O mundo não tem se mostrado um lugar acolhedor de viver. Na verdade, nós, humanos, temos tornado a vida exaustiva, dura e cruel. Adolescentes têm vivido situações permanentes de sofrimento emocional e têm dado sinais de que não aguentam. Precisamos parar e olhar. É urgente.

Quando o compositor e cantor Renato Russo, do Legião Urbana, escreveu Há Tempos ele estava numa depressão aguda. A letra da música trazia não só os sentimentos dele, como o que o rodeava. “Parece cocaína, mas é só tristeza…“, quem não lembra deste começo?

Uma mistura de euforia e melancolia que vem na sequência e que segue nessa toada. Escrita em 1989, fala de um sentimento que é universal, atemporal, e a música me saltou aos ouvidos quando tocou na rádio dia desses. “E há tempos são os jovens que adoecem, e há tempos o encanto está ausente...”.

O encanto está ausente. E semana passada, um acontecimento numa escola privada da grande São Paulo movimentou grupos de whatsapp de pais e escolas. O assunto não é novo, infelizmente, e ele assusta. Assusta porque não sabemos como lidar, não conseguimos achar respostas, não sabemos o que falar para os filhos. Temos medo de que nossos próprios filhos também se machuquem, também cometam suicídio.

Só que suicídio é uma palavra difícil. Difícil até de se pronunciar. Não porque exige uma habilidade fonética mais elaborada, mas pelo fato de carregar medo, dor e uma pergunta que parece não ter resposta: por quê? Enfrentar a morte abrupta de uma pessoa não é algo que o ser humano tenha recursos fáceis para lidar. E enfrentar a morte de um adolescente no exato momento em que a vida pulsa com tanto vigor e afinco, chega a ser inaceitável.

Mas o que a gente, parte dessa sociedade, precisa começar a fazer é dar nome as dores dos adolescentes. Porque se nós, adultos, não formos capazes de nomear esses sentimentos, não seremos capazes de ajudá-los a lidarem com o que anda agoniando, angustiando e até tirando a vida. Há tempos são os jovens que adoecem.

É preciso falar sobre depressão, ansiedade, medo, morte. É preciso falar sobre as dores. Porque a dor é uma sensação tão desagradável que chega a limitar as capacidades da pessoa ao longo da rotina. Dor interrompe a vida, em certa instância. Tira a gente do sono, tira a gente do sonho.

Dor tira a gente da capacidade de pensar. Dor tira sorriso. Impede a gargalhada. E veja, assim como somos contagiados com a risada do outro, somos contaminados pela tristeza. Às vezes, a gente ri só poque o amigo está se matando de rir ao lado. Mas, às vezes, a gente também se machuca porque o amigo ao lado está se machucando.

A gente pode não querer falar, publicar, anunciar que suicídio é um problema entre os jovens. Existe o efeito Werther, que se refere a um pico de outros suicídios depois que um primeiro é amplamente divulgado, e dá medo. Medo de que uma morte seja gatilho para outras.

Existem vários termos: suicídio em série, por contágio, em cluster. Estes, causados por aprendizagem social de comportamentos relacionados a, ou “suicídios copiados”. É assustador, sim. Uma simples busca na internet é o suficiente para paralisar um adulto.

Tentamos preservar os filhos, os filhos de amigos e evitamos o uso de qualquer palavra como se ela, por si só, já fosse capaz de matar. Mas tem algumas que são insubstituíveis por mais dolorosas que sejam e entre nós, adultos, precisamos falar. Precisamos também, nos sentarmos na beirada da cama dos filhos e recuperar os diálogos, as conversas. Perguntar como andam as coisas, mesmo que eles não respondam. É importante saberem que existe espaço para dizer.

Ainda que a própria humanidade esteja enfrentando o auge de inabilidade social. Viver no mundo hoje é tão conflitante, requer tanta habilidade que é exaustivo. As relações passaram a ser cansativas porque exigem contornos nas falas, exigem moderações nos gestos. Exigem enfrentamentos de preconceitos. Viver passou a ser custoso.

E se tem sido difícil a nós, adultos, nos entendermos, imagine a eles, adolescentes. Que compreendem tudo, vivem tudo, carregam as angústias do mundo mais as próprias, mas têm pouquíssimos, ou quase nada de recursos para lidar com tantas dores.

Toda vez que um adolescente tira a própria vida, deveria acender um alerta de “opa! O que estamos deixando de perceber?”. Quais conversas estamos com medo de ter? Quais perguntas não faço para meu filho? Por quê? Não para que se carregue culpa, mas para que se assuma responsabilidade. Suicídio é um problema de saúde pública e tudo que é público pertence a todos.

Precisamos começar a nos responsabilizar por todo e qualquer adolescente, como, muitas vezes, fazemos com as crianças. Precisamos começar a olhar o adolescente com mais empatia, mais gentileza, e entender que a escola não é responsável por resolver todos conflitos sociais e emocionais que acontecem entre eles.

Ainda que ela acolha, que ela tenha equipe de orientadores e psicopedagogos para atender e conversas com alunos regularmente, sozinha, ela não vai conseguir salvar essa geração.

As angústias, os medos, os conflitos e as dores que vivem dentro de um adolescente, vivem nele 24h por dia. Do momento em que ele acorda até a hora de dormir. As horas que ele passa sozinho no quarto, está lidando – ou tentando lidar – de alguma maneira.

Quando ele pega a mochila e vai para à escola, leva junto não só o peso dos livros, mas os pesos que estão bem no meio do peito. Adolescentes estão machucados e estão se machucando e é urgente que se olhe para eles com carinho, atenção, cuidado e respeito. Vou repetir muitas e muitas vezes porque o suicídio é a 2ª causa de morte entre jovens no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2019.

A cada 46 minutos uma pessoa tira a própria vida. A maioria é homem, negro e com idade entre 10 e 29 anos. Dez anos estamos falando de uma criança. Entre os jovens, cerca de 96,8% dos casos estão relacionados às doenças mentais que, segundo médicos e psiquiatras, são tratáveis.

Você sabe o que é uma doença mental? É uma condição na saúde que envolve mudanças de emoções, pensamentos e comportamento. As mais graves, ou agudas, são chamadas de transtornos que é quando “tira” o indivíduo do convívio social. Aqui estamos falando de esquizofrenia, demência, autismo.

Nas demais, depressão e ansiedade são as mais “comuns” entre os adolescentes. Sensações de vergonha, desilusão amorosa, desonra, fobia e estresses podem ser gatilhos. Não causas, mas disparadores. Somado a isto, adicione todas as questões da própria adolescência.

É a aparência que não é a que ele gostaria de ter, o corpo que incomoda, o grupo que ele não consegue pertencer, ou o que ele faz parte, mas que faz piadinhas que ele acaba se calando. Os fatores são passíveis de uma lista infinita e o que pode ser pequeno ou fútil para um adulto, é do tamanho do mundo para o adolescente.

Sabe quando uma criança está correndo, ela cai e a gente diz “não foi nada”? Essa esfolada aparentemente boba não é coisa pequena quando a gente olha para os tombos do adolescente. Minimizar ou menosprezar as questões que eles trazem é a pior “ajuda” que alguém pode dar.

É preciso tratar as dores como elas devem ser tratadas, assim a gente valoriza a vida e não a morte. Por isto que existe uma grande preocupação com a saúde metal dos jovens por médicos e psiquiatras. Porque é preciso mantê-los saudáveis, emocionalmente saudáveis.

Cuidar para que a ansiedade e a depressão não atinjam níveis que incapacitem o adolescente do convívio social. Para que não os tire das relações – ou da própria vida. Porque quando eles não conseguem aliviar o sofrimento interno, cometer suicídio é uma forma de acabar com a dor. De pôr fim à violência que vive dentro.

Sem mais.