Arrumar mala de viagem é igual a abrir caixa de brinquedo. Estou falando de criança, claro. Imagine a cena: você dentro do quarto do teu filho, com as portas dos armários abertas, aquela bagunça em cima da cama e uma zona na casa – afinal você está fazendo 20 mil coisas enquanto também arruma a mala. Só que abrir o armário é uma caixinha de surpresas. Você precisa colocar não sei quantos shorts, não sei quantas camisetas, calças, cuecas, meias, sungas…sapatos. E de repente se dá conta que muita coisa não serve mais. Não cabe – ou teu filho não gosta mais. Porque seu filho cresceu. Assim, de repente também. Parece que na mesma velocidade do estalo da consciência, acontece o estalo de que eles cresceram.

Semana passada viajamos em família. Éramos em 17. Mas eu tinha apenas três para ajudar a fazer às malas. Foi um tal de “experimenta essa calça” que não acabava mais. O saldo foram 3 malas de viagem prontas e algumas sacolas cheias de roupa para doação. Eles cresceram. Meus três meninos cresceram. Sobrou um espaço nas malas. Espaço a ser preenchido por outras coisas. Não mais a camiseta do Minions ou o Crocs do Toy Story. É o que está por vir. Numa outra etapa que ainda nem sabemos que cheirinho tem.

Me lembrou da sensação de não tropeçar mais em brinquedos pela casa. Por anos, eles estavam lá. Espalhados, em cima das camas, nas prateleiras, na casa da vizinha…eram caixas de brinquedos. Mas elas sumiram. Não sei muito bem em que momento isso aconteceu, mas certamente a vida foi generosa e fez isso em doses homeopáticas. Saiam doações e não entravam mais os brinquedos. A casa se esvazia. Parece que a infância se esvazia também e dá aquele aperto no peito. Aperto mesmo. Não é clichê não. Chega a doer. A risada solta tá indo embora. A imaginação sem contorno vai dando lugar a consciência. O sonhar vai dando lugar ao pensar. E de repente, não tem mais Lego pra você tropeçar no meio da sala. Parece que tá organizado demais agora.

Mas a vida é generosa. Lembra disso? E toda caixa de brinquedo é mesmo uma grande caixinha de surpresa. Porque a gente não sabe qual será o próximo desejo, a próxima vontade, o próximo brinquedo. E haja simbologia pra tudo isso. Porque a gente precisa ser capaz, sempre, de deixar caixas irem e virem com o maior carinho e respeito. Afinal, o que seria do frio na barriga não fossem as descobertas, não é mesmo? Vale para nós, pais, e para eles, filhos. É preciso ser generoso. Com a vida e com as surpresas.