Quando um assunto é importante, ele chega longe. O Fórum Econômico Mundial, em Davos, recebeu a pauta da Primeira Infância como uma das responsabilidades globais a serem discutidas

Terminou semana passada, 50º. Edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, e assuntos sobre a Primeira Infância foram temas de mesas de conversas.

Um dos maiores avanços da neurociência é ter descoberto que os bebês são muito mais do que uma carga genética. O desenvolvimento de todos os seres humanos encontra-se na combinação da genética com a qualidade das relações que desenvolvemos e do ambiente em que estamos inseridos. O documentário O Começo da Vida, dirigido por Estela Renner, dá uma aula sobre o tema. Mais do que isso: ele nos toca em relação ao tema. Um divisor de águas na sensibilização social para os primeiros anos de vida.

“Como a gente pode pensar num mundo de paz, de aventurança, se o começo da vida não é levado em conta?”. Pergunta que o documentário traz, pergunta que norteia o porquê de tanto cuidado, de tanta preocupação. Os bebês são mais que seres fofos e quando você traz isso pra números e porcentagens, o mundo econômico olha com mais delicadeza. Não porque bebês são fofos – repito – mas porque podem significar mudanças expressivas na economia mundial – ainda que isso não seja dito com tanta objetividade.

De acordo com o norte americano James Hackam, vencedor do Nobel de Economia de 2000, cada dólar investido nos cuidados da Primeira Infância traz um retorno de até 13% na sociedade. Além disso, crianças que receberam uma boa Educação Infantil, recebem, em média, salários 25% a maiores do que outras. Educação infantil de qualidade estimula habilidades socioemocionais e ajuda a reduzir em 65% as chances de indivíduos cometerem crimes violentos, 40% as chances de irem presos e 20% a chance de não terem trabalho (fontes: Sneha, E.; Hojman, A.; Garcia, J.L. and Heckman, J., Early Childhooh education, 2016).

Números, porcentagens, estatísticas e probabilidades. São argumentações concretas para um olhar que exige tanta sensibilidade. Mariana Luz, diretora geral da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, se dedica a garantia de direitos da Primeira Infância, é um desses olhares sensibilizadores. A frente da Fundação, trabalha com a certeza de que desenvolver a criança é desenvolver a sociedade. Em Davos, pela primeira vez, ela fala com a gente sobre a importância do tema e os impactos na economia mundial.

Mariana Luz, diretora da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal

Mariana Luz, diretora da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em Davos

Qual a importância de falar sobre a Primeira Infância em Davos?
O Forum oferece uma oportunidade essencial para envolver os líderes globais a repensar a importância do desenvolvimento da Primeira Infância. O Fórum Econômico já existe há 50 anos e a gente percebeu que os bebês não têm sido contemplados na discussão. Queremos fazer justamente essa conexão, mostrando que, se a gente quer melhorar o mundo, é necessário que se olhe para eles. Diversos estudos mostram que o investimento nessa fase é uma das maneiras mais eficazes e eficientes de proporcionar um mundo mais próspero, equitativo, psicológico e fisicamente saudável. Uma criança bem cuidada se transforma num adulto autônomo, produtivo e saudável e essas são precisamente as características de que precisamos para enfrentar os desafios globais mais complexos. Nesse sentido, participei do encontro realizado entre os integrantes do Young Global Leaders e falamos sobre a importância de buscarmos alternativas que contribuam para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente as metas relacionadas às crianças e ao desenvolvimento infantil.

No que, e como, a Primeira Infância impacta a economia mundial?
De acordo com o norte americano James Heckman, vencedor do Nobel de Economia de 2000, cada dólar investido nos cuidados da primeira infância traz um retorno de até 13% na sociedade. Fora isso, pesquisas mostram que crianças que recebem serviços de qualidade comparativamente mais cedo no início da vida têm maior probabilidade de se tornarem adultos com as habilidades necessárias para o mercado de trabalho. Mas não só isso! O investimento na Primeira Infância diminui as taxas de encarceramento por quase metade e até diminui a incidência de doenças não transmissíveis.

E se pensarmos em termos de sustentabilidade também?
A agenda 2030 da ONU, que estabelece Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, reconhece as crianças são agentes de mudança quando canalizam seu potencial infinito para criar um mundo melhor. Nesse sentido, colocar as crianças no centro das discussões é essencial para pensarmos no que queremos para os próximos anos. Vale ressaltar que várias metas para o desenvolvimento sustentável tem uma correlação com a Primeira Infância. Na questão de erradicação da pobreza, por exemplo, o investimento tem sido documentado como uma das estratégias mais rentáveis para o alívio da pobreza. Fora isso, intervenções nessa fase da vida têm potencial para promover uma neurobiologia saudável, promover a resiliência em crianças e instilar valores e comportamentos que podem reduzir a violência e promover a paz.

Criança mostra desenho feito. Foto Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Criança mostra desenho feito. Foto Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Qual o papel das empresas? Qual responsabilidade?
O investimento necessário e a atuação das empresas são cruciais para o país. Isso é essencial para o bem-estar das crianças, a tranquilidade dos pais enquanto trabalham e até para a sua própria eficiência. No entanto, elas precisam deixar de considerar que as vantagens desse investimento estão apenas atreladas ao futuro – enquanto os custos permanecem no presente. Ao desenvolver políticas que beneficiem as famílias de seus colaboradores, elas não apenas melhoram sua reputação, mas também a sociedade onde estão inseridas e, consequentemente, o mercado em que atuam.

E o que as empresas podem fazer?
Existem alguns pontos que podem ser trabalhados dentro das empresas. A mais clara e direta é a oferta de creches – no próprio espaço da empresa ou fora, pelo auxílio financeiro e logístico para os pais. Mas há inúmeras outras ações: elas vão do espaço dedicado para lactação à adoção de horários flexíveis ou possibilidade de trabalhar em casa; da extensão da licença-paternidade à criação de uma cultura de maior acolhimento dentro das empresas. É preciso que a gente cuide de quem cuida e permita que a família tenha relações e conexões adequadas com as crianças pequenas.

Como auxiliá-las nesse processo?
É necessário todo um trabalho de conscientização. Nós promovemos ações de conscientização com membros do setor privado para que entendam que esse é um investimento necessário e a atuação das empresas é crucial para o país. De acordo com a ReadyNation, uma organização empresarial americana que conta com 1.100 membros, incluindo atuais e ex-CEOs de grandes corporações, unidos pela causa dos investimentos em crianças e jovens, os programas em prol da Primeira Infância têm impacto direto na produtividade dos funcionários. Por saberem que as crianças estão sendo bem cuidadas, os pais podem se concentrar melhor no trabalho e os cuidados com a saúde dos filhos acarretam menos faltas dos pais, por exemplo. Além disso, esse investimento também pode melhorar na imagem da companhia, ajudar na atração de clientes e melhora no ambiente de trabalho.

Quais são os desafios sociais e econômicos da Primeira Infância?
Infelizmente, os desafios são vários e envolvem áreas socioeconômicas, educacionais, e até mesmo saúde e políticas públicas. O risco de ser exposto à violência logo em seus primeiros anos é seríssimo e a gente sabe que ambientes tóxicos são extremamente prejudiciais. Também há o desafio de obter uma vaga na creche, visto que entre as mais vulneráveis, apenas 26% conseguem acesso. Barreiras que pretendemos seguir derrubando em prol da primeira infância.

E quais são as metas?
A longo prazo, a nossa meta é que Primeira Infância não demande por debates, conscientização e luta. Que os primeiros anos de vida de uma criança sejam naturalmente cuidados pela sociedade. Que as políticas públicas, a Educação, a Saúde, as empresas e cada adulto responsável tenham consciência da importância dessa fase e, acima de tudo, atuem em conjunto para preservar e fortalecer a Primeira Infância em nosso país e no mundo.