como a oferta de bolsas integrais para alunos negros em escolas particulares, é uma atitude ativa para mudar as condições de vida atuais dos negros.

Acredito que os jovens negros, ao ingressarem uma escola particular, devam ter um psicológico preparado para lidar com possíveis situações desagradáveis, além de possuírem a força de vontade para trazerem outras perspectivas aos alunos, em sua maioria brancos. A esses alunos, peço que abram a mente para o que os bolsistas têm a dizer. Ainda que tenham certa consciência dos preconceitos e a marginalização do povo negro e periférico, vocês possuem apenas um conhecimento teórico, e o que nós temos a dizer vai além do que é teórico. É realidade”.

Gigi, aluna do Colégio Santa Cruz

Gigi, aluna do Colégio Santa Cruz

Nicolas Fernandes Leite, 15 anos, aluno do Colégio Anglo 21
“Tenho ânsia de aprender e já fui muito julgado porque gosto de matérias que os “brancos” julgavam mais difíceis. Já passei por escolas muito diferentes, mas nunca deixei o racismo me coagir e sempre segui em frente sabendo que não existe limite para o quão longe eu possa ir.

Acho que vestir a pele negra é algo que muitos sabem superficialmente, mas poucos querem saber realmente. Para muitos negros é um fardo. Ter que se dizer negro na pele negra é o primeiro desafio a ser encarado. E é preciso se identificar como negro antes de saber o que realmente é viver nessa pele e isso não é algo que um branco poderá vir a entender. Uma coisa que poucas pessoas sabem é que por trás do medo, criamos cada vez mais coragem porque é daí que temos que tirar forças para pensar que o ‘quadro da cena’ um dia vai ser nosso.

Oferecer bolsas integrais a alunos negros em escolas particulares é obrigatório para que todos possam ter qualidade no estudo. No entanto, há outros fatores limitadores da entrada e permanência, como, por exemplo, o pagar para comer (já que muitas crianças vão para a escola pública também para comer), não ter tanto tempo para estudar, pois precisa trabalhar para ajudar a família etc. Na verdade, para que realmente existisse uma equidade racial, pelo menos em questão de estudos, seria muito importante que as escolas públicas tivessem um bom ensino para que todos pudessem desfrutar de uma boa escola”.

Nicolas, aluno do colégio Anglo 21

Nicolas, aluno do colégio Anglo 21

Daniela Maciel, 18 anos, ex-aluna da Escola Vera Cruz
“Praticamente minha vida toda estudei em uma escola majoritariamente composta por alunos e funcionários brancos. Estar imerso neste meio desde muito nova, acaba te fechando os olhos e tudo se torna muito natural, até mesmo o racismo velado. Inicialmente as diferenças podem até se mostrarem “invisíveis”, mas com o passar do tempo elas se mostram cada vez maiores, sejam nos traços fenotípicos ou até mesmo na maneira como te reconhecem. O maior problema começa aí. A vontade de ser igual aos demais e a falta de representatividade te faz mudar coisas e perder sua verdadeira identidade.

Os projetos de bolsa de estudo é algo extremamente importante como forma de diminuir uma das disparidades entre negros e brancos, que é o acesso à educação de qualidade, podendo, também no futuro, diminuir outras desigualdades, como melhores colocações no mercado de trabalho. Mas para serem realmente eficazes não podem parar apenas nas bolsas de estudo e simplesmente colocar o aluno dentro da escola. É preciso uma preparação. É preciso mais professores e funcionários negros desde a Educação Infantil”.

Daniela, ex-aluna do Vera Cruz

Daniela, ex-aluna do Vera Cruz

João Gilberto Dias de Jesus, 16 anos, Colégio Oswald de Andrade
“A minha presença na escola mostra para meus colegas um pouco da diversidade cultural do país. Felizmente meus pais podem me manter na Escola, mas com certeza para tornar uma potência deveria dar oportunidades a outros negros através de programas de inclusão.

Me choca ver jovens negros abordados pela polícia. Sempre penso que pode estar ocorrendo uma injustiça e sei que pode acontecer comigo também. O Brasil é um país muito preconceituoso e temos que lutar para mudar o sistema. As bolsas nas escolas particulares são muito importantes para corrigir uma dívida que é histórica. Mas os alunos negros terão que superar, não somente a questão racial, mas também a financeira e social. E os alunos brancos deverão entender como uma correção histórica, precisarão entender a realidade do outro e fazer o possível para que todos se sintam parte do grupo”.

João, aluno do Oswald de Andrade

João, aluno do Oswald de Andrade