Com a volta das aulas presenciais, escolas intensificam atividades ao ar livre para cumprir protocolos e priorizam o contato com a natureza

Subir em árvore, por o pé na lama, pular corda, pular na poça d’água, colher pedrinhas, brincar de correr ou fazer bolo de areia são cenas muito comuns na Educação Infantil. O pátio da grande maioria das escolas costuma oferecer natureza suficiente para garantir a relação por meio do brincar. Mas o que antes era restrito a períodos como intervalo e “hora do brincar”, ganhou protagonismo com a pandemia.

A volta às aulas na Educação Infantil é marcada pela priorização dos espaços externos e atividades que colocam a criança em contato com a natureza. Exigências como distanciamento social e manter áreas ventiladas vieram, de maneira involuntária, fortalecer o encontro entre criança e natureza. Conexão tão necessária em meio a tanto concreto que nos cerca.

Não é de hoje que se fala na importância desta convivência. Não é de hoje que se insiste para que esta relação tenha maior frequência, tempo e qualidade. E não deveria ser exclusiva à Educação Infantil, aos pequenos, deveria estar presente em todo ciclo escolar por um princípio muito básico que é o de que a natureza educa.

A sociedade educa, o coletivo educa, o mundo educa e a natureza também. Isto do dia que a gente nasce ao dia que a gente morre. A manutenção destes momentos não deveria ter idade, nem restrições – ainda que o tenham. Mas fato é que o movimento chamado de “desemparedar a educação” ganhou força com a pandemia.

Ano passado, a Escola Vera Cruz inaugurou um espaço, até então reservado para uma nova unidade de atendimento integral, a “Escola ao Ar Livre”. São 5mil metros de área, sendo 3500 de verde com espécies nativas, hortas, plantas, madeira, terra, barro e lama. Tudo disponível às crianças da EI e Fundamental I e com capacidade, e recursos, para ofertar o mesmo ao Fundamental II e Ensino Médio.

“O contato com a natureza é uma questão curricular na Educação Infantil do Vera e já fazia parte das nossas intencionalidades”, fala Fabiana Meirelles, coordenadora. “A natureza gera muita curiosidade nas crianças e carrega muitas possibilidades de investigação. O fenômeno as aciona, suscitando muitas perguntas e vontades de interação. Isso vale tanto para investigações e experiências mais dentro do campo das ciências mesmo, como também para experiências corporais e também outras relacionadas às artes”, completa.

O colégio Santa Maria também conta com uma área verde de mais de 100 mil m² de Mata Atlântica que passou a ser mais usado pelas crianças pequenas na pandemia. “Além de proporcionar a retomada do desenvolvimento motor por meio das atividades de movimentação, está trazendo de volta a alegria do convívio seguro entre as crianças”, conta Eliane Lima, coordenadora da Educação Infantil. “Em um ano de ausência no ambiente escolar, as crianças tiveram algumas perdas motoras e neste início de ano letivo presencial, as professoras notaram que os alunos estavam tropeçando e caindo mais. Por esta razão, a proposta pedagógica do Santa Maria vai privilegiar as aulas ao ar livre”.

No Santa Maria, "os quintais naturais são laboratórios de aprendizagem, desenvolvendo conectividade afetiva e respeitosa com o mundo e seus pares", fala Eliane Lima

No Santa Maria, “os quintais naturais são laboratórios de aprendizagem, desenvolvendo conectividade afetiva e respeitosa com o mundo e seus pares”, fala Eliane Lima

Paula Mendonça, coordenadora de educação e cidades do programa Criança e Natureza , do Instituto Alana, reforça as potências do espaço escolar como lugar de relação com a natureza e seus aprendizados. “A gente chama atenção para dois aspectos que é o aprender com a natureza e na natureza. Este primeiro está muito no campo das investigações e aprendizados da própria ciência da natureza. É quando o próprio espaço é por si só potente para o aprendizado. A natureza como objeto de pesquisa com as plantas, os micro organismos, enfim. E tem uma segunda possibilidade que é onde temos chamado à atenção das escolas que é para o uso como ambiente para aulas, um espaço com possibilidade para aprender qualquer tipo de conteúdo”, ressalta.

E é exatamente deste ponto trazido por Paula que a gente pode observar uma maior relação das escolas com os espaços verdes, tanto dentro das próprias instituições como na cidade, com as parcerias de equipamentos públicos o que viabiliza o uso de praças e parques para atividades.

Os espaços ao ar livre são uma medida sanitária extra junto dos demais protocolos e é justamente a junção desta alternativa à busca por maior bem-estar dos alunos que escolas privadas e públicas optaram por levar à sala de aula para fora das quatro paredes e a medida só colabora para a saúde e formação integral do aluno.

O que antes era uma batalha de algumas Instituições que defendem a relação, hoje virou um atrativo que as escolas oferecem. Dizer que as crianças exploram, investigam e aprendem em contato com a natureza é quase um chamariz a muitas famílias. E ainda que nem todos tenham a consciência do que este vínculo, de fato, significa, temos o começo de uma mudança extremamente positiva. Escolas entenderam que espaços antes reservados ao brincar podem – e devem – ser usados como locais de aprendizagem, a famosa sala de aula.

Escolas como São Domingos e Waldorf Areté, ambas em São Paulo, são dois bons exemplos de uso de espaços públicos e relação ensino-aprendizagem e natureza. Já a mineira BabyNap berçário e Jardim, aproveitou a localização rural na cidade de Uberlândia em Minas Gerais, para dar ênfase a pedagogia waldorf e aos princípios antroposóficos.

Mônica Galvão, coordenadora pedagógica, diz que para ela a Educação Infantil ganhou papel terapêutico neste século. “Estamos falando de uma forma de saúde preventiva”, fala. “Precisamos oferecer gotinhas homeopáticas de vida e neste medicamento manipulamos a matéria-prima da grande mãe natureza. A cada dia medicamos os pequenos com muito movimento, artes manuais, canções, brincadeiras imaginativas, construções, contato com pequenos animais, imitação, convívio com o diferente e, ao mesmo tempo, o que é pertencente à nossa singularidade humana”, explica.

Crianças têm a possibilidade de se relacionar e cuidar da natureza ao mesmo tempo em que são cuidadas

Crianças têm a possibilidade de se relacionar e cuidar da natureza ao mesmo tempo em que são cuidadas

E quem é que lembra de algum médico que receita o contato com a natureza como possibilidade de medicamento? O pediatra e sanitarista dr. Daniel Becker é um deles. Para quem o acompanha no Instagram, ele está sempre reforçando a importância do contato com a terra, da criança descalça, do uso da famosa “vitamina S”, entre outras dicas pra lá de saudáveis.

Médicos europeus e canadenses também prescrevem tempo na natureza como remédio aos males do corpo e da mente. Alguns problemas da vida moderna como obesidade, estresse, ansiedade, estão diretamente relacionados com a alta exposição às telas e a permanência do corpo sentado quase que imóvel numa cadeira por longos períodos de tempo. O que, claramente, se agravou com a pandemia que deixou crianças e adolescentes confinados a quatro paredes com tempo extra de escola via tela do computador. Os índices de obesidade dispararam e sedentarismo também.

A relação com a natureza e na natureza é, comprovadamente, dos melhores antídotos para tanta contemporaneidade. Quando a gente fala da saúde e desenvolvimento integral de uma criança e a observa subir numa árvore, por exemplo, fica evidente a maturidade psico-motora da mesma.

A escolha de qual galho pisar ou onde soltar o peso do corpo só acontece “sem perigos” porque esta criança foi convidada cotidianamente a se relacionar com a natureza. Subir na árvore ensina a perceber o próprio corpo, conhecer o peso e a elasticidade, os limites, saber quais podem ser extrapolados ou desafiados. Exige cálculo matemático, raciocínio lógico. Coisas que teoria nenhuma proporciona. É preciso se relacionar para conhecer.

“Os espaços ao ar livre contam com uma diversidade para a movimentação do corpo muito mais apropriada ao autoconhecimento e que traz uma competência para a vida toda”, comenta Paula Mendonça, do Alana. “É o que a gente chama de risco benéfico que parquinho padrão não tem. Os brinquedos que têm ali impõem um limite por si só. Num escorregador a criança só escorrega, num tronco inclinado a criança tem a possibilidade da exploração livre e tudo isso trabalha a superação de limites e na autoestima”, pontua.

Em meio a uma pandemia e um cenário em que o homem já desmatou mais de 29,7 milhões de hectares de florestas no mundo, o desequilíbrio das espécies já nos mostrou do que é capaz, pergunto o que ainda estamos esperando para refazer os laços? Para garantir que os espaços externos e verdes sejam mais habitados que as salas de aula. Que o aprendizado de conteúdos, sejam eles quais forem, levem em conta a relação na natureza de forma viva e permanente.

Por que não fazer uma roda de conversa sentados na grama, ler um texto numa sombra gostosa ou discutir um conteúdo com mais possibilidade de ar fresco? Por que não? A pandemia trouxe à tona muitas questões que estavam submersas no dia-a-dia das escolas e da educação brasileira. É preciso repensar conceitos e práticas envelhecidas e desenhadas pra uma geração – e um mundo – que não existe mais.