Muitos pais vivem uma batalha com o filho quando ele chega na fase da adolescência. Uma mistura de “não quero que meu filho deixe de ser criança” com “eu não sei lidar com esse novo ser humano”. Ok. Entendemos que a fase não é nada fácil. Além de marcar o fim da infância, traz uma série de mudanças que nem sempre os pais estão preparados para lidar. Mas, se escolhermos falar da adolescência apenas de forma negativa e pejorativa, vamos acabar criando mais um entrave. Está aqui já nosso primeiro alerta da matéria: curta seu filho na adolescência. A fase pode ser muito bacana, sim. Assim como ele vai fazer um monte de descobertas, vocês, como família, também farão. De viagens, músicas, programas de final de semana… E quer coisa mais gostosa do que escutar o papo dessa garotada? Convidar os amigos do seu filho para ir em casa é uma delicia de programa. Curta a adolescência do teu filho, que ela pode ser muito bacana.

Para que isso aconteça de forma suave, é importante entender o que se passa com essa geração. Entender os conflitos, as angústias e os anseios deles é a porta de entrada para o mundo do seu filho. O conselho de médicos e terapeutas parece ser unânime: procure, primeiro de tudo, entender a geração do teu filho para depois procurar o diálogo com ele. Precisa contextualizar o que ele está vivendo pra conseguir chegar na ajuda. Bingo. Antes de apontar o dedo, procure saber mais sobre o que ele pensa e o contexto em que ele está vivendo. Certamente não é como a sua adolescência, e isso exige uma mudança de postura para terem um bom relacionamento.

Mas que fique claro: um bom diálogo, ou relacionamento, com o filho na adolescência só vai existir se tiver começado na infância. Porque, se até aqui vocês ainda não se encontraram, não vai ser num estalar de dedos que a coisa vai acontecer. Tudo dentro do seu tempo e do que cabe à idade da criança, mas a intimidade do diálogo deve ser construída ao longo do tempo. “Como os pais vão querer falar de sexo, por exemplo, se o filho nunca os viu pelados quando criança? ”, provoca a ginecologista dra. Diana Vanni. “Se o assunto for um tabu na infância, não é na adolescência que os pais vão virar a chavinha e conseguir conversar sobre o que nunca conseguiram”, alerta ela. E isso serve pra qualquer tema. A geração de adolescentes que estamos vendo hoje é extremamente flexível e pluralista. Para eles não existe assunto que não possa ser falado, e se você os julgar vai, certamente, perder o elo com eles.

Sabe tudo que você aprendeu sobre sexo, relações, amizade, mundo e sei lá mais o quê? Sério mesmo. A frase não está entre aspas, mas foi dita por um ginecologista amigo que atende adolescentes. E, pelo que se observa de estudos de comportamento e pesquisas, essa geração veio pra derrubar muros. O primeiro deles é o do pré-conceito. Eles não têm nada pré-concebido na cabeça como ideal ou verdade absoluta. Estão abertos a escutar o que o outro tem a falar. Questionam, querem saber mais, querem saber o porquê. As coisas precisam ter sentido. E por serem tão curiosos e ávidos a experimentação, são capazes de conviver com a diferença de forma curiosa. As diferenças aproximam e derrubam adjetivos muitas vezes preconceituosos.

E tanta curiosidade eleva o nível de experimentação. Em todos os âmbitos. Educacional, social e na vida íntima deles. “Meninas podem beijar meninas, assim como meninos podem beijar meninos sem nenhum tabu”, explica a dra. Diana. “Isso não determina opção sexual e nem quem eu sou, ou deixo de ser. Isso só revela o desejo de experimentar o beijo. É um beijo. Ponto”. Ponto esse a que os pais devem ficar bem atentos – mesmo que se choquem. Porque adolescência precisa de família por perto. Pra conversar, pra apoiar, pra ajudar, tirar dúvidas, ensinar… Uma série de verbos. Verbos que exigem escuta. Essa geração tem escuta para o mundo. Ela também precisa ser escutada. É preciso falar com eles e não para eles.