São muitas as síndromes que têm aparecido em crianças e adolescentes pós isolamento, mas o que tem chamado atenção de pais, escolas e psicólogos são as crises de pânico que crescem

Há um ano e meio, não se sabia quais seriam as sequelas que as pessoas levariam da pandemia. Muito menos o que iria acontecer com crianças e adolescentes tão supostamente protegidos dentro de casa. Hoje, um longo tempo depois, existe uma lista de síndromes que denominam as decorrências sobre eles.

Fobia social, síndrome da gaiola, síndrome da cabana, toca do urso são alguns dos termos mais usados quando psicólogos e psiquiatras tentam explicar o que anda acontecendo com crianças e adolescentes que voltaram a frequentar escolas e outros espaços sociais, e que junto precisam enfrentar o medo de sair de casa, o medo de rever as pessoas, o medo de socializar e até de se ver como parte deste grupo social.

Os enfrentamentos sociais têm provocado um aumento de crises de pânico uma vez que o cuidado à saúde mental ainda é algo novo. Pais, mães e responsáveis legais começam a entender que os filhos precisam de um olhar para além daquele que preenche a rotina cotidiana.

Segundo o psicólogo Marcelo Wild Veiga, “a gente não pode ignorar o campo traumático da própria pandemia”. “Primeiro porque tivemos que lidar com a morte e quando a gente pensa nas crianças e nos adolescentes este é um lugar invisível a eles. Outro elemento é quando se tem alguém da família ou um amigo ocupando o lugar de ameaça uma vez que é um componente de contágio”.

Agora imagine você, uma criança ou um adolescente, com os recursos próprios da idade, tendo que olhar um amigo e justificar ao seu cérebro e a sua vontade de brincar ou abraçar, que aquela pessoa é uma ameaça à sua vida e de seus pais. Como uma criança elabora isto com os recursos internos que ela tem? Como faz um adolescente para afastar do corpo e do contato físico tudo que ele mais quer por perto?

“A Isabela passou a ter crises de ansiedade quase todo dia quando chega perto do horário de ir pra escola”, conta a mãe, Sofia Nascimento. “Ela treme, fica nervosa, o corpo começa a chacoalhar inteiro e eu demorei pra entender que isso eram sinais de uma crise de pânico. Ela tem 16 anos e está fazendo terapia, o que tem ajudado, mas ela nunca mais sorriu pra ir à escola como sorria antes. Eu sei que um dia vai melhorar”.

Mariana Mendonça, mãe de três, conta que o menor de 8 anos também tem sofrido quando o assunto é escola. “É só falar que ele fica nervoso e começa a se arranhar. Junta as mãos e se machuca. Fica muito nervoso, chora e já ficou até sem ar”, conta.

Ambos os episódios têm a escola como gatilho, mas sabemos que não é a escola o “problema”. É o que ela representa e todo o universo de relações que vive lá dentro. “O cenário de isolamento, de certa forma, trouxe uma sensação de controle muito grande uma vez que eles podiam ter mais liberdade de escolha, tinham mais flexibilidade com os horários, acordavam mais tarde, respeitando mais o próprio ritmo do corpo. As escolas também diminuíram as demandas e os volumes de exigências. A vida estava mais tranquila, ainda que menos interessante”, explica Marcelo.

Adolescentes, e crianças também, tinham controle até mesmo de poder afastar o olhar do outro caso sentissem vontade. Era só desligar a câmera, lembram? Estava mais fácil poder se recolher dos possíveis conflitos. “O que foi acontecendo durante este período é que fomos criando mecanismos de defesa, alguns sintomáticos, outros mais práticos, só que existia uma expectativa de um retorno mais tranquilo o que está longe de ser uma verdade”, aponta.

Veiga afirma que um trauma, como vivido na pandemia, demora para se dissipar e como aprendemos recentemente, as sequelas não são apenas a da COVID-19, mas também emocional, o que entra no campo da saúde mental.

Segundo dados do estudo coordenado pelo psiquiatra Dr. Guilherme Polanczyk, dentro da Faculdade de Medicina de São Paulo, a USP, uma a cada quatro das 7 mil crianças e adolescentes ouvidos, apresentou ou apresenta sinais de ansiedade e depressão por conta da pandemia.

Para ele, a saúde mental de crianças e adolescentes é altamente negligenciada. “Os casos são silenciosos e em todo o mundo a depressão é uma das principais causas de incapacidade entre adolescentes”. “O suicídio é em alguns países a segunda, e em outros, a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos, sendo no Brasil a segunda”.

Dos 69 milhões da população entre 0 a 19 anos, 10,3 milhões têm registros de casos de transtornos e, segundo Polanczyk, os números aumentam. Ainda não se tem números precisos da pandemia especificamente para crise de pânico, mas os relatos que chegam aos consultórios e às próprias orientadoras nas escolas já são muitos.

Daniela Dabonne conta que, em conversa com a orientadora da escola de seus dois filhos, a mesma disse que os casos de ansiedade e depressão têm aumentado dentro do ambiente e, recentemente, alunos de uma sala de Fundamental II passaram por um episódio bem traumático em que uma aluna levou um canivete para a escola e se cortou durante a aula.

“Foi uma cena muito forte pra todo mundo e em conversa com a orientadora ela reforça o quanto está difícil para crianças e adolescentes, de forma geral, que buscam, referências felizes nas redes sócias e quando não encontram, acabam buscando outras formas de contornar as dificuldades desse retorno”, conta Daniela.

Ela, que tem uma menina de 9 anos e um menino de 12, fala também das crises que o filho tem passado com a volta. “A rotina é corrida e exigente e eu não sabia o que era antes, achava que era só uma forma de não saber lidar com os sentimentos, mas muitos pais têm relatado o mesmo e tenho ficado mais preocupada. Percebo a batida do coração acelerada, ele fica super ofegante, quase não consegue respirar e tem vontade de vomitar”.

Marcelo Veiga explica que sintoma é uma organização defensiva do sujeito e que, muitas vezes, mesmo sendo “precária”, é uma maneira do corpo combater o desconforto. “Imagine para as crianças e adolescentes voltarem para uma escola que eles não reconhecem mais, que as relações não são totalmente espontâneas uma vez que elas acontecem com distanciamento social, máscara, horário de recreio controlado pra que não haja aglomeração, isso tudo não é confortável para eles”, pontua.

O ‘outro’ ainda está no lugar que oferece algum tipo de perigo também e estamos falando de todas as dificuldades de voltar às relações sociais. E as escolas voltaram a ficar mais exigentes também. Os alunos estão com várias lacunas de aprendizagem e estão tendo que se defrontar com elas nesse retorno presencial às escolas e num tempo que não é mais decisão deles”.

Não há dúvida que vamos levar um tempo para elaborar as sequelas todas. Sequelas que além de marcarem um tempo na linha do calendário, marcou cada um, a sua maneira, no corpo, na pele, em cada célula. Vamos levar um tempo para que o ‘outro’ não represente perigo e a gente possa estar junto de maneira mais tranquila e confiável. As relações sociais já estão voltando a acontecer, mas tem que ser aos poucos. Tudo aos poucos.

E enquanto a gente espera esse tempo é preciso olhar crianças e adolescentes com mais cuidado e empatia. Não é frescura, não é ataque, não é chilique. São sentimentos que angustiam e que eles não têm recursos para lidar. Pais, responsáveis legais, escolas e serviços de saúde precisam se articular para oferecer alguma segurança dentro deste mundo que anda oferecendo tão pouco.