Com medo de contaminação, alguns pais têm proibido filhos de circular entre casas e entre acordas e desacordos, a pandemia tem sido palco de reflexão da guarda

Divorciada, mãe de uma menina de 5 anos, Gabriela, que pediu para ter o nome trocado, tem a guarda da filha com o ex-marido. Segundo acordo judicial, a cada 15 dias a criança vai para casa do pai, mas com a pandemia Gabriela preferiu suspender o combinado por conta da exposição que a filha poderia vir a sofrer na casa do pai. “Minha filha tem 5 anos, moro com meus pais que são idosos e estamos nos cuidando ao máximo. Trabalho em home office, pedimos tudo por aplicativo, só saímos em caso de extrema necessidade. Já meu ex-marido, trabalha de UBER e a mãe tem uma loja de roupas. Ele passa o dia todo na rua e aos finais de semana sempre arruma coisa na rua (churrasco com os amigos, assistir futebol com os amigos, etc.)”.

O caso de Gabriela não é único. Muitas mães, e pais também, têm repensado os acordos dos filhos que circulam entre casas. Alguns suspenderam as idas e até as visitas, outros optaram por espaçar o tempo. Não tem certo e errado, mas é preciso ficar atento aos vínculos das crianças e adolescentes pra que eles não sejam privados de uma convivência que lhes é muito importante.

“O medo não deve ser o imperativo em qualquer relação, principalmente com crianças ou jovens”, diz a psicóloga Sandra Stirbulov, especialista nesta faixa etária. “Devemos sim ter cuidados e nos prevenir. Cada família é uma e tem que ser avaliada com critérios. Mas o mais importante aqui é: o que é mais prioritário neste momento para essa criança/adolescente? Qual a necessidade dele para a saúde mental/ emocional?”. As perguntas são de extrema importância e deveriam ser norteadoras da conversa sobre filhos irem ou não para a casa do outro.

Esses são os desafios dos tempos de hoje e é preciso criatividade, bom senso e flexibilidade para promover as soluções. Juliana Dalcico conta que a filha tem ficado 15 dias com ela e 15 com o pai. “Modificamos a guarda por conta própria, antes ele pegava a cada 15. No início, ela foi pro pai e ficou 40 dias direto. Antes da pandemia era praxe guarda compartilhada, mas logo quando veio a quarentena ela estava com o pai e ficamos com medo. Achamos melhor isolar”, conta. E pai também tem seu papel.

Criança é sempre um elo nas relações entre os casais, ainda que muitas vezes sejam palco das discussões

Juliana conta que a filha se adaptou bem. O pai mora em São Roque e a menina acabou ficando melhor por lá do que dentro do apartamento. Algumas mudanças realmente são positivas, principalmente as que levam em conta a saúde mental e emocional da criança, em primeiro lugar. Para os filhos de Bruna D’Andrea, 10 e 12 anos, manter a rotina foi algo fundamental. “O pai pega a cada 15 dias e ficam em casa, mas andam a pé, passeiam de bicicleta e passam finais de semana na casa que a família tem na serra. Sem aglomerações, com cuidado e felizes”.

A psicóloga Sandra Stirbulov ressalta a importância deste lugar de alegria e boas memórias de tempos pandêmicos. “O importante é que no futuro as crianças pequenas de hoje lembrem dessa época como um período gostoso, onde ficaram em casa e se divertiram muito junto com seus pais podendo simplesmente serem crianças; que os adolescentes lembrem como uma época de driblar os sentimentos, aprender a priorizar e dar valor para as reais necessidade. Que possamos desenvolver a resiliência”. Isso é sonho, desejo, quase utopia.

Mas é preciso ter um norte a ser atingido ainda que não se chegue lá. Quem sabe, pra se garantir um mínimo de espaço de alegria na memória. E pra que essa espaço, de alguma maneira, consiga ser maior, que a saudades que sentem da casa do pai ou da mãe, como acontece com os filhos de Michelle Lucie que ficaram 100% dos dias com ela. “Meu filho faz parte do grupo de risco e o pai sai pra trabalhar e tem contato com muitas pessoas. Em 5 meses, as crianças passaram 3 finais de semana apenas com o pai, mas agora já penso em dividir novamente, nem que a cada 15 dias.

Michelle diz que as crianças estão exaustas e sentindo muito a falta do pai. “Às vezes, ele vinha na porta pra vê-los. O mais novo, de 7 anos, é o que mais sente. Por mais que eu jogue futebol com ele dentro de casa, não é a mesma coisa que brincar com o pai. Está extremamente agitado, com baixa autoestima e cheguei a levá-lo ao médico. Juntos, decidimos juntos afrouxar um pouco, já que está bem exaustivo pra eles e pra mim. Acabei ficando com todas as funções sozinha. Sexta eu chorei ao ver a alegria dele em ir pra casa do pai. Passou o dia contando as horas, literalmente”.

O que vive Michelle e os filhos é um retrato da complexidade de que vivem os casais divorciados com filhos. Tomar uma decisão pensando na saúde da criança implica, diretamente, outra na ponta emocional. Difícil achar a zona de equilíbrio e pra isso é fundamental questionar até onde esticar a corda em nome da saúde. Crianças estressadas e com diversos sintomas indiretos vindos da pandemia já é um dado que a Sociedade Brasileira de Pediatria tem lidado diariamente, seja nos consultórios, seja nos estudos sobre as sequelas dos tempos.

E o impedimento de ver o pai ou a mãe, durante a pandemia, não pode ser mais uma sequela. A decisão tem que ser a mais próxima possível do comum acordo entre o ex-casal, ainda que, muitas vezes, o diálogo seja um impedimento da relação. “Nem tudo são flores”, diz Nanda Santos. “Temos nossos altos e baixos, mas sempre pensamos no que é melhor pra nossa filha e seguimos apaziguando as discussões”.

Valéria Di Donato compartilha da mesma concepção. “Estamos há 3 anos divorciados e nesse turbilhão de coisas que estamos passando, conseguimos entrar em um consenso sem brigas, pensando no bem comum de todos”. E há quem, como Isa Martin aceitou o ex-marido de volta em casa para que ambos pudessem ficar próximos ao filho com maior segurança. “Meu filho está feliz e isso que importa”.

Entre os percalços de um divórcio e todas as implicâncias que isso tem ao casal, a pandemia, certamente, trouxe mais uma questão ao centro da mesa. E uma questão que nem os advogados de família estão habituados a lidar. Porque foge as regras das decisões judiciais quando os riscos não estão na casa do pai ou da mãe, mas num vírus que circula por aí.

Legitima aqui o bom senso a delicadeza da situação. Pois sabe-se que as dificuldades emocionais estão potencializadas. Cada situação é única e com isso as situações sociais e de relacionamento também se tornaram mais complexas. E a pandemia tem sido palco dessa reflexão.