Os desafios de criar um filho adolescente certamente existem, mas a mesma fase é cheia de momentos bons e felizes. Está na hora de romper esse tabu

Adolescência parece ser sinônimo daqueles desafios de “acampamento de aventura”, sabe? Com o “a mais” de que você pouco de diverte, mas muito se estressa tamanho é o grau de enfrentamento de obstáculos.

É fácil elencar uma sequência de problemas: mau humor, excesso de uso de tela, eles são distantes, se tornam irreconhecíveis – cadê aquela criança que outro dia estava aqui? – mudam muito rápido, batem a porta do quarto, vivem trancados no banheiro, te respondem bufando, usam bebidas e drogas, mas não querem lavar uma louça na pia.

O quarto costuma ser uma zona, vivem num mundo paralelo, são monossilábicos e quando resolvem falar, argumentam. Fazer uma lista de problemas e defeitos que existem na adolescência é pra lá de rápido e fácil. É como se a gente elencasse sintomas comuns de uma dor de barriga. Mas será que se resume a isto? Será que precisamos sempre apontar o dedo ao adolescente e desmerecer quase tudo que vem dele?

Adolescência é um grande tabu e a gente deveria quebrá-lo. Pelo bem dos filhos, pelo bem dos pais e da própria nação. Passar cerca de dez anos fazendo reclamações constantes dessa pessoinha que, na grande maioria das vezes, foi desejada e planejada não parece fazer muito sentido. Adolescentes não são chatos.

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E ainda que você diga não mais reconhecer aquele bebê fofo que outro dia estava engatinhando pela sala, acredite, ele está aí bem na sua frente. Mudou de tamanho, o cabelo engrossou, provavelmente trocou a pele lisinha por uma mais oleosa, mas tenho certeza de que continua macia. Continua boa de dar beijos abraços esmagadores.

Educar dá trabalho e isso vale também para quando os filhos entram na adolescência. Mesmo que já tenham crescido e ganhado autonomia, não são independentes e ainda precisam do contorno dos pais. Isso quer dizer: carinho e limites. E isto só é possível de se dar e fazer quando existe aceitação.

É preciso desmistificar esta fase da vida e aprender a olhar o que ela também tem de bom – porque tem – e como nós, adultos da relação, podemos contribuir para que o cotidiano seja mais saudável a todos. Sim, essa responsabilidade é do adulto.

Adolescentes sabem argumentar, rebater fala de pai e mãe, dizer o que pensam com veemência, mas ainda tem poucos recursos internos para lidar com os sentimentos e as emoções. Por isso, além das questões físicas e hormonais, as oscilações constantes de humor.

Existe uma explicação médica, científica, para justificar esses altos e baixos do adolescente. Aquela coisa de “uma hora ele tá uma graça comigo e 5min depois parece que quer me matar” é totalmente verídica, mas o sujeito não tem controle físico nem repertório emocional para controlar a explosão interna.

E o que não é fácil para você, pai, mãe, avó ou responsável legal, também está longe de ser para o adolescente. Mas repito: eles não têm ainda recursos internos para lidar com sentimentos e emoções como os adultos têm. O papel de “controlar” a situação e as explosões quase que diárias é do adulto. Mas como fazer? Como lidar com os desafios de criar um filho adolescente sem cair nas armadilhas clichês que nos vendem?

A internet está cheia de matérias falando de como eles são chatos, como trazem problemas, além da enxurrada de reclamações do que eles não fazem, deixam de fazer e quando fazem, fazem errado. Será que eles são tão insuportáveis assim? Ou será que pais e mães também precisam aprender a se relacionar com o adolescente? Como aprendeu quando era bebê ou criança.

Ser pai de um adolescente é uma conversa possível. Totalmente possível. Mas é preciso estar disponível como se estava para quando esta mesma pessoa era um toquinho de gente e você, ainda que exausto, dava conta de todas as demandas, choros, cólicas, ataques e “eu quero” do seu filho.

É preciso estar disposto a quebrar os estigmas e quebrar o tabu por trás do adolescer. A gente costuma “desistir” deles quando entram na idade da ilha (conhece essa brincadeira? Leva para uma ilha distante e busca 10 anos depois). A gente costuma despencar uma lista de reclamações sobre. E quem, com tanto dedo apontado, vai continuar te sorrindo e sendo gentil?

O maior desafio de criar filhos adolescentes não é lidar com todas as queixas que rapidamente sabemos elencar, mas se dispor – se colocar à disposição – de estabelecer uma conversa possível com eles. Sim, existe uma conversa que é possível de acontecer e a grande maioria de nós não está disponível como estava para essa mesma pessoa quando ele tinha 2, 3, 5 anos.

Qual foi a última vez que você deu colo para o seu adolescente? Não vale dizer que ele que não quer. Existem muitas formas de dar colo. Já pensou em fazer um elogio ao som que ele escuta? Já pensou em assistir as séries que ele gosta? Já pensou em elogiar alguém que ele admira?

Já pensou que para além das notas boas que ele “não faz mais q obrigação de tirar”, ele pode ser bom em outras coisas? E tem talentos e habilidades que podem não ser as que você sonha, mas são incríveis?

Se reconhecer como pais de um adolescente é uma conversa possível. Mas é preciso olhar para essa figurinha que você diz não mais reconhecer e reconhecê-la. Como alguém que cresceu, que diz o que pensa, que tem vontades próprias e que nem sempre vai te abraçar e dizer que te ama. Ainda que te ame profundamente.

Adolescência é um grande tabu e só vai ser diferente se fizermos diferente. Gentileza gera gentileza, lembra? E a gente é o adulto desta história.