Respeitável público, os alunos do 8ª. da escola Waldorf Rudolf Steiner, apresentam a comédia dell’arte. Um espetáculo para os pais se esbaldarem de chorar. Nada de rir!

Sabíamos que iriamos nos emocionar, mas a dimensão do quanto, a gente só tem perto. Quanto mais corpo, mais próximo, mais gigante fica. Gigante de sentidos. Poder olhar o processo, acompanhá-los. É lindo ver um filho no palco, e não pra saber como ele entona a voz ou como se comporta dentro de um personagem, mas pra vê-lo sobre tantas outras perspectivas.

Para quem não conhece a pedagogia waldorf, parece que o anunciar de uma peça teatral é um daqueles momentos clássicos de escola em que filhos se apresentam aos pais. Mas não. É um daqueles momentos clássicos da pedagogia waldorf em que eles se apresentam para eles mesmos. Em que eles, alunos em pleno exercício da adolescência, têm a oportunidade de verem – e experimentarem – o mergulho no próprio ser. É o se colocar no mundo com tanta propriedade e segurança. Tão plenos e cheios de alma e coração. É deles parte de tudo que está ali, pra gente sentir além do olhar.

Alunos sentados no pátio pintando parte do cenário

O palco é deles. O fechamento de um ciclo também é deles. E na sensibilidade sábia de um professor, o Gustavo, o palco trouxe de volta, como última cena de casamento, de uma comemoração, o mesmo portal do qual esses adolescentes atravessaram quando tinham cerca de 6 anos, ao adentrarem na escola. Pra quem não sabe, também, as crianças quando entram no 1º. Ano de uma escola waldorf, atravessam um portal como simbologia de começo de um novo ciclo. Existe um ritual de passagem. E na delicadeza do Gustavo, ele soube trazer esse mesmo ritual de volta ao palco vestido de arte. Agora com tantas outras simbologias e saberes. Como uma bela metáfora da vida.

Das possibilidades que a arte nos permite viver. E porque existe intensão, ela fica ainda mais grandiosa. E esse é o maior alimento que o teatro pode consagrar na pedagogia. Do tornar sagrado, tornar divino. Não no sentido religioso da palavra, mas no espirituoso. É o teatro como alimento ao espírito, a alma humana. A relação é forte e por isso tamanha expectativa.

De todo o processo do teatro, os alunos tiram o alimento que precisam para o seu desenvolvimento psicoemocional. Não um alimento ao intelecto, não um conteúdo, mas um alimento pra alma. Que é sentimento – ou a possibilidade de entender o sentir e os sentidos. Um lugar onde cada um, em sua singularidade, tem a possibilidade de vivenciar emoções que, muitas vezes, estão lá dentro ainda sem reconhecimento. Sem o toque. Ou na bagunçada do auge das angústias e incógnitas que da adolescência. Quase como um momento terapêutico da pedagogia. Sim, a pedagogia waldorf muitas vezes é terapêutica.

Um palco como escuta de inúmeras possibilidades de ser – ou do ser. Ora doída, ora alegre, ora raivosa, ora saborosa. Ora Lucas, ora Doutor Lombardi. Ora Theo, ora Arlequim, Ora Guilhermina, ora Clarisse, ora Rie, o Esmeraldina. Ora um, ora outro que também posso ser, que também posso sentir. Que também posso me permitir. É a possibilidade de vivenciar um personagem que o professor de classe julga ser importante para sua formação. Pode ser um herói, um sábio, um vilão, um deus, um servo, uma rainha, uma nobre, um serviçal, um amo ou dois amores. Uma brincadeira entre título e palavras. Brincadeira de sentidos.

Dois amores de um Arlequim que servia a dois amos. E lá estavam eles, depois de oito anos juntos (na pedagogia, alunos e professor caminham por todo Fundamental I e II) e ininterruptos. Sabíamos que iriamos nos emocionar, mas a dimensão do quanto, a gente só tem perto. Quanto mais corpo, mais próximo, mais gigante fica. Gigante de sentidos.

Tão plenos e cheios de alma e coração. É deles parte de tudo que está ali, pra gente ver. Grandes como o palco. E a gente chora, feito pai e mãe. Feito quem descobre um filho a crescer tão cheio de si.

Elenco em frente ao cenário de Veneza no palco