Semana passada vi na chamada de uma revista “grande” de parentalidade, como a gente chama, a seguinte frase: “Dica para organizar a rotina das crianças e fazê-las entender que tem hora pra tudo”. Não preciso nem dizer que o “tem hora pra tudo” me incomodou profundamente, né? Por que adultos acham que crianças tem que aprender, quando crianças, que tudo precisa ter tempo marcado? Tempo fixo, tempo fechado. Vão me dizer que é porque a vida é assim e quando crescerem terão que aprender. Será? Será que tem que ser ou é a gente que faz ela ser assim?

Visitar a Fundation Miró, em Barcelona, me trouxe clareza de algo que eu já vivia sem consciência. Nunca acreditei na vida como uma possibilidade única, como um caminho em linha reta, em que fatos acontecem após fatos. Sou do espírito livre, da que acredita que muitas coisas são possíveis ao mesmo tempo. Gosto do lado serendipity da vida. Talvez por isso o olhar para a infância.

Não por acaso, só a última sala de Miró é sua linha do tempo. Linha da vida. Uma teia cheia de pontos em intersecções. Nunca uma linha reta como aquelas que a gente vê em livros e aulas de história. A linha do tempo de Miró é como a vida. Ou como a infância. Cheia de curvas, desvios e contornos. Cheia de idas e vindas, de pontos desconexos que se encontram, de sentimentos que permeiam fatos, de movimentos externos que contam sobre os internos. Porque a linha do tempo nunca é linear.

Ninguém vive de uma reta, a não ser a lógica que usa o tempo como medida. Mas linha do tempo é como pensamento de criança, que muda de dia e semana sem se preocupar com a cronologia dos fatos. Importa o que aconteceu, quando é um detalhe da história. Se hoje é ontem ou amanhã será anteontem, não importa.

Criança nasce de tempo, mas sem tempo cronológico. Esse a gente embuti na vida dela mais tarde. Fiquei pensando que encaixar o tempo numa linha deve ser como perder a imaginação. Deve ser um daqueles níveis que a gente avança quando começa a crescer e vai deixando de ser criança. E a gente as ensina a medir, calcular, controlar e restringir o tempo. Pra que a gente possa sempre ir mais rápido, não se atrasar, almoçar na hora, dormir na hora e por aí vai. Afazeres e afazeres marcados por um tempo seco.

O tempo deveria ter mais acaso, mais sopro de vento pra espalhar um pouco das coisas que carrega. Como quando a gente faz aniversário e sopra velas. Sopramos o tempo. Pra comemorar algo da vida – ou re.memorar na companhia. Comemorar é isso, o puxar da memória algo importante, na companhia de pessoas que a gente gosta. Pra depois assoprar o tempo e deixar que ele se espalhe. Na vida.

Criança vive o tempo na infância. O tempo que ela acha no brincar, no fazer, no carinho do outro, no alimento. Um tempo de repetição, de rotina, de segurança. O tempo que, muitas vezes, nos tira certezas, à elas, dá certezas. Talvez porque estejam mais abertas ao acaso, as curvas e aos vai-e-vens da vida.

Porque não faz sentido a vida ser uma linha reta. E é por esta grandeza que ela se apresenta só no final da exposição do Miró, em Barcelona. Linha do tempo não se conta de forma reta. Se conta por linhas curvas, por traços soltos, por cores diversas. Por marcas e por telas agora pintadas. Como tempo de criança. Tempo de infância. Tempo que se permite a ter menos marcas e mais intersecções. Como faz o acaso.