A frase é prolixa, eu sei. Mas é preciso marcar. Porque “primeiras vezes” são mesmo especiais. Diferentes. Marcam nossa memória de alguma forma. Mesmo quando a primeira vez parece ser uma besteira. Tipo ir comprar roupas. Isso mesmo: comprar roupas.

Ele é o terceiro de três irmãos. Pela lógica, óbvio, ele herda roupas e sapatos. Ainda tem um gosto especial que é pelas roupas rasgadas. Isso mesmo – de novo. Ele gosta da camiseta surrada, da calça com joelho ralado, do tênis que furou o dedinho e do moletom com o punho esgarçado. Um herdeiro exímio para quem ocupa a posição de terceiro filho. Nada a se preocupar. O que vier ele usa feliz! E ainda diz, com certo orgulho, que a camiseta era do irmão.

Tudo certo até o dia em que este terceiro filho tem uma viagem com o avô e a prima. Hora de começar a pensar na mala e ver o que levar. “Felipe, vamos pensar em duas ou três roupas para os dias que vocês forem jantar fora”. Hum… esbarramos no problema: como sair pra jantar com aquelas roupas furadas e rasgadas? Não tinha como. E ele mesmo se deu conta. Um dia chamou o avô no quarto, mostrou umas roupas e perguntou o que ele achava para a viagem. O silêncio do avô foi a resposta. Depois teve a prima que pediu para que ele caprichasse nas roupas.

Era hora de sair com este terceiro filho para fazer compras. 10 anos e foi a primeira vez que ele teve o privilegio de ir sozinho com a mãe para uma sessão de roupas novas no shopping. Teve direito de escolher a loja que queria (ele sabe do que gosta pelas etiquetas que herda). E lá estávamos nós, com araras a nossa frente e uma gama de opções que ele nunca viu antes. Podia escolher. Podia escolher modelo, cor, tamanho. O que quisesse.

Ficou alguns minutos parado, sem muito saber se ele podia mexer naquele monte de cabides pendurados. “Felipe, vai passando os cabides com tua mão e me diz o que você gosta ou não. Pode escolher o que quiser”. Atenção a essa última frase: “pode escolher o que quiser”. Tudo que uma criança (e um adulto também) quer ouvir. Tipo, vai lá. Escolhe e seja feliz. Uau! E de repente estávamos dentro do provador abarrotados de roupas.

Experimentou uma a uma, com a calma de quem está sentado na cama do seu quarto e pode puxar a calça pela ponta dos pés, escorregar e cair no chão. Escolheu algumas camisas e se preocupou em saber qual ficaria perfeita para qual calça. O mesmo entre as cores. Escolhas feitas e saímos do provador com os braços amontoados de escolhas. Isso. Eram escolhas. Não eram roupas simplesmente. Eram suas primeiras escolhas da sua primeira vez comprando roupas. Inesquecíveis, ao certo. Porque a primeira vez, é sempre a primeira.

Saiu orgulhoso da loja carregando duas sacolas pesadas nas mãos. Não quis ajuda. Mal entrou em casa e foi abrir os papéis de seda para mostrar quais foram suas escolhas ao pai e aos irmãos. No aeroporto, destrancou a mala porque queria que o avô visse as roupas que tinha comprado. As saídas para jantar agora estavam garantidas. Mas mais do que isso, Felipe estava feliz. Com as roupas cheirando loja. Bem diferentes daquelas herdadas pelo terceiro filho – ou terceiro irmão. Às vezes, a gente esquece de olhar para coisas que parecem tão simples. Tão básicas como vestir. Ainda que ele tenha uma mãe que trabalhou anos com moda e teve até uma marca de roupas infantil, terceiro filho está sujeito ao que “sobra”. Mas com as escolhas a gente precisa ter mais olhar. Precisa olhar. Olhar ao terceiro filho como se olha ao primeiro. Porque a primeira vez, é sempre a primeira.

Boa viagem, Felipe.