E se o tempo fosse contado pelas coisas que vivemos? Pelas lembranças, pelas memórias de infância. E se o tempo fosse contado pelos sentidos? Pelos cheiros, pelos sabores, pelos sons. Da infância. E se o tempo fosse contado pelos momentos cheios de amor e vida? Quanta memória, quanta coisa pra contar. Quanto tempo dessa dona Vida à nossa disposição. Quanto tempo…

Sinto o cheiro de sabonete nas gavetas de roupas da minha avó. Quando a gente pegava a toalha pro banho, vinha aquele cheirinho que era dela. O sabonete era Francis.  Tem cheiro de infância. Cheiro das gavetas na casa da minha vó.

E tinha o bolo formigueiro. Hum… cheiro de bolo formigueiro… quentinho, macio. À espera da gente chegar. O coco fresco ralado e aquela calda fininha por cima de chocolate. Minha vó furava o bolo com palito para a calda escorrer e ficar todo molhado. Hoje eu faço o bolo para meus filhos. Ele vem cheio de histórias, cheio de memórias de infância. E eu contava a eles que os pretinhos eram as formiguinhas e que faziam bem aos olhos. Coisa de quem cresceu no interior.

De uma avó íamos para a casa da outra, que era na fazenda. Privilégio poder passar meses e meses das férias numa fazenda. Sem tempo algum como limite. Alias, o único limite que tínhamos era o trilho de trem que passava dentro das terras. Aquilo era o máximo de delimitação. Passar dali só de carro. Mas carro lá era o trator, que pegávamos somente para ir no cafezal ajudar a colher café ou levar comida pros colonos. Mas a graça era voltar na carreta do trator pulando e se afogando no café que tinha acabado de ser colhido. Depois, quando o café ia para as casas de moinho onde seriam ensacados, a gente (eu, minha irmã e minha prima), subíamos nas escadarias que tinha lá e pulávamos nos montes. Sinto o cheiro do pó que ficava nos cafés. Sinto as teias de aranha que encontrávamos nos montes. A gente saía todas sujas. Muito sujas. E entrar em casa era proibido. Tínhamos que tomar banho no banheiro de fora, junto da área de serviço. Era gelado e tinha uma perereca que morava no vaso. Ninguém sentava lá. Aquele banho tinha um cheiro de noite tão forte! Cheiro de céu estrelado. A essa altura o céu já estava tão estrelado, tão estrelado, que fazia a gente deitar no alpendre e ver as estrelas. Minha tia descascava cana-de-açúcar pra gente chupar. Às vezes vou na feira e peço cana pra chupar. São comidas de alma que crescem com a gente e ficam guardadas no coração, mais do que no paladar.

Hoje meus filhos têm o mesmo privilégio. Não na mesma fazenda, não com as avós a todo momento, mas com direito a comida de forno a lenha, pé sujo de terra vermelha, um terreirão pra brincar, pés de frutas pra subir, o galo que canta logo cedo, o leite que vem cheio de nata direto da vaca, o cheiro de bolinho de chuva que sai da cozinha. Eles têm o privilégio de ver o horizonte. De ver aquela imensidão de terra e a liberdade que ela dá. Eles têm o privilégio de respirar ar puro e de poder entrar pra tomar banho com os mesmos pés sujos de terra vermelha. Eles têm o privilégio de poder dormir na casa que era dos colonos e que foi toda restaurada. Mas que ainda tem o chão vermelho de cera. Eles têm o privilégio de brincar o dia todo. Brincadeiras de criança. Aliás, eles têm este privilégio: poder ser criança por mais tempo. E, quando anoitece, têm o privilégio de poder ver o céu estrelado. Achar as Três Marias e o Cruzeiro do Sul. Escutar histórias ao lado da fogueira. Eles têm o privilégio de dormir de coração quente. De alma aquecida. Cheios de amor e tempo à disposição da dona Vida.