Saída de escola, aquele monte de criança e adolescente saindo das classes e aquele monte de pais, motoristas e babás esperando na porta. Rola um “oi”, e na sequência um “toma, segura”. Assim mesmo, no imperativo. Uma amiga me ligou no meio da semana passada contando que tinha acabado de pegar os filhos na escola e estava chocada com a quantidade de adultos segurando as mochilas e pertences dos filhos. Queria saber se na escola dos meus era assim também e entender por que os pais carregam tudo dos filhos. Por que não os deixam carregarem sozinhos. Bingo. Está aqui o ponto: porque os pais dessa geração superprotegem os filhos por “n” razões. Seja para suprir a ausência, seja porque os acham tadinhos “eles já fazem tanta coisa”, seja porque nunca carregaram sua mochila e daí “por que não?”, seja porque “ah, não custa nada”, seja porque estão educando as crianças pra serem servidas. Ops! Pais serviçais e crianças governantas. Grosso modo é isso.

 

Grosso modo é também uma geração de crianças que cresce mais preguiçosa, mais devagar, mais mal-acostumada, porque sempre tem um adulto pra fazer por ela. Agora carregar a própria mochila é simbólico. Os viajantes têm um lema que é o de viajar apenas com aquilo que são capazes de carregar. O que é uma verdade pra vida: carregamos dela, ou por ela, o que somos capazes de aguentar. Tanto “peso” emocional como físico. Quando tiramos uma mochila das costas, ou das mãos, de uma criança, tiramos a possibilidade de ela carregar o que é dela. Só dela. De mais ninguém. Tiramos a possibilidade de ela experimentar carregar um pouco da responsabilidade que já lhe é proporcional ao tamanho da vida. É como dizer “deixa que eu resolvo pra você” ou “deixa que eu faço pra você”. Ou, mais ainda, é como dizer “deixa que a mamãe resolve”. Não precisa. Não se deve carregar uma mochila de uma criança. Ela tem capacidade. Física e emocional. E se, por algum acaso, não tiver, precisa desenvolver. Urgente.

 

O ato de ir pra escola é a primeira grande conquista de uma criança. Porque é o primeiro espaço físico que é realmente dela. Ali ela aprende a fazer amizades, a resolver conflitos, a provar novos alimentos, a descobrir possibilidades de mundo. Tanto na educação quanto no social. A mochila faz parte desse contexto. O que tem dentro da mochila também. Porque são as ferramentas que ela precisa para desbravar e conquistar esse mundo chamado escola que é só dela. Retirar isso das suas costas é retirar a responsabilidade. E a liberdade que essa conquista vai trazer num futuro próximo. A liberdade que é conquistada sem esforço se esvazia de força e vontade. Vira uma vida meio elas por elas. Meio um tanto faz. Porque eu sei que tem alguém que vai fazer por mim. Mas de pessoas assim o mundo não precisa. Precisamos de pessoas que façam por si. Que tenham força e empoderamento das próprias vontades. Que usem sua liberdade, conquistada, para transformar. E que sejam capazes de segurar a própria vida em suas mãos. Carregar a bagagem é ser dona da própria vida. É conquistar a possibilidade de fazer escolhas, de escolher caminhos. Essencial a quem tem uma vida pela frente. De mochila nas costas.