Quando foi que resolvemos classificar cores por sexo? Rotuladas pelo senso comum, a desconstrução social de masculino e feminino passa pelo entendimento de questões de sexualidade, como o gênero. Você sabe o que é gênero?

Falar de gênero é algo baita confuso! Porque é um “conceito” novo socialmente, porque não sabemos lidar com as diferenças – o que dirá com a diversidade – porque não existem dados científicos e porque é singular. Definição de gênero é algo que cabe, única e exclusivamente, a pessoa que habita aquele corpo e mente. A forma como ela se identifica mentalmente é que define seu gênero. E isso é único, é singular.

Mas vivemos num país diverso, das múltiplas culturas, dos acolhimentos as diferenças e dos 210 milhões de habitantes de norte a sul. Como assim podemos ser tão pré-conceituosos com os outros? Como aceitar que tamanha diversidade é tão pouco diversa? “Nunca se falou tanto nas diferenças, mas nunca se banalizou tanto também”, fala a professora doutora da USP, Claudia Vianna, especialista em Relações de Gênero e Política Educacional. A fala foi feita numa palestra para pais de alunos da escola Vera Cruz, dentro de um ciclo da escola que aborda temas da contemporaneidade adolescente.

E diferente do senso comum de que somos um país acolhedor, a diversidade não é acolhida em nossa sociedade. Ainda que façamos cara de paisagem, de que isso não é comigo e de que eu não tenho preconceitos, o ser humano segrega. Afinal, “Deus criou assim”. Homem é para ser homem e mulher é para ser mulher. Assim como o azul está para o homem e o rosa para a mulher. Estamos no mês do Outubro Rosa, não estamos? E pro que rosa? Não poderia ser laranja, vermelho…

A cada 19 horas 1 LGBT é assassinado no Brasil. A expectativa de vida deles é de 35 anos, ao contrário dos homens que têm expectativa de 72 anos e quase 80 para as mulheres, segundo dados do IBGE. “Diferenças quando transformadas em desigualdade geram preconceitos e discriminação. O que gera violência”, analisa Claudia. “A gente hierarquiza as diferenças e transforma em desigualdade”. O nível de evasão das escolas de transexuais é altíssimo. E esse mesmo nível é alto na prostituição.

“Discriminados, fora da escola e sem mercado de trabalho, eles se prostituem”. E quando eu resolvo dar um google na palavra “biscoito sexual”, um desenho didático que explica essas possibilidades de escolhas, eu caio em páginas de pornografia. Ou me entram, junto as imagens que cliquei, anúncios de pornografia. Esse é o mundo em que vivemos.

A professora Claudia Vianna durante palestra

O gênero nasce na luta de direitos porque é ser humano. Não é objeto. Nasce nas identidades feministas que não são dadas, são conquistas. O movimento feminista é plural. Isso pauta a questão de gênero, a começar pelos direitos. “Porque quando não temos dados para analisar, para quantificar, para olhar, não temos políticas públicas sendo pensadas para essas pessoas”, aponta Claudia. “A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconhecemos o que temos a frente”. A passagem de um dos livros do escritor Saramago cabe bem a este não olhar social, a esta cegueira que desqualifica e desumaniza algo tão cheio de humano. Você sabe o que é gênero?

Gênero é a organização social das diferenças que existem entre homens e mulheres. Não necessariamente ela está dada no meu corpo, mas é como eu me reconheço. É minha identidade de expressão e não como sentido de sujeito. E dentro desta régua homem e mulher, existem possibilidades outras de escolhas. “Gênero não expressa uma essência interior de quem somos. É uma interpretação de quem eu sou”, fala Claudia Vianna. “E o tempo todo, a gente produz sentidos, normas e concepções para os gêneros. Existe um jogo de interpretação que está na sociedade e gênero é só um caminho para entender a sexualidade”.

“As pessoas não são apenas a genitália que elas carregam. Elas são identidade, biologia e expressão. E tudo isso vive dentro de uma possibilidade social diversa carregada de preconceitos”. Inclusive – e exclusive – dentro das escolas. Sim! Nas escolas. Aquele lugar em que as pessoas morrem de medo que se fale de sexo, sexualidade, opção sexual, diversidade sexual e essa enxurrada de possibilidades que existem em pleno século 21. 2019 mais objetivamente.

Segundo pesquisa do MEC e da FIPE, 99,3% de crianças e adolescentes que foram entrevistados nas 18.600 escolas do Brasil, demonstram algum tipo de preconceito. As questões todas que envolvem gênero e sexualidade já permeiam o dia a dia das escolas. A questão já está dada. Agora como a gente vai dormir com esse barulho é a questão. Porque “ninguém nasce homofóbico, mas a gente educa para ser”. Como? Quando?

Quando a gente faz filas de meninos e meninas; quando meninos jogam futebol e meninas vôlei; quando os pratos da creche são rosa e azul; quando uma criança pequena dá um beijo na boca da outra e a gente grita de horror; quando um menino quer ver o pênis do outro e a gente acha que por isso ele vai ser gay; ou quando ele quer brincar de casinha; quando uma menina tem um temperamento mais forte e logo se acha que ela é masculinizada; ou também nas escolhas dos livros didáticos que se usa, nos autores que se escolhe ler e por aí em diante. A lista é longa e interminável. Simplesmente porque o tema está presente. E falar sobre ele nas escolas, não significa levantar bandeira e escrever conteúdo na lousa, mas sim ampliar e discutir sobre as abordagens dessas situações.

A discussão teórica não é para as crianças e sim para os adultos. “É como sobre eu acolho, quais exemplos eu dou, como eu falo, como eu lido com as crianças e os jovens. E quando a criança quer colocar a fantasia de princesa na escola, eu tenho que deixar”, explica Claudia. Isso é falar de gênero nas escolas. “A construção social de desejo leva anos a ser construída e não se constrói desejo sexual na infância”, reforça.

“Não fomos educadas por mães feministas, então temos que aprender. Temos que nos educar e desconstruir padrões”. Porque a desconstrução social leva tempo. É preciso criar espaços múltiplos e fortalecer as diversidades. “É sobre o corpo da gente e não de menino ou menina. É de ser humano. E nós somos, necessariamente, múltiplos”.