Já cantava Erasmo Carlos que é no além do horizonte que a gente pode encontrar a natureza e a felicidade. “Além do horizonte existe um lugar, bonito e tranquilo pra gente morar”. Lálálálálálá

Sábio Erasmo. Sábia natureza. Que nos entrega a possibilidade de avistar o horizonte. Sim, existe horizonte no mundo e na vida. Basta a gente conseguir olhar pra frente e ver o “finito sem fundura”, como escreveu Mia Couto no livro O Outro Pé da Sereia. A possibilidade de enxergar lá na frente, de projetar futuro, o que ainda está por vir, vem da natureza. Do horizonte. E quando a gente tem a chance de olhar o horizonte, temos a chance, inconscientemente, de praticar a esperança. De respirar fundo e aliviado. Mas como faz quem mora na cidade grande? Horizonte de metrópole é o prédio da frente, ao lado, atrás. Sua perspectiva é a perspectiva do outro. Ou onde começa a do outro.

Recentemente, foi publicada no site da BBC News uma matéria chamada Déficit de Natureza, que parte de um estudo, que resultou em livro, feito pelo americano Richard Louv, em que ele fala que esse pouco contato com a natureza tem provocado problemas físicos e mentais em crianças. Richard entrevistou 3 mil pais e professores e todos foram unânimes em dizer que não conseguem tirar seus filhos de casa, mesmo que morem perto de áreas verdes. Na sequência, estudos apareceram pra comprovar que crianças que não têm contato com verde desenvolvem problemas como obesidade, depressão, hiperatividade, déficit de atenção e… déficit de natureza.

“As crianças hoje passam menos horas ao ar livre e, consequentemente, mais tempo confinadas em casa, vendo TV ou jogando videogame. Essa é uma das grandes causas da obesidade infantil. Meninos e meninas que ficam na frente de telinhas são menos ativos do que os que correm no parque, sobem em árvores…”, fala em entrevista na matéria. Como consequência temos crianças hiperativas e escolas, cada vez mais, mandando pais procurarem psicólogos e darem ritalina a seus filhos. Nos Estados Unidos, 30% das crianças que frequentam escolas tomam o medicamento. O Brasil é o segundo país com maior índice de indicação. Algo está errado, certo? O bom senso já pode nos dizer isso, sem precisarmos de pesquisas ou estudos.

Mas que bom que sempre tem alguém nadando contra a maré. Muitas escolas já perceberam o quanto ficar longe do verde pode afetar o desenvolvimento da criança em diferentes frentes. Hortas, aulas de jardinagens, passeios por parques, parquinhos com menos brinquedos de plásticos e mais troncos e árvores, tudo isso ajuda. A educadora Maria Amélia Pinho Pereira, sócia sócia-fundadora da escola Vera Cruz e hoje à frente da Casa Redonda, Centro de Estudos, defende que o tempo e o ritmo da criança deve ser o mesmo da natureza. Dessa forma preservamos e ensinamos sobre ritmo, constância, espera, respeito, desafios.

Desafios. Subir numa árvore é um deles. Exige que a criança tenha noção do próprio corpo. Do peso que ele tem, do equilíbrio que se precisa. Da flexibilidade da perna e do braço. Exige que ela faça escolhas. Em que galho subir ou apoiar o corpo. Ou até onde subir. A possibilidade de olhar o mundo lá de cima. De olhar o horizonte. De exercitar o olhar. Morar na selva de pedra nos dá muitas possibilidades, mas talvez nos tire, ou nos distancie, do que temos de mais importante, que é a essência. Das raízes que nos erguem. Esse contato com a natureza, definitivamente, reestabelece essa conexão. De tempos em tempos, é preciso ver o mar. Ver o finito da fundura. O horizonte. Aquela linha que parece dividir o céu da terra e do mar.