Chato é ficar pela casa dizendo a eles “nossa, como você tá chato!” ou “credo, que mau humor”, “sai desse quarto, não sabe fazer outra coisa?”. E a gente, será que sabemos fazer outra coisa que não reclamar deles?

Filhos crescem nas férias. Não sei o que acontece, mas eles voltam às aulas mais maduros, espichados e crescidos. Algum fenômeno que a medicina convencional não explica. Precisa dos olhos da gente pra constatar. E aqui em casa não foi diferente.

Vi o último habitante da infância adolescer de vez. Por trinta dias consecutivos ele mais virou a cara que sorriu, habitou o estado do mau humor como ninguém. Perdeu as bochechas recheadas e rosadas, ganhou um rosto fino e esticado. As espinhas deram conta de descer pelo corpo que agora mede 1,69 e calça 41. Tivemos dias bons e outros não tão bons.

Alguns ele me chamava pra fazer bolo, jogar um jogo e até conversar. Outros eu estava proibida de entrar no seu quarto. Tudo dependia de tudo. Adolescência parece ser assim, sensível às mudanças do vento. E este não é um fenômeno exclusivo da minha casa. Acontece por toda vizinhança.

Esses dias uma amiga me escreveu dizendo que raramente encontra “aquele menino falante, doce e carinhoso” que antes tinha pela casa. “Tenho um filho quieto e cheio de espinhas”, diz. Na mesma semana, uma leitora mandou um inbox pedindo conselho sobre o que fazer com a filha de 13 anos que respondia, enfrentava e não obedecia. Ela queria bater na menina com “vara”, “eu e minhas irmãs fomos educadas assim e não vou permitir que minha filha não me respeite”, continuou.

“Ter adolescente em casa nos foge a reflexão”, escreveu uma outra leitora. E eu fiquei pensando o quanto é importante a gente falar com mais frequência sobre esta fase tão complexa. De quando filho deixa de ser criança e experimenta, pela primeira vez, o gosto do mundo dos adultos – mundo este inexistente daqueles “momentos fofos” que preenchem tão bem a infância.

Filho quando é pequeno, criança, é sempre uma graça. Tudo que eles fazem a gente sorri, acha o máximo, comemora, elogia. Tudo é fofo. Brincar, bagunçar a casa, deixar brinquedos pelo caminho, nada incomoda. Nem quando você pisa numa pecinha de Lego pelo chão. Pelo contrário. São sinais de infância na vida dos pais e qualquer novo gesto vira fotografia que vira memória. É uma maneira, também, do adulto reviver um tempo tão cheio de boas lembranças.

Mas basta eles crescerem pra começarem os incômodos e as reclamações. Agora o chinelo jogado aborrece, o casaco esquecido na cadeira é sinal de desleixo e chateia ter que falar mais uma vez pra “guardar essa roupa”, a cama desarrumada nem pensar, aquele banheiro com cabelo na pia ou coisas esquecidas abertas é inaceitável e quase tudo é razão de discussão.

A casa perde a ternura e, por vezes vira palco de guerra – cabo de força. Adolescentes se tornam chatos. Mas será? Conviver com eles pode ser um fardo sim, mas o quanto somos responsáveis por este peso?

Pense você como se sentiria numa casa onde seus pais, ou quem quer que more junto, passasse o dia te dizendo o quanto você está chato, o quanto você não colabora, que acorda sempre de mau humor, que não aguenta mais sua cara fechada, que você não ajuda em nada, que você é ingrato, que isso e aquilo.

Por que a gente perde a capacidade de elogiar filho?

Não é fácil adolescer e nada justifica falta de educação, mas já parou pra pensar o quanto a gente passa tempo apontando coisas negativas nesses meninos e meninas? Por que se deixa de elogiar? Ou elogia tão pouco. De comemorar junto, de fotografar os pequenos momentos. De criar memória, lembrança boa que a gente carrega na vida. Quem é que quer crescer assim? O que isso colabora pra autoestima e o desenvolvimento psíquico-emocional deles?

É duro crescer, é duro entrar na adolescência e se despedir de tantos lugares seguros e conhecidos da infância. Eles não têm mais o álibi da carinha corada e do corpo rechonchudo. Perdem o carisma, ganham fama de chatos e ainda precisam lidar quase que sozinhos – alguns, realmente sozinhos – com tudo que encontram de novo e diferente na frente do espelho.

É ali, trancados no banheiro, que eles encontram uma forma segura de autoconhecimento. Dá pra fazer o reconhecimento da área com calma. Mas será que eles têm maturidade pra enfrentar as tantas perguntas que o espelho nos devolve?

A adolescência, assim como a maternidade, está cheia de clichês e a gente só vai conseguir fazer diferente, se for capaz de olhar pra estes momentos de rupturas de maneira mais gentil. Tanto com a gente mesmo quanto com os filhos. Se a gente insistir no lugar de mãe rejeitada e filho ingrato, vai sair todo mundo machucado.

Porque dói não ter mais acesso a todos os espaços e sentimentos. Dói ser colocada de lado, baterem a porta na sua cara, não quererem falar ou contar o que está acontecendo. Dói não ser mais a escolhida da vez – ou ser o mico da vez. Mas dói também pra quem cresce.

Se despedir da infância e adentrar a adolescência é dolorido pacas! E não tem outro jeito de ser. Nem pra gente, nem pra eles que têm de se descolar de uma série de certezas e lugares seguros – a brincadeira é um deles, o corpo é outro. Passam a existir na frente do espelho com inúmeras preocupações que antes se chamavam “descobertas”. Aliás, preocupação é palavra que entra no vocabulário dos adolescentes.

Se preocupam com o que reflete. Com a espinha, o fio de cabelo fora de lugar, a gordura no corpo que mal existe. Se preocupam com o que os outros falam, em serem aceitos ou não. Precisam pertencer uma vez que não pertencem mais àquela imagem de pai e mãe. “Ter” e “ser” são verbos que entram pra ficar. E pouco falam com a gente pra tentar diluir tanto nó dentro do peito – e no pensar.

A gente cabe ficar ali do lado, quase quieta, respeitando esse espaço que é novo pra todo mundo. Dói? Dói. Dói ver filho crescer e se desprender do nosso corpo de vez. Mas vou repetir: dói pra eles também e a gente precisa aprender a ser mais empático com os filhos.

É preciso aprender a acolher filho que cresce, assim como a gente faz na infância, com a criança pequena. Adolescência não é um saco. Saco é achar que todo adolescente é chato.